Luzes vermelhas invadem os corredores, sirenes cortam o silêncio e um corpo jovem desliza entre dois mundos. O retorno de “Espíritos na Escola” transforma o ambiente escolar em território de fronteira, onde crescer dói ainda mais quando a morte já aconteceu. A terceira temporada aposta em um jogo de espelhos entre vivos e mortos e coloca o espectador diante de uma pergunta incômoda: até quando um mistério sustenta uma história sem perder a própria alma?

Maddie Nears desperta outra vez entre o concreto e o limbo. Interpretada por Peyton List, a personagem sempre foi o eixo emocional da série, uma adolescente tentando resolver o próprio desaparecimento enquanto observa amigos e familiares seguirem sem respostas. O que antes era uma dinâmica instigante, com Maddie transitando pelas frestas do mundo dos vivos por meio de Simon, agora se reorganiza de forma mais confusa. O tabuleiro muda de lugar, mas as peças continuam as mesmas.
Simon, vivido por Kristian Ventura, passa a ocupar o espaço intermediário, preso entre dimensões mesmo estando vivo. A inversão tem potencial dramático, mas a sensação é de repetição estrutural. A série troca os corpos, mas insiste no mesmo labirinto narrativo. O que era novidade na primeira temporada começa a soar como eco.
O grupo de fantasmas que habita Split River High continua funcionando como metáfora de traumas não resolvidos. Wally, Charley, Yuri, Rhonda, Quinn e Janet carregam cicatrizes literais e simbólicas. Janet, interpretada por Jess Gabor, ganha mais espaço e assume uma postura quase estratégica diante das rachaduras sobrenaturais que ameaçam o equilíbrio entre os mundos. Há menções a forças mais sombrias, entidades que mantêm aqueles espíritos presos. Quando a série se aproxima desse horror mais existencial, encontra sua melhor versão.
O problema está no excesso de idas e vindas. Maddie retorna ao convívio dos vivos e precisa reaprender a ocupar um lugar que já não parece seu. A mãe encara a filha como milagre e estranhamento ao mesmo tempo. A escola, agora sob a sombra de uma nova superintendência disposta a fechá-la, amplia o clima de instabilidade. Surge a sensação de que o roteiro quer abraçar drama adolescente, thriller sobrenatural e comentário social, mas hesita em escolher qual dessas frentes aprofundar.
A comparação com “Ghosts” é inevitável, ainda que injusta. Aqui o humor é contido, quase tímido. “Espíritos na Escola” prefere a melancolia. Prefere o olhar perdido de Maddie ao sarcasmo escancarado. E nesse tom mais contido reside parte de seu charme. A série fala sobre pertencimento, sobre a dificuldade de seguir em frente quando algo ficou inacabado.
Mesmo assim, a terceira temporada dá sinais de desgaste. O vínculo entre Maddie e os fantasmas sempre foi o coração da narrativa. Ao deslocar essa dinâmica, a trama parece perder o centro gravitacional. Ver a protagonista interagindo novamente com colegas vivos é interessante, mas também evidencia que sua química com o grupo do além era mais potente. Fica a dúvida se o roteiro encontrará uma nova força motriz ou se continuará girando em círculos entre corredores e salas de caldeira banhadas em vermelho.
Ainda há méritos. A atmosfera continua envolvente, a direção mantém a identidade visual marcada por tons saturados e enquadramentos que reforçam a sensação de aprisionamento. E quando a série decide explorar as fissuras do além, tocando em cicatrizes que ultrapassam a morte, ela mostra que tem algo relevante a dizer.
No fim, “Espíritos na Escola” permanece como um drama sobrenatural sobre juventude interrompida. A questão é saber se essa interrupção ainda provoca impacto ou se já se tornou rotina. Mistério é combustível, mas também pode virar repetição.
“Espíritos na Escola”
Criação: Megan Trinrud
Elenco: Peyton List, Milo Manheim, Kristian Ventura
Disponível em: Paramount+
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