“Fã ou Hater?” parte de um conceito narrativo reconhecível e potencialmente eficaz: o da celebridade em declínio obrigada a revisitar suas origens após um colapso público. Contudo, em vez de explorar com profundidade a crise de imagem e identidade da protagonista, o filme opta por uma abordagem simplista, apoiada em clichês dramáticos e estruturas narrativas frágeis, revelando inconsistência tonal e carência de desenvolvimento psicológico. O resultado é uma obra que se apresenta como sátira do universo midiático contemporâneo, mas que falha tanto na construção de personagens críveis quanto na elaboração de um comentário relevante sobre cultura do cancelamento, vaidade e obsessão digital.
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O eixo dramático é Lana Cruz, interpretada por Kate del Castillo, cuja persona de estrela egocêntrica, vaidosa e socialmente inapta é estabelecida desde as primeiras cenas, mas nunca é efetivamente decomposta ou transformada ao longo do arco dramático. A premissa da queda pública iniciada por um episódio viral de violência simbólica, no qual Lana agride um fã em busca de uma selfie é mobilizada como disparador da narrativa, mas rapidamente dilui-se em situações caricatas e estagnadas. A partir desse incidente, o filme tenta seguir a lógica clássica do “fall from grace”, com uma trajetória que incluiria queda, isolamento, enfrentamento interno e eventual renascimento. No entanto, essa estrutura é sabotada pela ausência de transição dramática real: a personagem inicia e conclui o filme sob o mesmo registro de egocentrismo e superficialidade emocional. A pretensa redenção, apresentada de forma abrupta nos minutos finais, carece de construção narrativa e perde completamente seu poder de convencimento.
O roteiro, em sua tentativa de equilibrar comédia satírica e comentário social, falha em ambos os campos. A relação entre Lana e Polly (Diana Bovio), inicialmente promissora, degenera rapidamente em interações desprovidas de verossimilhança. Polly, concebida como figura antagônica-afetuosa e aspiracionalmente excêntrica, é desenhada com traços tão caricaturais que sua função dramática torna-se apenas funcional. Sua histeria constante compromete qualquer dimensão empática ou dialógica, revelando uma escrita que confunde excentricidade com comicidade. O conflito entre as duas, que deveria encenar o embate entre o narcisismo do estrelato e a obsessão tóxica do fã, é reduzido a um jogo de arquétipos rasos, em que a tensão narrativa nunca se converte em drama legítimo.
Há, no entanto, momentos isolados em que o filme parece esboçar um subtexto mais interessante. As breves inserções sobre a infância de Lana, sua relação com a mãe e os traumas precoces ligados à fama infantil, sugerem um caminho possível de aprofundamento psicológico e estrutura trágica. Infelizmente, essas pistas dramáticas são descartadas com a mesma rapidez com que são apresentadas. O filme prefere seguir por montagens de redes sociais, cenas pastelonas e gags superficiais que transformam o que poderia ser um estudo mordaz sobre a decadência e a artificialidade da cultura pop em um desfile de situações previsíveis. A personagem Greta, a única que poderia representar um contraponto mais realista dentro da trama, é relegada a um papel acessório, sem tempo dramático suficiente para exercer qualquer influência relevante.
Em termos formais, a obra também carece de identidade. O uso de redes sociais como elemento narrativo, recurso que poderia ser empregado como ferramenta de crítica e exposição é reduzido a estéticas datadas e transições visuais que remetem mais à linguagem de aplicativos do que a uma escolha cinematográfica consciente. A direção, por sua vez, revela-se incapaz de estabelecer uma coerência tonal entre as cenas dramáticas e os momentos de humor, oscilando entre o farsesco e o didático sem assumir uma posição clara sobre o que pretende comunicar.
A atuação de Kate del Castillo, embora competentemente calibrada para o tipo de personagem proposto, sofre com a limitação do texto. A atriz se destaca nos primeiros minutos, especialmente na sequência inicial de colapso público, onde consegue equilibrar o cansaço existencial da celebridade com uma arrogância performática. No entanto, sem um roteiro que lhe ofereça variação de registro ou densidade emocional progressiva, sua performance rapidamente se torna repetitiva e desprovida de força transformadora. Diana Bovio, em contrapartida, é prejudicada por uma direção que insiste em empurrar sua personagem para um tipo de comédia física que soa deslocada e pouco eficiente.
“Fã ou Hater?” poderia ter sido uma sátira ácida sobre a lógica das celebridades descartáveis, os ciclos de cancelamento nas redes e o colapso da identidade sob o peso da performance pública. Ao invés disso, entrega-se a uma estrutura superficial, em que o conflito central jamais ganha corpo e os personagens são vetores de ideias incompletas. A tentativa de redimir Lana no clímax final não é apenas inverossímil, mas revela uma incompreensão estrutural da própria jornada que o filme se propõe a narrar. O que resta ao espectador é o vácuo: a ausência de transformação, de ironia bem articulada ou de qualquer construção dramática minimamente eficaz. Um projeto com potencial, mas sabotado por escolhas narrativas simplificadoras e por um descompromisso evidente com a elaboração de personagens humanos em meio ao espetáculo.
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