Missões improvisadas costumam render boas histórias quando o cinema decide rir do próprio exagero. O problema surge quando a piada pede timing, carisma e senso de absurdo bem calibrado. Nesse território instável, a ação vira ruído e o humor precisa lutar para sobreviver entre explosões coreografadas e personagens que pedem mais convicção do que o roteiro entrega.

“Herói por Encomenda” aposta nesse cruzamento entre comédia de ação e aventura política tropicalizada. A narrativa acompanha um ex-militar que trocou o campo de batalha por uma rotina civil frustrada e vê a chance de recuperar algum propósito ao aceitar um trabalho de segurança privada. A missão parece simples até o encontro com uma jornalista obstinada e um ditador carismático, ingredientes suficientes para transformar uma entrevista protocolar em uma fuga desesperada selva adentro após um golpe militar.
A estrutura lembra produções recentes que misturam turismo exótico, perigo calculado e piadas autoconscientes, algo que flerta com o espírito de “The Lost City”. A diferença surge na execução. O filme prefere caminhar por um terreno mais seguro, apostando em situações previsíveis e em um humor que raramente arrisca o desconforto. A sensação constante remete a uma comédia que ensaia ousadia, mas recua antes do impacto.
John Cena ocupa o centro da ação com presença física e entrega funcional nas cenas de combate. Como protagonista cômico, o desempenho segue correto, porém limitado por um texto que subestima o potencial do absurdo. A persona construída ao longo da carreira encaixa melhor em projetos que abraçam o exagero sem pudor, algo visto em “The Suicide Squad” e “Peacemaker”. Aqui, a tentativa de equilibrar ação adulta com um tom mais contido enfraquece a proposta.
Alison Brie surge como o verdadeiro ponto de energia do filme. Sua jornalista se movimenta com segurança entre ironia, sensualidade e curiosidade profissional, mesmo quando o roteiro insiste em decisões questionáveis em meio ao caos. Sempre que a narrativa encontra algum frescor, ele passa diretamente por sua presença em cena. O trio central funciona mais como ideia do que como dinâmica plenamente desenvolvida, ainda que a relação entre os personagens busque um espírito de road movie improvisado.
A direção de Pierre Morel mantém o ritmo ágil e entrega cenas de ação competentes, com explosões bem enquadradas e perseguições eficientes. O problema reside na falta de identidade tonal. Para um filme classificado como comédia adulta, o resultado soa domesticado, como se tivesse receio de incomodar. O humor se apoia em piadas fáceis e situações previsíveis, enquanto a violência permanece estilizada e contida.
“Herói por Encomenda” funciona como entretenimento passageiro, daqueles que cumprem tabela em um catálogo de streaming. A ideia central apresenta potencial, o elenco reúne nomes interessantes, mas a combinação carece de ousadia para se destacar. Falta risco, sobra prudência. No fim, a produção se acomoda em um meio-termo que diverte de forma leve, sem deixar marcas duradouras.
“Herói por Encomenda”
Direção: Pierre Morel
Elenco: John Cena, Alison Brie, Christian Slater, Alice Eve
Disponível em: Netflix
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