Tem filme que nasce com a promessa de ser leve, ensolarado, daqueles que funcionam como brisa de fim de tarde. E tem filme que confunde leveza com ausência de conflito. “Férias Forçadas” entra nessa segunda categoria com uma convicção curiosa, quase didática, como se acreditasse que reunir pessoas diferentes sob o mesmo teto já fosse suficiente para criar faísca. Não é.
A premissa até flerta com o caos organizado das boas comédias de verão. Três núcleos completamente distintos acabam reservando a mesma casa de praia em plena alta temporada. De um lado, uma família abastada tentando reconstruir laços que o dinheiro já não sustenta. De outro, um clã de classe trabalhadora que só quer alguns dias de descanso. No meio disso, uma editora literária em crise profissional e um influenciador digital em ascensão, unidos por um projeto editorial que o roteiro menciona, mas nunca desenvolve com clareza. O conflito está dado, mas o desenvolvimento simplesmente não acompanha.
O longa parte da comédia italiana “Odio l’estate”, que também ganhou versão espanhola, e agora recebe essa adaptação francesa. Existe uma tendência recente de reciclar fórmulas mediterrâneas de humor sobre férias desastrosas, apostando na identificação cultural e em arquétipos familiares universais. A teoria é sedutora. Na prática, “Férias Forçadas” opta por um caminho excessivamente morno. As diferenças sociais e comportamentais que poderiam gerar situações realmente desconfortáveis acabam diluídas em diálogos educados e pequenas rusgas que jamais se transformam em embates relevantes. Falta ambição dramática. Falta ritmo. Falta coragem de deixar os personagens colidirem de verdade.
Em comédias de convivência forçada, espera-se um efeito dominó. O rígido aprende a flexibilizar, o impulsivo amadurece, o elitista confronta seus próprios preconceitos. Aqui, quase ninguém parece ter um objetivo concreto. A editora está em crise, mas a crise não ganha densidade. O influenciador é apresentado como fenômeno digital, mas sua construção é superficial. As famílias possuem conflitos internos, porém o roteiro prefere sugerir do que explorar. Sem metas claras, não há transformação. Sem transformação, não há catarse.
Visualmente, a casa de veraneio é um convite ao escapismo. A fotografia aposta na luz natural, nos ambientes amplos e na sensação de conforto permanente. Tudo é bonito, organizado, solar. E talvez aí esteja um dos maiores problemas. A atmosfera jamais ameaça desmoronar. O verão nunca se torna insuportável. O calor não pressiona. O espaço compartilhado não sufoca. É como assistir a uma comédia que tem medo do próprio desconforto.
O humor também sofre com essa timidez. As situações se resolvem rápido demais ou simplesmente evaporam. Não há set pieces memoráveis, aquelas sequências que justificam a experiência coletiva na sala de estar. O riso, quando surge, é tímido. Educado. Protocolar. Ao final, a sensação é de ter cumprido uma tarefa, não de ter vivido uma boa temporada de férias.
Ainda assim, existe algo curioso nessa experiência. A escolha do título francês, ao trocar a ideia de odiar o verão por férias impostas, revela muito sobre a proposta. Não se trata de aversão à estação, mas de uma obrigação social de conviver, sorrir e resolver pendências emocionais sob o sol. O problema é que o filme parece aceitar essa obrigação também como espectador. Em vez de provocar, acomoda. Em vez de tensionar, suaviza.
“Férias Forçadas” poderia ter sido uma análise ácida sobre privilégios, sobre a indústria editorial em crise, sobre a cultura da influência digital e suas contradições. Poderia explorar o choque de classes com ironia mais contundente. Poderia transformar o verão em personagem. Escolhe o caminho mais previsível.
“Vacances Forcées”
Direção: François Prévôt-Leygonie
Elenco: Clovis Cornillac, Aure Atika, Bertrand Usclat, Pauline Clément, Laurent Stocker
Disponível em: HBO Max
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