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Crítica: Harry Styles, “Kiss All the Time. Disco, Occasionally.”

Luzes de pista de dança, sintetizadores nostálgicos e a eterna promessa de reinvenção pop costumam formar uma combinação sedutora. Quando um artista decide atravessar o Atlântico criativo em busca de novos sons, mudando de cidade e mergulhando em referências históricas, a expectativa cresce automaticamente. No caso de “Kiss All the Time. Disco, Occasionally.”, essa jornada estética tenta transformar a pista em confissão emocional, mas o resultado oscila entre ambição elegante e uma sensação persistente de vazio.

Crítica: Harry Styles, “Kiss All the Time. Disco, Occasionally.”

O quarto álbum de estúdio de Harry Styles foi gravado entre Berlim e Londres em 2024 e 2025, o disco foi produzido pelos colaboradores frequentes Kid Harpoon e Tyler Johnson. O projeto surge após uma trajetória solo que começou com “Harry Styles”, passou pelo sucesso global de “Fine Line” e consolidou popularidade com “Harry’s House”, álbum que dominou playlists e premiações.

Entre essas fases, uma longa estrada de shows percorreu o mundo com a turnê “Love On Tour”, encerrada em 2023. Depois disso, silêncio estratégico. O tipo de pausa que alimenta especulações e prepara terreno para uma nova persona artística. Berlim entrou na história como cenário criativo. A cidade que um dia inspirou a chamada trilogia berlinense de David Bowie voltou a ser evocada como laboratório de reinvenção pop. A comparação é inevitável, ainda que arriscada. Toda vez que um artista se muda para Berlim em busca de transformação estética, o fantasma de Bowie inevitavelmente aparece na sala de controle do estúdio.

Kiss All the Time. Disco, Occasionally.” assume abertamente suas referências. O próprio Styles citou a influência de LCD Soundsystem como ponto de partida, especialmente aquela mistura de euforia dançante com melancolia urbana. Também há ecos de texturas eletrônicas e introspectivas associadas a James Blake, além de pequenos acenos ao experimentalismo melódico de Vini Reilly, conhecido pelo trabalho com The Durutti Column.

O álbum abre com “Aperture”, primeiro single e talvez a faixa que melhor sintetiza o conceito do projeto. Minimalista, sustentada por sintetizadores discretos e vocais contidos, a música cria atmosfera imediatamente. Existe ali uma tentativa clara de transformar a pista de dança em lugar de reflexão. É um começo promissor que sugere profundidade emocional e ambição artística.

Mas à medida que o disco avança, essa promessa começa a se diluir. Em “American Girls”, sintetizadores suaves conduzem a faixa até um refrão que tenta capturar o espírito pop contemporâneo, mas termina soando genérico demais para um artista que frequentemente é tratado como visionário. A música flerta com uma sensibilidade melancólica interessante, porém não chega a explorar totalmente esse território.

“Ready, Steady, Go!” mergulha em eletrônica mais musculosa, evocando memórias do electroclash dos anos 2000. A energia é evidente, mas a sensação de pastiche também. O resultado lembra mais uma homenagem estilística do que uma evolução musical concreta.

A influência da pista de dança retorna com força em “Are You Listening Yet?”, uma faixa construída sobre batidas disco afiadas e refrão provocativo. Existe ali uma vibração de confronto, quase como se o cantor estivesse respondendo às críticas sobre sua própria imagem artística. É um dos poucos momentos em que o disco parece realmente pulsar com personalidade.

Entre essas incursões eletrônicas, o álbum encontra respiro em “Paint by Numbers”, balada de guitarras cintilantes que tenta lidar com dilemas emocionais mais amplos. A letra admite confusão, complexidade e imperfeição. É um instante de introspecção genuína que revela o potencial dramático que Styles frequentemente sugere, mas raramente explora completamente.

Musicalmente, “Kiss All the Time. Disco, Occasionally.” é sofisticado. A produção é elegante, cheia de detalhes e participações especiais, incluindo vocais do House Gospel Choir e colaborações de Ellie Rowsell, vocalista da banda Wolf Alice. Em “Coming Up Roses”, um arranjo orquestral conduzido pelo compositor Jules Buckley adiciona um toque cinematográfico que amplia o escopo sonoro do álbum.

Ainda assim, sofisticação sonora não significa necessariamente profundidade artística. Em muitos momentos, o disco parece preso entre duas identidades. De um lado, o entertainer carismático que domina arenas e festivais. Do outro, o artista que busca reconhecimento crítico como autor de obras conceituais.

Essa tensão acompanha Styles desde sua saída de One Direction. No palco, ele possui presença magnética. Fora dele, a aura de estrela pop moderna permanece intacta. No estúdio, porém, essa mesma força nem sempre encontra tradução equivalente.

“Kiss All the Time. Disco, Occasionally.” tenta transformar nostalgia, disco e introspecção em manifesto artístico. O problema é que muitas dessas ideias permanecem na superfície. Existe estilo em abundância, mas a substância raramente alcança o mesmo impacto.

O resultado final não chega a ser um fracasso, mas também não entrega a revolução prometida por suas referências. É um álbum elegante, competente e ocasionalmente inspirado. Só que, para um artista tratado como um dos grandes nomes da pop contemporânea, competência raramente é suficiente.

Nota final: 60/100

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