“Filhos” começa como um thriller psicológico carregado de tensão moral, com cheiro de filme de festival que busca discutir o que significa justiça dentro de sistemas violentos. E de fato, essa premissa até sustenta os primeiros atos da história: Eva, uma agente penitenciária dedicada, recebe a missão de supervisionar um dos blocos mais violentos da prisão, justamente após a chegada de um jovem com quem tem um passado sombrio e mal resolvido. O que poderia ser um estudo potente sobre remorso, estrutura de poder e trauma acaba virando um suspense carcerário cheio de promessas que quase sempre ficam pela metade.
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Sidse Babett Knudsen, nome de peso no cinema dinamarquês, dá conta da protagonista com entrega e presença. Ela é o centro de gravidade de um roteiro que parece sempre prestes a mergulhar fundo em temas importantes, mas desiste antes de se molhar. A masculinidade tóxica dos agentes penitenciários, o ambiente que transforma a prisão em um ecossistema de violência institucionalizada, o elo psicológico perturbador entre carcereira e prisioneiro, e até ecos edipianos na relação central: tudo isso aparece. Mas sempre como ruído, como anotações à margem de um projeto que parece mais interessado em chocar do que em investigar.
O diretor Gustav Möller constrói um ambiente visual sufocante, com corredores claustrofóbicos e tensão silenciosa, e por um tempo, isso funciona. Há domínio técnico, o elenco coadjuvante segura bem a atmosfera e a montagem sabe quando respirar e quando prender o fôlego. Mas conforme o filme avança, o que era tensão psicológica vira teatralidade exagerada. As viradas de roteiro surgem de forma forçada, as decisões dos personagens passam a depender de conveniências mal explicadas e a carga simbólica da história, que deveria levantar debates, começa a ruir sob o peso do seu próprio exibicionismo.
“Filhos” tenta ser sobre moralidade, mas no fim, assume sem disfarce sua inclinação ao maniqueísmo. O bem e o mal estão desenhados demais, os dilemas perdem nuance e os conflitos se esvaziam. Quando a protagonista, que até então parecia guiada por códigos éticos complexos, começa a agir como peça de ficção moldada para alimentar reviravoltas, o longa perde não só força dramática, mas também credibilidade emocional.
Ainda assim, há algo que sobrevive ao desvio da segunda metade: a coragem do filme em tratar a dor como elemento dramático legítimo, mesmo que muitas vezes escorregue para o exagero. O trabalho corporal de Sebastian Bull Sarning, que interpreta o jovem preso, é impactante e inquieto. Seu personagem, envolto em violência e silêncio, ameaça transbordar a cada cena, o que cria um contraponto interessante à contenção da protagonista.
“Filhos” é, em essência, uma obra que quer parecer maior do que é. Tem ambição de thriller político, ritmo de drama existencial e momentos de brutalidade que pedem cinema de autor. Mas na tentativa de amarrar tudo, se perde no caminho. O resultado é um filme visualmente interessante, com atuações de peso, mas que opta por resolver seus dilemas com atalhos fáceis, como se o roteiro tivesse medo de confiar no silêncio e na ambiguidade que construiu no início.
“Filhos”
Direção: Gustav Möller
Elenco: Sidse Babett Knudsen, Sebastian Bull Sarning, Dar Salim, Marina Bouras, Olaf Johannessen, Jacob Lohmann, Siir Tilif, Rami Zayat, Thomas Voss, Ida Cæcilie Rasmussen
Disponível em: Nos cinema
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