Existem bandas que lançam discos. O Gorillaz constrói universos. Em “The Mountain”, o nono álbum de estúdio do projeto idealizado por Damon Albarn e Jamie Hewlett, a sensação é de atravessar um portal espiritual em vez de simplesmente apertar o play. Desde o primeiro segundo, fica claro que não se trata de uma coleção de faixas soltas, mas de uma obra pensada como experiência integral.

O título, grafado também em devanágari como पर्वत, já indica o deslocamento geográfico e simbólico. A montanha aqui é física e metafísica. É cenário e é rito de passagem. Depois da recepção morna de “Cracker Island”, o grupo responde com um trabalho que soa como reconciliação consigo mesmo. É um retorno à ambição conceitual que transformou “Demon Days” e “Plastic Beach” em marcos da cultura pop do século 21.
A gênese do álbum passa por perdas pessoais profundas vividas por Albarn e Hewlett antes de embarcarem para a Índia. Esse luto compartilhado se infiltra nas composições de forma orgânica. A espiritualidade hindu, as reflexões sobre reencarnação e o pós-vida não aparecem como adereço exótico, mas como eixo temático. O resultado é um disco que fala de morte com delicadeza e de vida com urgência.
A faixa de abertura, que carrega o nome do álbum, já mergulha o ouvinte em cordas sinfônicas e texturas indianas que ampliam a paleta sonora do grupo. O Gorillaz sempre soube criar atmosferas, mas aqui há algo mais coeso. Existe uma intenção clara de resgatar a ideia de álbum como narrativa contínua, quase um manifesto contra a cultura do consumo fragmentado.
O single “The Happy Dictator” apresenta a faceta política que nunca abandonou o projeto. Ironia, crítica social e um refrão pegajoso convivem com arranjos que misturam sintetizadores cintilantes e percussões orgânicas. É pop, mas é pop com camadas. É dançante, mas carrega tensão.
As participações especiais poderiam transformar “The Mountain” em um mosaico disperso, como aconteceu em momentos de “Humanz” ou do projeto “Song Machine”. Aqui, no entanto, elas funcionam como peças de um mesmo quebra cabeça. A presença póstuma de nomes como Bobby Womack, Tony Allen e Mark E. Smith não soa oportunista. Soa como convocação espiritual, como se o disco criasse uma assembleia entre vivos e mortos.
Em “The Sweet Prince”, Albarn entrega um dos momentos mais vulneráveis de sua carreira. A canção, dedicada ao pai, é conduzida por vocais processados que flutuam sobre arranjos etéreos. É impossível não sentir o peso emocional que atravessa cada verso. Já “Delirium”, com a participação de Mark E. Smith, injeta energia nervosa no repertório, evocando a irreverência de “DARE” sem parecer autorreferencial.
Há também ecos de experimentações menos celebradas do catálogo do grupo. “The Plastic Guru” dialoga com a crueza eletrônica de “The Fall”, enquanto “The Sad God”, que encerra o álbum, oferece uma síntese melancólica do conceito. A letra, narrada sob a perspectiva de uma entidade desencantada com a humanidade, ecoa críticas ambientais e sociais que acompanham Albarn há décadas. A montanha aqui também é metáfora para a queda moral do mundo contemporâneo.
Musicalmente, o disco costura inglês, árabe, hindi, espanhol e iorubá sem transformar diversidade em slogan. A mistura é orgânica, resultado de pesquisa e imersão. Se em outros momentos o Gorillaz parecia fascinado pela própria capacidade de agregar convidados, em “The Mountain” o foco volta a ser a unidade criativa entre Albarn e Hewlett. E isso faz toda a diferença.
Mais do que um retorno à forma, “The Mountain” é um lembrete de por que o Gorillaz se tornou referência. Quando conceito e música caminham juntos, o projeto deixa de ser experimento e se torna legado. Em tempos de playlists descartáveis, lançar um álbum que pede escuta atenta do início ao fim é quase um ato de resistência.
No topo dessa montanha sonora, o que encontramos não é apenas luto transformado em arte. Encontramos uma banda que, 25 anos depois, ainda consegue expandir seus próprios limites. E isso, para um projeto que sempre viveu entre o real e o animado, é a prova de que a reinvenção continua sendo seu maior superpoder.
Nota: 80/100
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