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Crítica: “Fúria” (Furious)

Texto: Ygor Monroe
8 de setembro de 2026
em Disney+, Resenhas/Críticas, Séries, Streaming

“Fúria” começa com uma assassina mascarada, um homem agonizando dentro da própria casa e crianças pedindo doces do lado de fora. A construção já estabelece uma ideia bastante clara sobre o tipo de contraste que Elizabeth Meriwether pretende perseguir ao longo da série. Existe brutalidade dividindo espaço com banalidade, situações perturbadoras acontecendo ao lado de acontecimentos absolutamente cotidianos e uma tentativa constante de encontrar algum tipo de ironia no meio da violência. Em teoria, é uma combinação capaz de produzir uma identidade muito particular. Na prática, “Fúria” parece saber exatamente quais ingredientes deseja misturar, mas ainda não descobriu a proporção necessária para que eles pertençam à mesma receita.

Crítica: “Fúria” (Furious)
Crítica: “Fúria” (Furious)

A série acompanha duas mulheres que inicialmente ocupam lados bastante definidos de uma investigação. Alice Black, interpretada por Emmy Rossum, é uma agente relativamente nova do FBI que começa a identificar conexões entre mortes aparentemente independentes. Catherine, vivida por Lola Petticrew, está do outro lado desse quebra cabeça, assassinando homens que possuem históricos relacionados a diferentes formas de violência e exploração. Uma trabalha dentro do sistema, enquanto a outra decidiu estabelecer seu próprio conceito de punição fora dele. Naturalmente, “Fúria” não demora para começar a questionar se essa divisão é realmente tão simples.

Esse é o aspecto mais promissor da produção. Alice e Catherine não são construídas apenas como investigadora e assassina, mas como duas personagens que desenvolveram relações particulares com violência, justiça e controle. A pergunta mais interessante de “Fúria” não é simplesmente quando Alice encontrará Catherine, mas quanto Alice precisará se aproximar da lógica de Catherine para conseguir compreendê la. É uma diferença importante, porque transforma a investigação em algo potencialmente mais psicológico do que procedural.

Alice já entra na história carregando uma relação complicada com instituições que deveriam representar segurança. Sua passagem pela polícia terminou depois de uma relação abusiva com um colega, enquanto sua chegada ao FBI não parece ter produzido exatamente um ambiente de pertencimento. Ela atende telefonemas que outros agentes descartariam, leva denúncias improváveis a sério e demonstra uma disposição quase compulsiva para procurar alguma coisa verdadeira dentro daquilo que os outros classificam rapidamente como absurdo.

Emmy Rossum funciona muito bem nesse terreno porque possui uma habilidade particular para interpretar personagens que parecem organizadas apenas até alguém observar com um pouco mais de atenção. Alice possui intensidade, inteligência e uma determinação que imediatamente ajudam a estabelecer sua competência profissional, mas existe algo emocionalmente desordenado por baixo dessa superfície. Rossum não interpreta Alice como uma investigadora brilhante cercada por pessoas incapazes de acompanhá la. Ela interpreta uma mulher cuja obsessão talvez seja simultaneamente sua melhor ferramenta e seu maior problema.

Essa distinção impede que a personagem se torne apenas mais uma investigadora atormentada pelo passado. O roteiro apresenta elementos da vida de Alice que sugerem uma relação bastante mais complexa com violência, desejo e controle, ainda que nem todos sejam desenvolvidos com a mesma precisão. Existe uma intenção evidente de evitar a construção confortável da sobrevivente que transforma trauma em força e segue adiante. Alice continua carregando contradições que nem sempre se encaixam na imagem que provavelmente gostaria de construir sobre si mesma.

O problema é que “Fúria” apresenta tantas dessas informações rapidamente que algumas deixam de parecer camadas e começam a funcionar como características acumuladas. Existe o relacionamento abusivo, a antiga carreira policial, a dificuldade de integração ao FBI, sua atração por determinados comportamentos violentos, a obsessão profissional e o interesse pelo departamento comandado por Nora Washington. Individualmente, são elementos capazes de aprofundar Alice. Colocados quase simultaneamente, começam a disputar espaço.

