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Crítica: “Era uma Vez Minha 1ª Vez”

Texto: Ygor Monroe
15 de setembro de 2026
em Cinemas/Filmes, Resenhas/Críticas

Existe uma diferença considerável entre compreender o público adolescente e saber reproduzir sua linguagem dentro de uma obra de ficção. “Era Uma Vez Minha 1ª Vez” parte de um material que, pelo menos conceitualmente, possui tudo para estabelecer essa aproximação. Inspirado na obra homônima de Thalita Rebouças, o longa acompanha Teresa, Clara, Tuca e Patty durante um período em que amizade, desejo, insegurança e expectativas começam a ocupar lugares diferentes na vida das quatro. Existe uma pauta relevante no centro dessa história e, principalmente, uma oportunidade interessante de falar sobre o despertar da sexualidade feminina sem transformar a primeira experiência sexual em uma espécie de linha de chegada obrigatória da adolescência. O problema é que, quanto mais o filme tenta parecer próximo de seu público, mais artificial essa aproximação se torna.

Crítica: “Era uma Vez Minha 1ª Vez”
Crítica: “Era uma Vez Minha 1ª Vez”

A sensação é particularmente frustrante porque “Era Uma Vez Minha 1ª Vez” é claramente bem intencionado. Existe cuidado em não estabelecer uma experiência universal para suas protagonistas e também uma preocupação em mostrar que cada uma delas desenvolve uma relação diferente com desejo, curiosidade, medo e pressão. Em um cenário no qual histórias adolescentes ainda frequentemente confundem amadurecimento com uma sequência de acontecimentos obrigatórios, existe valor em defender que ninguém precisa estar preparado para alguma coisa simplesmente porque outras pessoas parecem estar. Só que boas intenções não resolvem um filme e, nesse caso, “Era Uma Vez Minha 1ª Vez” quer desesperadamente conversar com adolescentes, mas parece ter sido escrito a partir de uma ideia excessivamente fabricada de como adolescentes conversam quando ninguém mais está ouvindo.

Os diálogos são o primeiro grande problema, não necessariamente pelo conteúdo, mas pela maneira como são organizados, encenados e interpretados. As conversas possuem pouca fluidez e frequentemente parecem construídas para entregar uma informação específica antes de passar para a próxima. Uma personagem fala, a outra espera, responde e a cena continua. Falta interrupção, sobreposição, hesitação, desconforto e aquela sensação de que quatro amigas realmente possuem intimidade suficiente para que uma conversa não precise obedecer a uma organização tão evidente.

Em vários momentos, o longa se aproxima perigosamente da estrutura de uma esquete. Há uma situação, uma preparação relativamente curta, uma fala pensada para provocar reação e uma resposta que encerra aquele pequeno movimento. O problema é que um longa metragem precisa criar continuidade emocional entre esses momentos. Aqui, as cenas frequentemente existem quase como unidades independentes, e essa fragmentação impede que a relação entre as protagonistas adquira a intimidade necessária.

É especialmente curioso porque o filme depende completamente da amizade entre Teresa, Clara, Tuca e Patty. Não basta informar ao público que elas são inseparáveis. Precisamos perceber uma história anterior àquela que estamos assistindo. Amizades antigas possuem códigos, pequenas crueldades, intimidades, assuntos interrompidos e comportamentos que não precisam ser explicados. Em “Era Uma Vez Minha 1ª Vez”, muitas interações parecem começar quando a câmera é ligada e terminar assim que a cena acaba. As personagens estão juntas porque o roteiro diz que são amigas, mas raramente existe a impressão de que continuariam existindo juntas quando a câmera deixasse de acompanhá las.

