Algumas histórias que não pedem licença para tocar em feridas abertas. Elas chegam com delicadeza, mas também com firmeza, lembrando que identidade não é um conceito abstrato, é sobrevivência cotidiana. “Esta Sou Eu” nasce desse lugar sensível, entre a dor e a celebração, entre o silêncio imposto e a voz que finalmente ecoa.
Baseado na autobiografia de Haruna Ai, o longa acompanha a trajetória de uma mulher trans que precisou enfrentar o peso do julgamento social para, só então, descobrir que a própria existência já era um ato de coragem. A narrativa percorre a infância, os conflitos familiares, os primeiros passos rumo à afirmação de gênero e o encontro decisivo com o médico que mudaria sua vida. Não é apenas uma biografia, é um manifesto sobre o direito de ser.
O filme aposta em uma montanha-russa emocional que alterna momentos de dureza brutal com sequências quase eufóricas. O curioso é como essa transição funciona. Em uma cena, o drama é contido, realista, quase silencioso. Na seguinte, a história explode em cor, música e movimento, como se o corpo finalmente pudesse dançar aquilo que antes era reprimido. Essa oscilação entre o íntimo e o espetáculo não soa artificial, soa libertadora.
A interpretação de Haruki Mochizuki impressiona pela entrega. Há algo de profundamente pessoal em cada gesto, como se o ator compreendesse que representar Haruna exige mais do que técnica, exige respeito. Não se trata de imitação, mas de encarnar vulnerabilidades. E isso faz diferença.
O roteiro, por vezes, divide a atenção entre a protagonista e o Dr. Wada, o cirurgião pioneiro em afirmação de gênero no Japão. Essa dualidade poderia comprometer o ritmo, mas acaba ampliando o alcance da narrativa. A história não fala apenas sobre transição de gênero, fala sobre transformação humana. O médico também carrega suas dores, seus dilemas, suas perdas. Ao cruzar os destinos dos dois, o filme constrói um retrato de cumplicidade e empatia raro em cinebiografias.
Visualmente, “Esta Sou Eu” é um deleite. A paleta de cores, os figurinos, a iluminação, tudo parece pensado para refletir estados emocionais. Tons vibrantes surgem quando a personagem encontra espaços de liberdade. Cores mais frias dominam nos momentos de conflito interno. Nada ali é gratuito. A estética trabalha a favor da narrativa, reforçando que identidade também é expressão.
Como toda cinebiografia, o filme por vezes assume uma estrutura mais convencional, avançando por eventos marcantes quase como capítulos obrigatórios. Ainda assim, a escolha dos momentos retratados demonstra cuidado. Não há exploração sensacionalista do sofrimento. Há, sim, a exposição honesta de uma trajetória difícil, mas repleta de amor.
E talvez seja esse o maior mérito da obra dirigida por Yusaku Matsumoto. Em vez de transformar Haruna em símbolo intocável, o filme a apresenta como pessoa. Com família, amigos, dúvidas, erros e afetos. Os personagens ao redor não são caricaturas nem vilões simplistas. São indivíduos aprendendo, errando e crescendo. A empatia é o fio condutor que sustenta cada cena.
Para um filme japonês centrado na vivência de uma mulher trans, o cuidado na representação é evidente. A narrativa entende a responsabilidade que carrega e trata a história com dignidade. Eventuais questões técnicas ou de ritmo tornam-se secundárias diante da força emocional do conjunto. “Esta Sou Eu” é, acima de tudo, um filme sobre vida. Sobre cair e levantar. Sobre reconhecer que o espelho pode ser um inimigo cruel, mas também pode se tornar um aliado quando a autoaceitação finalmente chega. É impossível atravessar essa jornada sem sentir algo se mover por dentro.
“Esta Sou Eu”
Direção: Yusaku Matsumoto
Elenco: Chihara Seiji, Kaito Yoshimura, Shido Nakamura, Tae Kimura, Takumi Saito
Disponível em: Netflix
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