“Hope: O Primeiro Impacto” parece ter sido concebido a partir de uma pergunta bastante simples: até onde um filme pode ampliar sua própria escala antes de perder completamente o controle? Na Hong-jin responde transformando essa possibilidade em método. Seu novo trabalho não tenta domesticar o excesso, muito menos organizar cada uma de suas ideias dentro de uma estrutura confortável. Pelo contrário, existe uma disposição quase provocativa em fazer do caos a principal engrenagem de um espetáculo que mistura ficção científica, horror, ação e humor enquanto encontra, no meio de toda essa grandiosidade, uma discussão surpreendentemente consistente sobre medo, violência e nossa necessidade de destruir aquilo que não conseguimos compreender.

A história começa em Hope Harbor, um pequeno vilarejo sul-coreano confrontado por uma presença desconhecida. O chefe de polícia Bum-seok, interpretado por Hwang Jung-min, e Sung-ae, vivida por Hoyeon, entram no centro de uma investigação que rapidamente deixa de obedecer a qualquer proporção razoável. O comportamento dos moradores começa a mudar, a violência cresce e aquilo que inicialmente poderia ser tratado como um mistério localizado assume dimensões muito maiores. Na Hong-jin, entretanto, demonstra pouco interesse em transformar o desconhecido apenas em uma ferramenta narrativa para sustentar suspense. O verdadeiro motor de “Hope: O Primeiro Impacto” não está exatamente na origem da ameaça, mas na forma como seres humanos respondem quando percebem que não possuem controle sobre ela.
Essa diferença é fundamental para compreender por que o filme funciona mesmo quando sua narrativa parece caminhar deliberadamente em direção ao absurdo. O diretor de “The Wailing” mantém sua capacidade de construir tensão, mas agora a aplica a uma produção muito mais interessada na escala do cinema de ação. Existe algo de faroeste, algo de horror de criatura, muito da ficção científica militarizada e uma quantidade quase irresponsável de energia de blockbuster. O resultado poderia facilmente se transformar em uma coleção desordenada de referências. Em alguns momentos, chega perigosamente perto disso. O que impede o colapso é justamente a consciência de Na Hong-jin sobre os códigos que está utilizando.
“Hope: O Primeiro Impacto” conhece profundamente a iconografia do cinema de ação e frequentemente utiliza essa familiaridade contra o próprio público. Personagens recebem entradas grandiosas, armas são apresentadas como extensões naturais de seus corpos e determinadas cenas parecem preparadas para produzir aquele instante clássico de glorificação heroica. A introdução de Sung-ae é particularmente eficiente nesse sentido. Hoyeon entra em cena com uma composição visual que praticamente anuncia uma nova figura mítica do cinema de ação. Enquadramento, postura e montagem colaboram para criar uma expectativa imediata sobre quem aquela personagem será. Pouco depois, essa construção começa a desmoronar.
Sung-ae não corresponde integralmente à figura que sua apresentação prometia. Há insegurança, hesitação e até uma dimensão atrapalhada em seu comportamento. O filme não destrói sua competência, mas questiona a facilidade com que uma determinada linguagem cinematográfica consegue fabricar heroísmo antes mesmo de conhecermos uma personagem. Na Hong-jin cria imagens típicas de um grande espetáculo apenas para investigar o quanto fomos treinados a acreditar nelas. Essa estratégia aparece novamente em outros momentos e ganha importância especial quando o último ato reorganiza parte daquilo que parecia apenas extravagância estética.
O humor também nasce desse confronto entre expectativa e realidade. “Hope: O Primeiro Impacto” pode ser extremamente violento, mas não mantém uma solenidade constante diante da própria violência. Existe uma comicidade estranha atravessando diversas situações, principalmente quando os personagens tentam responder racionalmente a acontecimentos que já ultrapassaram qualquer parâmetro de normalidade. A mudança de registro poderia destruir a tensão, mas acontece o contrário. O humor reforça a imprevisibilidade porque impede que o público encontre uma zona emocional segura. Nunca sabemos exatamente se a sequência seguinte será assustadora, engraçada, brutal ou completamente absurda.
Essa instabilidade tonal é uma das características mais interessantes do longa. Na Hong-jin não procura suavizar as transições entre gêneros. Ele permite que elas sejam perceptíveis, às vezes violentas, como se o próprio filme estivesse constantemente mudando de forma. O espetáculo pode assumir proporções próximas de uma superprodução hollywoodiana e, poucos minutos depois, retornar a uma situação construída a partir de personagens incapazes de compreender plenamente o que está acontecendo diante deles. Há uma inteligência específica nessa desorganização aparente. “Hope: O Primeiro Impacto” não é um filme sem controle. É um filme sobre pessoas desesperadamente tentando controlar aquilo que jamais entenderam.