Isso afeta diretamente o tema central. Falar sobre sexualidade durante a adolescência exige algum grau de vulnerabilidade, e vulnerabilidade só funciona dramaticamente quando acreditamos nas relações construídas ao redor dela. Uma conversa sobre primeira vez, desejo ou insegurança pode ser engraçada, constrangedora, confusa e até completamente banal, mas não pode parecer uma conversa programada exclusivamente para cumprir uma pauta. O roteiro quer normalizar assuntos importantes, e isso é positivo, porém em diversos momentos é possível enxergar a intenção antes de enxergar as personagens. A mensagem chega antes da humanidade e, quando uma obra adolescente começa a demonstrar excessivamente aquilo que pretende ensinar ou discutir, existe o risco de transformar seus personagens em instrumentos para transmitir uma ideia.

Existe uma inteligência emocional muito maior nessa fase da vida do que o filme parece disposto a reconhecer. É justamente um período em que contradições ganham dimensões enormes. Uma pessoa pode se sentir preparada e apavorada ao mesmo tempo, querer alguma coisa e mudar de ideia segundos depois, mentir para amigas e admitir a verdade imediatamente ou transformar uma preocupação gigantesca em piada porque ainda não sabe como lidar com ela. Esse terreno de contradições seria extremamente fértil para “Era Uma Vez Minha 1ª Vez”, mas o longa prefere uma construção muito mais evidente e organizada.

A direção de atores também não consegue resolver essa artificialidade. Há uma sensação constante de espera entre determinadas falas, como se cada integrante do elenco estivesse aguardando a conclusão exata da frase anterior para iniciar sua parte. Isso produz uma cadência pouco orgânica e, em uma história sustentada essencialmente por conversas, torna se especialmente prejudicial. Letícia Braga, Duda Matte, Castorine e o restante do elenco jovem possuem momentos em que conseguem romper essa rigidez, principalmente quando o humor surge de situações menos programadas. São justamente essas pequenas ocasiões que demonstram como o filme poderia funcionar se permitisse às personagens um pouco mais de espontaneidade. Quando a encenação relaxa, aparece uma energia genuinamente divertida, mas quando retorna à necessidade de conduzir cada diálogo para determinada conclusão, essa energia desaparece.

Os adultos apresentam outro problema. Os pais dessas adolescentes parecem pertencer a uma realidade paralela criada especificamente para que o roteiro consiga movimentar determinadas situações. É claro que uma comédia adolescente não precisa reproduzir relações familiares com rigor documental, mas existe uma diferença entre estilização e completa ausência de verossimilhança. Os responsáveis surgem muitas vezes como funções narrativas antes de surgirem como pessoas, e suas reações parecem determinadas pela necessidade da cena, não por uma personalidade previamente construída. Isso deixa o ambiente familiar estranhamente plástico. Para um filme que deseja falar sobre uma etapa da vida marcada justamente pelo confronto entre independência e proteção familiar, seria importante que essas relações possuíssem alguma textura.

A adolescência de “Era Uma Vez Minha 1ª Vez” parece existir dentro de uma bolha criada pelo próprio filme, e essa bolha progressivamente se afasta da realidade que a história afirma querer representar. Esse afastamento poderia funcionar caso houvesse uma proposta estética suficientemente forte para justificá lo. Uma comédia pode exagerar comportamentos, distorcer relações e transformar situações cotidianas em algo quase cartunesco. O problema é que o longa permanece dividido entre uma narrativa que deseja falar com alguma honestidade sobre sexualidade e uma encenação que frequentemente transforma seu universo em caricatura.

Curiosamente, alguns dos momentos mais engraçados surgem exatamente dessa desconexão. Há situações tão distantes de qualquer naturalidade que acabam funcionando pelo absurdo. O problema é que nem mesmo o humor recebe espaço suficiente para respirar, porque existe outro elemento constantemente disputando atenção com as personagens: o som.

A trilha sonora é um dos aspectos técnicos mais problemáticos do longa. Não porque exista algum problema intrínseco com as escolhas musicais, mas porque elas frequentemente parecem incapazes de entender qual espaço deveriam ocupar dentro das cenas. Música não precisa simplesmente acompanhar uma sequência. Ela precisa compreender dramaticamente aquilo que está acontecendo. Em “Era Uma Vez Minha 1ª Vez”, existe uma quantidade excessiva de interferência sonora em momentos que pedem justamente o contrário. Conversas que deveriam estabelecer intimidade precisam disputar espaço com batidas, músicas e elementos ambientes. Há cenas nas quais uma base de funk permanece ao fundo enquanto as personagens tentam sustentar uma conversa que exigiria maior clareza e proximidade, fazendo com que aquilo que deveria produzir energia acabe se transformando apenas em ruído.