Complexidade não nasce necessariamente da quantidade de conflitos que um roteiro consegue colocar dentro de uma personagem. Ela depende do tempo oferecido para que esses conflitos realmente interfiram uns nos outros. “Fúria” ainda precisa demonstrar que conhece essa diferença. Alice é interessante, mas existe o risco de que a série continue adicionando problemas em vez de aprofundar aqueles que já estabeleceu.

Catherine sofre menos com essa sobrecarga justamente porque permanece mais misteriosa. Lola Petticrew trabalha uma personagem que depende bastante da capacidade de mudar comportamento, aparência e identidade conforme a situação. Catherine manipula pessoas, assume diferentes papéis e parece compreender muito rapidamente aquilo que cada ambiente exige dela. Existe uma frieza evidente, mas Petticrew evita transformar essa frieza em ausência completa de personalidade.

A máscara, nesse caso, vai muito além do objeto que Catherine utiliza fisicamente. A personagem parece existir através de performances sucessivas, adaptando a própria presença de acordo com aquilo que precisa conseguir. Enquanto Alice tenta descobrir quem Catherine realmente é, “Fúria” sugere que talvez não exista uma resposta simples para essa pergunta. Essa possibilidade torna a perseguição mais interessante porque identidade passa a fazer parte do próprio mecanismo criminal.

Também existe uma questão moral que a série inevitavelmente coloca diante do espectador. Catherine escolhe vítimas cuja relação com violência, abuso ou exploração torna muito fácil compreender de onde vem sua justificativa. O roteiro sabe perfeitamente que isso altera nossa reação diante dos assassinatos. Não significa transformar Catherine automaticamente em heroína, mas significa colocar algum desconforto dentro da condenação.

É nesse espaço que “Fúria” pode encontrar sua melhor versão. A série não precisa perguntar se matar pessoas ruins é certo ou errado de maneira simplista. Existe uma discussão muito mais interessante sobre o que acontece quando alguém deixa de acreditar que as instituições são capazes de produzir justiça e decide substituir o sistema pelo próprio julgamento. Catherine representa a consequência extrema dessa ruptura, enquanto Alice ainda tenta trabalhar dentro de uma estrutura que ela própria sabe ser falha.

Nora Washington, interpretada por Quincy Tyler Bernstine, talvez seja a personagem que melhor materializa essa contradição. Responsável por investigações envolvendo crimes sexuais e contra crianças, ela conhece profundamente a distância entre aquilo que o sistema promete e aquilo que consegue entregar. Sua aparente amargura não surge de indiferença, mas justamente de ter se importado por tempo demais.

Bernstine consegue comunicar esse desgaste com enorme eficiência. Nora continua ajudando vítimas e continua exercendo sua função, mas já não possui qualquer romantização sobre o impacto do próprio trabalho. Ela representa aquilo que Alice ainda pode se tornar depois de anos observando as mesmas estruturas falharem repetidamente. Por isso, a relação entre as duas possui potencial para ser tão importante quanto a perseguição entre Alice e Catherine.

Existe quase uma linha possível entre essas três mulheres. Catherine desistiu completamente do sistema. Nora permanece dentro dele, mas perdeu boa parte da esperança. Alice ainda acredita que pode utilizá lo para produzir algum resultado. Essa diferença de posição oferece à série uma estrutura temática muito mais interessante do que a simples caça a uma assassina em série. Curiosamente, é justamente quando “Furia” possui material dramático suficiente para sustentar tudo isso que surge sua decisão mais problemática: a necessidade de inserir humor.

Elizabeth Meriwether construiu boa parte da carreira demonstrando enorme domínio da comédia e posteriormente mostrou capacidade de trabalhar registros mais dramáticos. Portanto, a tentativa de combinar os dois não parece particularmente estranha. O problema está menos na existência do humor e mais na maneira como ele aparece. “Fúria” frequentemente não parece engraçada porque seus personagens são engraçados. Parece engraçada porque o roteiro decidiu que determinada cena precisava conter uma piada. Essa diferença é enorme.

Uma série pode tratar de assuntos extremamente pesados e ainda encontrar humor dentro deles. Pessoas fazem comentários inadequados, desenvolvem mecanismos particulares para suportar ambientes emocionalmente devastadores e utilizam ironia justamente quando a realidade se torna insuportável. Esse tipo de humor poderia combinar perfeitamente com “Fúria”, especialmente dentro de instituições cujos profissionais convivem diariamente com situações perturbadoras.