É justamente nesse ponto que a abundância de armas deixa de ser apenas parte da estética. O armamento espalhado pelo universo do longa inicialmente parece uma piada recorrente, quase uma caricatura da facilidade com que determinadas produções transformam qualquer conflito em troca de tiros. Aos poucos, porém, essa repetição assume outro significado. Quando surge algo desconhecido, a primeira resposta é atirar. Quando essa resposta não funciona, a solução é atirar novamente. Se a ameaça continua avançando, resta procurar uma arma maior.
O roteiro constrói sua discussão política sem interromper o filme para explicá-la. Cartazes incentivando denúncias, paranoia coletiva, suspeitas de espionagem e a presença quase naturalizada de armas formam um ambiente no qual o desconhecido já nasce culpado. A violência não aparece como último recurso, mas como linguagem automática. O acontecimento que desencadeia boa parte da tragédia nasce justamente de um disparo contra algo que ninguém compreendia.
Essa escolha modifica profundamente a maneira como observamos as criaturas. O desenho visual inicialmente permite que sejam interpretadas dentro da tradição dos monstros cinematográficos, mas o comportamento delas complica essa leitura. Elas não demonstram imediatamente a intenção assassina que os personagens presumem existir. Há tentativas de aproximação, inclusive através de aparências menos ameaçadoras, como se algum tipo de comunicação ainda fosse possível. O problema é que, dentro daquele ambiente, a simples existência de algo desconhecido já funciona como justificativa para destruí-lo.
O monstro de “Hope: O Primeiro Impacto” talvez não seja aquilo que chegou até Hope Harbor, mas a certeza humana de que tudo aquilo que não conhecemos precisa ser neutralizado antes que tenhamos tempo de compreendê-lo. Na Hong-jin não precisa abandonar a ação para desenvolver essa ideia. Pelo contrário, é justamente através dela que seu argumento ganha força. Quanto mais os personagens disparam, mais evidente se torna a inutilidade daquele comportamento. Existe algo tragicamente cômico na insistência. Se a violência falhou, a resposta não é reconsiderá-la, mas aumentar sua intensidade.
Isso também explica por que a quantidade limitada de arcos individuais não necessariamente enfraquece o conjunto. Há muitos personagens circulando pelo filme e nem todos recebem uma trajetória dramática convencional. Em outra produção, isso poderia representar uma deficiência evidente de roteiro. Aqui, existe a sensação de que Na Hong-jin está interessado justamente em observar o comportamento coletivo. Hope Harbor funciona quase como um organismo tomado pelo pânico. As decisões individuais alimentam uma reação em cadeia, e o filme gradualmente deixa de acompanhar apenas pessoas para observar uma comunidade inteira respondendo ao medo.
Ainda assim, o elenco consegue imprimir personalidade suficiente para evitar que as figuras humanas sejam reduzidas a peças funcionais do espetáculo. Hwang Jung-min possui o tipo de presença capaz de sustentar simultaneamente autoridade e vulnerabilidade, enquanto Hoyeon se beneficia diretamente da maneira como o roteiro brinca com aquilo que sua imagem inicialmente promete. A dinâmica entre personagens frequentemente depende menos de longos diálogos explicativos e mais da reação física diante de situações progressivamente impossíveis.
É também no corpo que a ação encontra sua maior qualidade. Apesar da presença considerável de efeitos digitais, Na Hong-jin procura preservar uma sensação de impacto físico nas sequências. Pessoas correm, caem, tropeçam, são arremessadas e tentam sobreviver dentro de espaços que parecem efetivamente hostis. O trabalho de dublês e a movimentação da câmera dão às cenas uma brutalidade importante. Mesmo quando a escala aumenta drasticamente, existe uma preocupação em manter algum senso de peso.
Os efeitos visuais, entretanto, representam o ponto mais irregular da produção. Considerando a ambição do projeto, algumas imagens digitais simplesmente não alcançam o mesmo nível do restante da construção técnica. Há criaturas cuja movimentação denuncia excessivamente a animação, principalmente quando dividem o quadro com elementos físicos. Curiosamente, os próprios designs são interessantes. O problema aparece menos na concepção e mais na integração desses seres ao ambiente.
Em um filme menos inventivo, essa limitação poderia comprometer seriamente a experiência. Aqui, ela incomoda, mas dificilmente consegue interromper o envolvimento. A imperfeição visual é compensada por uma direção que sabe exatamente como produzir movimento, escala e surpresa. Existe uma diferença enorme entre um efeito impecável utilizado para construir uma imagem sem personalidade e um efeito irregular inserido em uma sequência que possui ideia, ritmo e identidade. “Hope: O Primeiro Impacto” pertence claramente ao segundo grupo.
Isso não significa que suas deficiências devam ser ignoradas. A duração de 2 horas e 36 minutos cobra seu preço, especialmente porque o longa trabalha continuamente em níveis elevados de intensidade. Há momentos em que o acúmulo poderia ter sido reduzido e personagens que mereciam maior desenvolvimento. A quantidade de informações, referências e mudanças tonais também pode gerar uma experiência cansativa para quem espera uma ficção científica estruturalmente mais disciplinada. Mas disciplina nunca parece ser exatamente o objetivo.
