Ed Sheeran decidiu apertar o botão mais óbvio do controle remoto da própria carreira. “Play”, seu oitavo disco de estúdio, nasce como a largada de uma nova série conceitual batizada de Stereo, onde cada álbum levará o nome de um símbolo universal dos aparelhos de mídia. O título por si já é um convite direto: dar o play em Sheeran significa mergulhar em um pop feito para ser absorvido sem esforço, como se fosse trilha sonora automática para qualquer cotidiano.
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O problema é que, nesse movimento, o artista escolhe o caminho mais seguro possível. Depois de uma sequência de trabalhos mais intimistas, em que mostrou disposição em explorar suas raízes acústicas e mergulhar em temas de luto e vulnerabilidade, Sheeran retorna ao território que o consagrou: o pop radiofônico, plastificado e calculado. O discurso era de retomada da grandiosidade, mas o resultado soa mais como repetição.
O disco alterna entre dois polos já conhecidos do cantor: as baladas de violão, prontas para embalar casamentos, e os experimentos em dance-pop que parecem saídos de playlists genéricas das plataformas digitais. Essa limitação de paleta sonora gera um efeito cansativo. A sensação é de estar preso em um loop de fórmulas recicladas, onde cada faixa se confunde com a anterior. Em vez de marcar território com personalidade, “Play” escorrega para a homogeneidade.
É claro que há pontos que funcionam. “Azizam”, com sua melodia grudenta e pulsação global, cumpre o papel de single de impacto, ainda que não vá além da previsibilidade. “Old Phone” traz lirismo e emoção genuína, talvez o momento mais honesto do disco, enquanto “Sapphire” injeta cores culturais interessantes ao evocar elementos da música indiana. São lampejos que lembram do potencial de Sheeran quando decide se arriscar, mas que ficam diluídos no conjunto.
E aqui está o ponto central: “Play” não tem nada de desastroso, mas também carece de ambição real. O acabamento é impecável, a produção é reluzente, os refrões são fáceis de decorar. Porém, falta aquele impacto que transforma canções em experiências. O álbum inteiro poderia tocar em qualquer rádio pop sem causar incômodo, mas também sem deixar memória. A previsibilidade se torna o maior antagonista de Sheeran.
Se em seus primeiros anos ele parecia capaz de unir honestidade e apelo comercial em uma mesma fórmula, aqui o saldo é apenas burocrático. “Play” se acomoda em ser mais um produto de fácil consumo, sem risco de rejeição, mas também sem a centelha criativa que poderia justificar a expectativa criada em torno do início de uma nova fase.
No fim, Ed Sheeran mostra que continua sendo um artista estável, mas incapaz de surpreender. Ele não cai, não erra de forma gritante, mas também não acerta em cheio. É música que cumpre função, mas dificilmente ficará registrada na memória coletiva. “Play” entrega um pop confortável, feito para soar familiar, mas que deixa no ar a dúvida se esse botão pressionado é realmente o de avançar ou apenas o de repetir.
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