O que começa como um eco de fim de mundo rapidamente se transforma em algo mais perturbador. O medo aqui deixa de ser biológico e passa a ser moral. Quando a violência perde qualquer freio ético, o verdadeiro horror surge no olhar humano, e é exatamente nesse território que “Extermínio: O Templo dos Ossos” decide fincar suas estacas.

A narrativa avança poucos instantes após os eventos de “28 Years Later”, mas faz questão de romper com qualquer sensação de continuidade confortável. A mudança de tom é imediata, quase agressiva. A direção de Nia DaCosta recusa qualquer tentativa de imitar a estética nervosa que marcou a origem da franquia e aposta em imagens mais compostas, quase ritualísticas, como se o apocalipse tivesse aprendido a se organizar em símbolos, crenças e hierarquias. O caos permanece, porém agora ele carrega método.
No centro desse novo capítulo está o embate silencioso entre ciência, fé distorcida e poder. O Dr. Kelson, vivido por Ralph Fiennes em um de seus trabalhos mais extremos, deixa de ser um observador racional para se tornar parte ativa de um experimento emocional que escapa ao controle. O filme sugere que tentar compreender o horror também cobra um preço, e Fiennes entrega uma performance que oscila entre lucidez, delírio e uma humanidade desconfortável. Nada soa contido. Tudo parece à beira de um colapso pessoal.
Em contraponto, Jimmy Crystal surge como uma força magnética e repulsiva. Jack O’Connell transforma o personagem em um líder carismático que mistura ameaça, humor cruel e um senso de espetáculo que beira o grotesco. Cada cena dominada por Jimmy funciona como um lembrete de que o fanatismo sempre encontra palco em tempos de desespero. A seita que ele comanda simboliza uma evolução sombria do apocalipse apresentado anteriormente. Os infectados continuam presentes, mas agora dividem espaço com algo ainda mais imprevisível: a barbárie organizada.
Nia DaCosta demonstra interesse genuíno por aquilo que geralmente fica à margem em narrativas do gênero. O filme olha para os monstros com empatia inquietante. E isso vale tanto para os infectados quanto para os sobreviventes que cruzaram uma linha invisível. O terror deixa de ser sobre quem perdeu a humanidade e passa a ser sobre quem decidiu abandoná-la. Essa abordagem aproxima o longa de um horror mais psicológico, onde o sangue importa menos do que as escolhas.
Visualmente, o filme abraça contrastes. Há momentos de violência explícita que dialogam com o gore clássico da franquia, mas também sequências quase irônicas, sustentadas por um humor ácido que surge quando menos se espera. Essa combinação cria uma experiência instável, propositalmente desconfortável, como se o espectador jamais pudesse confiar plenamente no tom da cena seguinte. É um filme que provoca, cutuca e se recusa a ser previsível.
O roteiro de Alex Garland reforça a sensação de que este capítulo funciona como o coração de uma trilogia. Muitas ideias são lançadas, debatidas e deixadas em suspensão, criando a percepção clara de que algo maior está sendo construído. O desfecho evita respostas fáceis e aposta em uma conclusão que reorganiza o tabuleiro, preparando o terreno para consequências ainda mais severas.
No fim das contas, “Extermínio: O Templo dos Ossos” confirma que a franquia encontrou um novo fôlego ao se afastar da simples lógica de sobrevivência. O filme entende que o verdadeiro colapso não acontece quando o mundo acaba, mas quando as pessoas passam a justificar qualquer atrocidade em nome de uma nova ordem. É brutal, provocador e estranhamente atual.
“Extermínio: O Templo dos Ossos”
Direção: Nia DaCosta
Elenco: Ralph Fiennes, Jack O’Connell, Alfie Williams
Disponível em: 15 de janeiro nos cinemas
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