O desenho de som parece ter medo do silêncio, e esse medo prejudica justamente os momentos em que o filme mais precisaria confiar em suas atrizes. Nem toda conversa entre adolescentes precisa ser preenchida musicalmente para parecer jovem, assim como nem toda transição precisa ser energizada. Às vezes, retirar elementos é justamente o que permite ao público perceber uma respiração, um constrangimento ou uma mudança no olhar.

Essa ausência de silêncio também contribui para a sensação de que “Era Uma Vez Minha 1ª Vez” está constantemente tentando convencer o espectador de sua própria identidade. O filme quer parecer jovem, então coloca elementos que reconhece como jovens. Quer parecer divertido, então procura sinalizar constantemente o humor. Quer ser emocional, então conduz determinadas cenas para uma conclusão bastante evidente. O resultado demonstra uma falta de confiança nas personagens, no elenco e principalmente no público.

Essa necessidade de controlar a reação do espectador também compromete o desenvolvimento narrativo. Muito cedo é possível perceber para onde determinados conflitos estão caminhando. Previsibilidade, isoladamente, não representa um defeito. Diversas histórias possuem destinos evidentes e continuam excelentes porque o interesse está na maneira como chegam até eles. Aqui, porém, a trajetória também oferece poucas surpresas. Os conflitos seguem caminhos esperados, determinadas decisões parecem anunciadas muito antes de acontecerem e o último ato amplifica essa sensação. Quando a narrativa deveria encontrar sua maior força emocional, passa a organizar os acontecimentos de maneira excessivamente conveniente. As conclusões chegam porque precisam chegar, e não necessariamente porque o filme construiu organicamente cada uma delas.

Isso enfraquece especialmente a proposta de tratar a sexualidade como algo sem cronograma universal. Existe uma ideia muito boa em afirmar que cada personagem possui seu próprio tempo, mas o filme organiza essas jornadas de maneira tão didática que aquilo que deveria parecer descoberta passa a parecer resolução de roteiro. “Era Uma Vez Minha 1ª Vez” compreende a mensagem que deseja transmitir, mas não compreende completamente como transformá la em experiência cinematográfica, e essa diferença é fundamental para entender por que uma história tão bem intencionada acaba encontrando tanta dificuldade para estabelecer identificação.

Cinema adolescente não funciona apenas por reconhecer assuntos presentes na vida de adolescentes. Não basta incluir redes sociais, músicas populares, gírias, festas, romances e conversas sobre sexo. Esses elementos podem ajudar a localizar uma geração, mas identificação nasce principalmente da emoção. O público não precisa necessariamente falar exatamente como uma personagem para se reconhecer nela. Precisa acreditar naquilo que ela sente.

É nesse aspecto que o longa perde uma oportunidade considerável. A história de quatro amigas descobrindo que não existe uma maneira correta ou um momento determinado para viver determinadas experiências poderia produzir uma comédia extremamente íntima e universal. Existe potencial para falar sobre comparação, ansiedade, desejo, consentimento, pressão e insegurança sem transformar o filme em uma aula. O material de Thalita Rebouças oferece justamente uma porta de entrada interessante porque parte de questões reconhecíveis e de uma linguagem tradicionalmente próxima do público jovem. Na adaptação cinematográfica, entretanto, existe uma tentativa tão evidente de atualizar essa proximidade que o resultado frequentemente produz o efeito contrário. Quanto mais “Era Uma Vez Minha 1ª Vez” tenta demonstrar que conhece sua audiência, mais percebemos o esforço necessário para sustentar essa impressão.

