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Crítica: “Harpía: Presença Maligna” (The Beldham)

A maternidade costuma ser retratada como promessa de plenitude, mas o cinema de horror sabe explorar o que existe por trás desse discurso confortável. Medo, culpa, herança e silêncio formam um território fértil para narrativas que transformam o cuidado em ameaça. Quando o instinto de proteção entra em choque com forças invisíveis, o terror deixa de ser externo e passa a morar dentro de casa.

Crítica: “Harpía: Presença Maligna” (The Beldham)

“Harpía: Presença Maligna” se apoia exatamente nessa inquietação. A história acompanha Harper, uma mulher que vive o impacto da maternidade recente enquanto tenta se adaptar a uma nova rotina. O que parecia apenas um desafio emocional ganha contornos sobrenaturais quando uma presença antiga começa a se manifestar na fazenda onde sua filha vive. Não se trata de um mal imediato ou espalhafatoso. O horror aqui se infiltra com paciência, atravessando gerações e impondo um destino que parece traçado muito antes do nascimento da criança.

A direção de Angela Gulner entende que o medo mais eficaz nasce da dúvida. O filme constrói sua atmosfera a partir da instabilidade emocional da protagonista, usando o espaço doméstico como extensão de seu estado psicológico. A fazenda funciona menos como cenário e mais como organismo vivo, carregado de memória, opressão e repetição. Nada ali parece seguro, mesmo quando o silêncio domina.

Katie Parker entrega uma atuação que sustenta toda a narrativa. Seu desempenho é contido, físico e profundamente emocional. A personagem vive em constante estado de alerta, dividida entre o amor absoluto pelo filho e a sensação crescente de que algo está errado. A escolha de evitar exageros fortalece o impacto do filme, que prefere sugerir a mostrar. O terror se constrói nos gestos, nos olhares e nas pausas.

O roteiro aposta em uma progressão cuidadosa, com reviravoltas que dialogam mais com o psicológico do que com o choque visual. As referências são claras, especialmente ao horror doméstico que consagrou obras como “O Bebê de Rosemary”, mas sem cair na cópia. O filme se apropria dessas influências para discutir legado, controle e o peso das expectativas impostas às mulheres.

Visualmente, a obra se destaca pela fotografia sombria e elegante. Tons frios, iluminação natural e enquadramentos fechados reforçam a sensação de aprisionamento. A trilha sonora surge de forma pontual, respeitando o silêncio como ferramenta narrativa. O resultado é um terror mais atmosférico do que explícito, interessado em desconfortar de maneira gradual.

“Harpía: Presença Maligna” compreende que o subgênero do horror ligado à maternidade já foi explorado à exaustão, mas encontra identidade ao tratar o tema com respeito e precisão. Não busca sustos fáceis nem apelos gráficos. Prefere trabalhar o medo como herança emocional, algo transmitido e normalizado ao longo do tempo. O verdadeiro terror aqui está na ideia de que certos ciclos insistem em se repetir.

É um filme que talvez não convide a revisitas constantes, mas deixa marcas. Uma experiência contida, bem interpretada e consciente de sua proposta. Um horror silencioso que se instala devagar e permanece depois que a tela escurece.

“Harpía: Presença Maligna”
Direção
: Angela Gulner
Elenco: Katie Parker, Patricia Heaton, Corbin Bernsen
Disponível em: HBO Max

Avaliação: 3.5 de 5.

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