O que acontece em alguns momentos é diferente. Uma fala cômica aparece dentro de uma cena grave sem nascer do comportamento estabelecido daqueles personagens, criando uma interrupção tonal em vez de contraste. O problema não está em rir depois de uma situação desconfortável. Está em sentir a mão do roteiro praticamente entrando no enquadramento para avisar que aquele é o momento de aliviar a tensão.

A cena envolvendo o departamento de Nora demonstra bem essa dificuldade. O contexto é extremamente sensível e a tentativa de inserir uma pequena gag cotidiana poderia servir para mostrar como aquelas pessoas desenvolveram maneiras absurdamente normais de funcionar diante do horror. Entretanto, a execução torna o comentário deslocado. Em vez de revelar alguma coisa sobre os personagens, ele parece revelar apenas a intenção do roteirista.

Quando o humor funciona, ele deveria aprofundar o desconforto de “Fúria”, não interrompê lo. Existe espaço para uma comédia sombria muito mais perturbadora nessa história, principalmente porque a própria premissa trabalha com personagens tentando normalizar situações que jamais deveriam ser normais.

Essa instabilidade tonal se torna o principal obstáculo da série porque interfere diretamente no suspense. Para que Catherine pareça ameaçadora e para que as investigações de Alice tenham peso, determinadas situações precisam de espaço para permanecer desconfortáveis. Quando o roteiro tenta aliviar rapidamente esse peso, parte da tensão desaparece antes de amadurecer.

Isso não significa que “Fúria” devesse abandonar completamente o humor e se transformar em mais um thriller sombrio sobre uma assassina em série. Pelo contrário, seria justamente essa mistura que poderia diferenciá la. O erro não está em procurar leveza dentro da escuridão, mas em tratar leveza e escuridão como botões que podem ser alternados de uma cena para outra. Uma identidade tonal verdadeira exige que os dois elementos consigam existir simultaneamente.

Visualmente, a série trabalha de maneira eficiente com essa dualidade. Existe uma atmosfera urbana que não tenta transformar Nova York numa paisagem permanentemente opressiva. O cotidiano continua acontecendo enquanto crimes brutais são investigados, e essa normalidade produz um contraste interessante. Catherine pode estar planejando um assassinato enquanto outras pessoas simplesmente seguem suas rotinas, reforçando a ideia de que violência não precisa acontecer em espaços visualmente anunciados como perigosos.

A direção também sabe utilizar os rostos de Rossum e Petticrew como instrumentos narrativos. A montagem paralela entre Alice e Catherine inevitavelmente estabelece uma relação antes mesmo que as personagens compartilhem verdadeiramente o mesmo espaço. Conforme a investigação avança, a série procura aproximá las através de gestos, olhares e comportamentos, construindo a sensação de que uma começa progressivamente a ocupar o pensamento da outra.

Essa estrutura poderia facilmente cair no clichê da investigadora que desenvolve uma obsessão pela criminosa, mas “Fúria” possui elementos suficientes para complicar essa dinâmica. Alice não está apenas fascinada pela inteligência de Catherine. Existe a possibilidade de que reconheça alguma coisa nela, mesmo que ainda não esteja preparada para admitir exatamente o quê.

Uma boa perseguição entre investigadora e assassina depende menos da distância entre as duas do que da semelhança que começa a surgir conforme essa distância diminui. “Fúria” parece compreender isso e encontra alguns de seus melhores momentos quando deixa a investigação funcionar como uma espécie de aproximação moral.

Scoot McNairy ajuda a conectar Alice ao passado policial através de Danny Kelly, mas sua presença também reforça a quantidade de linhas narrativas que a série tenta administrar. Há antigos colegas, relações pessoais, investigações paralelas, o FBI, o departamento de Nora, o passado de Alice e a trajetória independente de Catherine. Existe muito material circulando ao mesmo tempo.

A preocupação não está na complexidade em si. Séries de investigação podem sustentar várias linhas simultâneas sem dificuldade. O problema surge quando cada uma parece exigir um pedaço diferente da identidade da produção. “Fúria” ainda precisa decidir quais dessas histórias são fundamentais e quais existem apenas porque podem ser úteis mais adiante.