Isso não significa que o filme seja completamente desprovido de qualidades. A disposição em tratar sexualidade feminina sem moralismo possui valor, principalmente ao colocar diferentes experiências lado a lado sem estabelecer uma delas como modelo obrigatório. A amizade feminina também permanece como centro da narrativa, evitando que os interesses românticos ocupem completamente a identidade das protagonistas. Há ainda momentos genuinamente simpáticos espalhados pelo longa. Quando as atrizes conseguem escapar da rigidez dos diálogos e simplesmente compartilhar o espaço, surge uma química muito mais próxima daquilo que o filme procura desde o início. Algumas piadas funcionam justamente porque parecem nascer da personalidade das personagens, e não da necessidade de produzir uma situação engraçada. O problema é que esses momentos nunca conseguem se transformar no padrão da obra.

A direção insiste em uma artificialidade que atravessa texto, interpretação, montagem e som. O filme parece sempre ligeiramente consciente demais de que está fazendo um filme para adolescentes e talvez seja justamente por isso que raramente consiga observar suas protagonistas como adolescentes de verdade. Existe algo quase irônico nisso, já que “Era Uma Vez Minha 1ª Vez” fala sobre quatro jovens tentando descobrir quem são enquanto diferentes expectativas são projetadas sobre elas, mas a própria produção também parece incapaz de abandonar aquilo que imagina que um filme jovem deveria ser.

Em vez de encontrar sua identidade a partir das personagens, o longa tenta encaixar as personagens dentro de uma identidade previamente fabricada. Por isso, a comparação com uma esquete surge de maneira tão natural durante a sessão. Não porque o filme seja simplesmente uma sucessão de piadas, mas porque suas cenas frequentemente parecem possuir começo, preparação e conclusão muito evidentes, sem aquela continuidade emocional capaz de transformar pequenos acontecimentos em uma narrativa maior. As personagens entram, cumprem determinada função dramática e seguem para o próximo bloco, fazendo com que a amizade que deveria costurar toda a experiência permaneça superficial demais.

O último ato apenas evidencia problemas que já estavam presentes. A previsibilidade se intensifica, as soluções chegam com facilidade e o filme parece determinado a deixar cada elemento no lugar correto antes dos créditos. Depois de abordar um tema que poderia produzir tantas ambiguidades, terminar de maneira tão organizada soa especialmente artificial, sobretudo porque adolescência e primeiras experiências raramente oferecem encerramentos tão limpos.

Talvez “Era Uma Vez Minha 1ª Vez” tivesse encontrado um filme muito mais interessante se aceitasse um pouco dessa bagunça, permitindo conversas interrompidas, sentimentos contraditórios, pais menos funcionais, silêncios maiores e situações sem uma conclusão imediatamente satisfatória. Existe uma história sobre descobrir o próprio ritmo escondida dentro de uma produção que, paradoxalmente, parece preocupada demais em controlar cada batida.

O que sobra é um longa simpático em sua intenção, mas frustrante em sua execução. Existe uma mensagem importante, um elenco jovem com potencial e um tema que merece continuar ocupando espaço dentro do cinema brasileiro. Só que representatividade temática não substitui construção dramática, assim como boas intenções não transformam automaticamente personagens em pessoas. “Era Uma Vez Minha 1ª Vez” quer dizer às adolescentes que não existe uma fórmula para crescer, desejar ou descobrir a própria sexualidade, e essa é uma mensagem válida. O filme só precisava ter aplicado essa mesma liberdade à própria forma de contar sua história. Se tivesse se preocupado menos em reproduzir aquilo que imagina ser jovem e mais em construir pessoas que realmente parecessem existir naquele universo, provavelmente teria encontrado a autenticidade que procura durante quase toda a projeção.

“Era Uma Vez Minha 1ª Vez”
Direção:
Claudia Castro
Elenco: Letícia Braga, Duda Matte, Livia Silva e Castorine
Disponível em: cinemas a partir de 17 de setembro de 2026

⭐⭐

Avaliação: 2 de 5.

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Temas: CastorineCríticaDuda MatteLetícia BragaResenhaReview

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