O cinema de ação vive ciclos curiosos. Em um momento, a indústria redescobre a força dos thrillers urbanos sujos, carregados de tensão moral e personagens quebrados. No seguinte, surgem continuações que parecem existir apenas porque alguém acreditou que repetir fórmulas bastaria para sustentar uma franquia. “Farejando Vingança 2: Cidade dos Lobos” nasce exatamente nesse ponto de desgaste criativo, onde a promessa de intensidade se perde em decisões narrativas desconectadas da própria lógica interna da história.
A premissa ainda carrega potencial dramático. Jake, ex-policial K-9 tentando reconstruir a vida após um passado traumático, vê sua estabilidade desmoronar quando uma gangue destrói o que restava de sua normalidade. Ao lado do novo parceiro canino Argos, o protagonista mergulha em uma espiral de violência, culpa e vingança. No papel, existe matéria-prima para um thriller emocional, algo que poderia dialogar com clássicos modernos do gênero policial. O problema surge quando o filme abandona coerência em troca de acontecimentos que parecem empilhados sem qualquer preocupação estrutural.
A narrativa avança como se cada cena tivesse sido escrita isoladamente, ignorando consequências dramáticas anteriores. A organização criminosa assume proporções quase sobrenaturais, com acesso irrestrito a câmeras, sistemas de vigilância e manipulações jurídicas improváveis. O roteiro tenta construir uma conspiração gigantesca, mas esquece de convencer o espectador de que aquele universo funciona minimamente.
Esse tipo de exagero até poderia funcionar dentro de uma proposta estilizada, algo próximo do hiper-realismo de franquias modernas de ação. Contudo, “Cidade dos Lobos” se leva a sério demais para justificar seus próprios absurdos. A lógica narrativa quebra repetidamente, principalmente quando o protagonista é incriminado por crimes que o próprio filme demonstra serem impossíveis de sustentar. O suspense deixa de existir porque a história passa a depender de coincidências forçadas, e não de escolhas dramáticas consistentes.
Outro ponto que enfraquece o conjunto está na continuidade emocional. Elementos estabelecidos anteriormente surgem aqui quase como lembranças mal organizadas. Relações familiares, evolução pessoal e até a passagem do tempo parecem ignoradas. Personagens envelhecem ou permanecem iguais conforme a conveniência da cena. A sensação constante é de assistir a uma sequência que esqueceu o próprio passado enquanto tenta fingir profundidade.
Aaron Eckhart assume o papel central com evidente profissionalismo, mas o material oferecido limita qualquer nuance. O ator trabalha dentro de um registro automático, quase protocolar, como alguém tentando sustentar dignidade em meio ao caos criativo. O restante do elenco enfrenta o mesmo obstáculo. Nenhuma atuação consegue florescer quando os personagens são conduzidos por decisões irracionais que servem apenas ao avanço artificial da trama.
O antagonista representa talvez o maior símbolo desse desalinhamento tonal. Construído como uma presença misteriosa, quase mitológica, ele surge envolto em sombras e culmina em uma revelação visual que flerta involuntariamente com o caricatural. O que deveria gerar ameaça transforma-se em estranhamento involuntário. O filme parece acreditar em sua própria grandiosidade, enquanto o público percebe um vilão que jamais encontra identidade narrativa real.
Tecnicamente, a produção também enfrenta dificuldades. As sequências de ação carecem de impacto físico e clareza espacial. A montagem fragmentada impede que os confrontos transmitam urgência, e a direção opta por enquadramentos que diluem tensão em vez de ampliá-la. O resultado é um thriller que raramente acelera o pulso, algo especialmente problemático para um longa que depende justamente da adrenalina para funcionar.
Curiosamente, um dos momentos mais memoráveis surge fora da ação principal, em uma conversa aleatória sobre teorias conspiratórias envolvendo figuras políticas americanas. A cena provoca interesse justamente por lembrar o espectador de algo mais criativo do que o próprio filme consegue entregar. Quando a referência externa se torna mais interessante que a narrativa central, o desgaste criativo fica evidente.
“Farejando Vingança 2: Cidade dos Lobos” demonstra como continuações podem perder identidade ao ampliar escala sem fortalecer fundamentos. O primeiro filme encontrava algum equilíbrio dentro de suas limitações. Aqui, a tentativa de expandir o universo resulta em excesso, incoerência e falta de direção emocional. A produção tenta ser maior, mais sombria e mais intensa, mas termina revelando um projeto sem foco claro sobre o que deseja contar.
No fim, permanece a impressão de um thriller que poderia explorar trauma, redenção e parceria humana com sensibilidade, mas escolhe atalhos narrativos que sabotam sua própria força. O espectador acompanha a jornada esperando evolução dramática e encontra uma sucessão de eventos que confundem intensidade com barulho.
“Farejando Vingança 2: Cidade dos Lobos” acaba funcionando como um estudo involuntário sobre como a escala nunca substitui uma boa história.
“Farejando Vingança 2: Cidade dos Lobos”
Direção: John Stalberg Jr.
Elenco: Aaron Eckhart, Tanya van Graan, Adrian Collins, Dean Goldblum, Dominique Maher, Ema Negoescu
Disponível em: Telecine
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