Esse excesso também explica por que alguns personagens secundários despertam curiosidade rapidamente. Nora, em particular, parece carregar uma história inteira fora daquilo que vemos. Sua desilusão, sua dedicação às vítimas e sua relação com o trabalho sugerem uma trajetória que poderia facilmente ocupar muito mais espaço. Isso é mérito de Bernstine, mas também demonstra que nem sempre a série distribui sua atenção da maneira mais eficiente.

Emmy Rossum permanece como o grande eixo dramático. Existe algo particularmente adequado em vê la novamente interpretando uma mulher difícil de organizar moralmente. Alice não foi construída para ser agradável em todos os momentos, e isso é uma qualidade. Sua intensidade pode se tornar desconfortável, suas escolhas podem parecer contraditórias e seu interesse pela violência adiciona uma camada que impede qualquer leitura excessivamente limpa da personagem.

Lola Petticrew trabalha no sentido oposto, utilizando mistério e adaptação como principais ferramentas. Catherine é mais interessante quanto menos a série tenta explicá la. Existe sempre o risco de que uma futura história de origem procure justificar excessivamente suas ações e transforme ambiguidade em diagnóstico. Por enquanto, o melhor elemento da personagem é justamente a impossibilidade de encaixá la confortavelmente entre vítima, justiceira e assassina.

Essa ambiguidade deveria ser preservada porque é nela que “Fúria” encontra personalidade. O público não precisa concordar com Catherine para compreender como ela construiu sua própria lógica, assim como não precisa acreditar completamente em Alice para acompanhá la. A série fica mais interessante quando ninguém ocupa uma posição moral completamente confortável.

Por isso, a irregularidade tonal incomoda tanto. Existe uma produção adulta e provocadora tentando nascer dentro de “Fúria”, mas ela frequentemente precisa disputar espaço com uma segunda série que parece preocupada em demonstrar que também sabe ser espirituosa. Individualmente, essas duas propostas poderiam funcionar. Juntas, ainda não encontraram uma linguagem comum.

Mesmo assim, existe material suficiente para justificar curiosidade. Rossum e Petticrew formam um confronto promissor, Bernstine adiciona uma terceira perspectiva fundamental sobre justiça e a investigação possui espaço para se tornar progressivamente mais pessoal. “Fúria” não sofre por falta de ideias. Sofre justamente porque possui ideias demais e ainda não decidiu quais merecem comandar a história.

O caminho mais interessante seria confiar cada vez mais nas contradições das personagens. O humor pode nascer delas, assim como o suspense, a violência e a discussão moral. Não existe necessidade de inserir artificialmente uma piada quando Alice, Catherine e Nora já carregam visões tão diferentes e potencialmente desconfortáveis sobre o mesmo mundo.

No fim, “Fúria” estreia como uma série fascinante em sua desorganização, embora isso não signifique que a desorganização seja uma qualidade. Existe um excelente thriller psicológico escondido dentro desse material, sustentado pela possibilidade de aproximar duas mulheres que escolheram caminhos radicalmente diferentes diante de instituições incapazes de proteger todas as pessoas que deveriam proteger. Quanto menor se tornar a distância entre Alice e Catherine, mais interessante será descobrir se a série pretende mostrar uma agente alcançando uma assassina ou duas mulheres percebendo que a fronteira entre elas nunca foi tão larga quanto imaginavam.

Para chegar lá, “Fúria” precisa primeiro encontrar a própria identidade. A série quer ser violenta, engraçada, desconfortável, provocadora, policial e psicológica ao mesmo tempo, e nenhuma dessas ambições é um problema isoladamente. O desafio está em fazer tudo pertencer ao mesmo universo. Por enquanto, o resultado é irregular, mas existe personalidade suficiente nas performances e nas ideias para que seus tropeços pareçam mais um problema de direção do que ausência de potencial.

“Fúria”
Criação:
Elizabeth Meriwether
Direção: diferentes diretores ao longo da temporada
Elenco: Emmy Rossum, Lola Petticrew, Quincy Tyler Bernstine e Scoot McNairy
Disponível em: Disney+

⭐⭐

Avaliação: 2 de 5.

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Temas: CríticaEmmy RossumLola PetticrewResenhaReview

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