Na Hong-jin quer construir um filme que pareça grande demais para a própria tela. Quer permitir que ação, horror, humor, paranoia política e ficção científica disputem espaço simultaneamente. O mais curioso é perceber que, por baixo dessa superfície barulhenta, existe uma ideia relativamente simples conectando tudo. Os personagens estão diante de algo que não compreendem e imediatamente recorrem ao instrumento que conhecem melhor: a violência.
A partir disso, o espetáculo começa a funcionar também como uma provocação sobre o próprio cinema de ação. Quantas vezes assistimos a personagens enfrentarem uma ameaça desconhecida e aceitamos imediatamente que destruí-la é a única solução possível? Quantas narrativas transformam o primeiro disparo em um gesto heroico sem questionar quem decidiu que havia uma guerra acontecendo? “Hope: O Primeiro Impacto” utiliza justamente o prazer produzido por esse tipo de cinema para tornar essa lógica desconfortável.
Essa talvez seja sua característica mais provocadora. O filme oferece perseguições, monstros, explosões, armas e confrontos em escala gigantesca, mas progressivamente transforma nossa relação com essas imagens. Continuamos acompanhando a ação porque ela é tecnicamente estimulante, enquanto o próprio roteiro começa a questionar o impulso que a tornou possível. Na Hong-jin entrega o espetáculo que esperamos ao mesmo tempo em que desmonta a lógica moral que normalmente sustenta esse espetáculo.
O último ato é decisivo para consolidar essa leitura porque reorganiza elementos apresentados anteriormente como simples exageros. Algumas escolhas que poderiam parecer apenas estranhas passam a dialogar diretamente com a ideia de representação heroica construída ao longo do longa. A figura da estrela de ação, a necessidade de transformar pessoas em símbolos e a insistência em encontrar respostas familiares para situações desconhecidas começam a formar uma mesma linha.
Por isso, o caos de “Hope: O Primeiro Impacto” possui mais método do que inicialmente aparenta. É fácil sair da sessão lembrando primeiro da escala, das criaturas ou das sequências de ação, mas o filme permanece interessante justamente porque essas imagens continuam mudando de significado depois que a adrenalina diminui. Aquilo que parecia simplesmente um confronto entre humanos e monstros se transforma gradualmente em uma história sobre paranoia, militarização e incapacidade de comunicação.
Não é uma produção elegante em todos os momentos. Também não é equilibrada, econômica ou particularmente interessada em ser acessível. Na Hong-jin parece muito mais fascinado pela possibilidade de levar cada ideia até um ponto próximo do colapso. Às vezes funciona de maneira espetacular. Em outras, a ambição ultrapassa a capacidade técnica da produção. Ainda assim, existe algo genuinamente estimulante em acompanhar um blockbuster que prefere correr riscos a simplesmente reproduzir uma fórmula segura.
“Hope: O Primeiro Impacto” é excessivo porque precisa do excesso para construir seu argumento. As armas precisam parecer numerosas demais, a reação humana precisa parecer desproporcional e a ação precisa atingir um estágio em que a insistência na violência comece a se tornar absurda. Quando percebemos isso, o título ganha uma ironia particularmente interessante. Em um mundo no qual todo desconhecido é recebido com um disparo, esperança talvez seja justamente imaginar que, em algum momento, alguém possa decidir não puxar o gatilho.
Na Hong-jin retorna com uma obra muito diferente da precisão sufocante de “The Wailing”, mas preserva seu interesse por comunidades contaminadas pelo medo e pela impossibilidade de distinguir ameaça de paranoia. Agora, porém, ele transforma essas obsessões em uma superprodução de ficção científica deliberadamente descontrolada. O resultado tem falhas visíveis, principalmente em determinados efeitos digitais e no gerenciamento de uma narrativa gigantesca, mas possui algo que tantas produções de escala semelhante perderam: personalidade.
“Hope: O Primeiro Impacto” consegue ser engraçado, brutal, assustador, absurdo e politicamente provocativo sem precisar escolher apenas uma dessas identidades. É justamente a colisão entre elas que transforma o filme em uma experiência tão particular. Pode não existir perfeição dentro de Hope Harbor, mas existe uma convicção autoral enorme por trás de cada exagero. E quando um filme dessa dimensão consegue terminar deixando mais perguntas sobre a violência que acabamos de assistir do que lembranças das explosões que colocou na tela, Na Hong-jin já conseguiu algo muito mais interessante do que simplesmente construir outro espetáculo de monstros.
“Hope: O Primeiro Impacto”
Direção: Na Hong-jin
Elenco: Hwang Jung-min, Jo In-sung e Hoyeon
Disponível em: cinemas a partir de 8 de outubro de 2026
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