“Idiotas” é o tipo de filme que parece ter sido construído a partir da pergunta mais perigosa possível para uma comédia: até onde dá para empurrar o absurdo antes que ele deixe de ser engraçado e comece simplesmente a parecer arbitrário? Macon Blair claramente gosta dessa fronteira. Seu longa se apoia em personagens incapazes de tomar boas decisões, acontecimentos que desafiam qualquer lógica cotidiana e uma sucessão de situações que parecem competir entre si para descobrir qual delas consegue ser mais improvável. O resultado é uma comédia caótica, frequentemente divertida e cheia de personalidade, mas também irregular justamente porque sua lógica interna nunca encontra um equilíbrio realmente sólido.

A premissa já nasce de uma combinação improvável. Dois motoristas acostumados a empregos sem glamour recebem a missão de levar um adolescente rico e profundamente problemático até uma clínica de reabilitação. É o tipo de situação que, em qualquer universo minimamente racional, exigiria planejamento, profissionais treinados e uma rede de segurança muito maior. “Idiotas”, porém, não está interessado nesse universo e parte do princípio de que praticamente tudo pode dar errado, desde que dê errado da maneira mais barulhenta possível.
Esse espírito funciona muito bem nos primeiros momentos porque há frescor na maneira como Blair apresenta seus personagens. Davis, vivido por O’Shea Jackson Jr., já aparece como alguém capaz de transformar uma situação comum em desastre simplesmente por interpretar o mundo de maneira equivocada. A cena em que sua tentativa de promover algo educativo termina numa decisão completamente absurda estabelece rapidamente a lógica do personagem e, mais importante, o tipo de humor que o filme pretende perseguir. “Idiotas” é engraçado quando a estupidez nasce organicamente da personalidade dos personagens, mas começa a perder força quando o roteiro obriga o mundo ao redor deles a se tornar igualmente estúpido apenas para permitir que a próxima sequência aconteça.
Essa diferença é fundamental porque há uma grande distância entre acompanhar pessoas incapazes de reconhecer uma decisão ruim e assistir a um universo inteiro se dobrando para que essa decisão possa existir. Em vários momentos, “Idiotas” exige uma suspensão de descrença muito maior do que a própria proposta parece merecer. Não porque uma comédia precise ser realista, evidentemente, mas porque até o absurdo precisa obedecer a alguma lógica própria. Quando o espectador entende as regras daquele universo, pode aceitar praticamente qualquer coisa. O problema aparece quando essas regras parecem mudar de acordo com a necessidade da próxima piada.
Blair procura uma mistura entre road movie, sátira social e comédia física, e essa combinação tem potencial. A estrada oferece movimento, a presença do adolescente problemático introduz um motor constante de conflito e o acúmulo de drogas, criminosos, perseguições e decisões ruins cria uma estrutura naturalmente episódica. O filme sempre encontra alguma coisa nova para jogar contra o trio, o que impede a narrativa de ficar parada, mas o excesso de acontecimentos começa a revelar certa ansiedade do roteiro, como se o longa não confiasse totalmente na força da relação entre os personagens e sentisse a necessidade de acrescentar outro desastre a cada poucos minutos.
Essa inquietação narrativa acaba sabotando alguns dos momentos em que “Idiotas” parece mais próximo de encontrar sua verdadeira força. Em determinados trechos, o filme está a um passo de estabelecer uma dinâmica muito boa entre os três protagonistas, permitindo que suas personalidades entrem em conflito e produzam humor naturalmente, mas logo abandona essa possibilidade para iniciar outra situação ainda mais absurda. A impressão é de que Blair está constantemente preocupado com a possibilidade de o espectador ficar entediado, quando justamente os momentos menos preocupados em produzir estímulos são alguns dos mais interessantes.
É por isso que a química do elenco se torna tão importante. Dave Franco, O’Shea Jackson Jr. e Mason Thames conseguem transformar a convivência entre os personagens em algo mais interessante do que o roteiro por vezes permite. Existe atrito, irritação, desconfiança e uma espécie de cumplicidade involuntária que cresce conforme a jornada avança, criando uma relação que nunca precisa ser excessivamente sentimental para convencer.
Dave Franco funciona especialmente bem dentro dessa lógica porque sabe operar em uma frequência que mistura insegurança, humor físico e uma energia de sujeito permanentemente prestes a piorar a situação. Ele entende que o personagem precisa ser engraçado sem parecer consciente de que está dentro de uma comédia. Esse tipo de interpretação é essencial em um filme que depende tanto do absurdo, porque o humor perde força imediatamente quando os personagens começam a agir como se soubessem que estão protagonizando uma piada.
O’Shea Jackson Jr. oferece uma energia diferente. Seu Davis possui uma seriedade que torna suas decisões ruins ainda mais engraçadas, especialmente porque o ator não tenta suavizar a estranheza do personagem. A comédia funciona melhor quando o intérprete trata o absurdo com absoluta convicção, e Jackson Jr. entende isso muito bem. Quanto mais Davis acredita na própria capacidade de administrar determinadas situações, mais engraçado se torna perceber o tamanho da distância entre sua confiança e a realidade.
Mason Thames talvez tenha a função mais ingrata, porque Sheridan precisa ser simultaneamente irritante, perigoso e fascinante o suficiente para justificar todo o caos que se forma ao redor dele. O personagem é construído para despertar rejeição imediata, mas Thames encontra um prazer quase perverso nessa postura e consegue dar ao adolescente uma presença provocadora. Há algo de calculadamente odioso em Sheridan, e isso funciona porque o filme precisa que ele pareça capaz de manipular adultos muito mais velhos e teoricamente mais experientes sem transformá lo em uma espécie de gênio criminal. Ele continua sendo um adolescente impulsivo, mas um adolescente suficientemente observador para identificar rapidamente as fraquezas de quem está ao seu redor.
A dinâmica entre os três é, de longe, o melhor elemento da produção. Quando “Idiotas” desacelera o suficiente para permitir que seus personagens interajam, o filme encontra mais graça do que em qualquer perseguição. Existe um prazer particular em simplesmente observar aquelas personalidades incompatíveis tentando negociar, discutir ou encontrar alguma solução para problemas que, quase sempre, foram criados por elas mesmas. O problema é que Blair parece acreditar que precisa interromper constantemente essas interações para recuperar a velocidade da narrativa.
Essa necessidade de movimento aparece tanto no roteiro quanto na direção. O ritmo é acelerado, as situações mudam rapidamente e existe uma disposição constante para quebrar a expectativa da cena. Em alguns momentos, a estratégia funciona muito bem porque impede o público de prever exatamente qual será a próxima camada de desastre. Em outros, produz desgaste justamente porque uma comédia caótica também precisa de pausas. Sem elas, o absurdo perde contraste e deixa de parecer absurdo. Quando tudo é extremo, nada parece particularmente extremo, e “Idiotas” passa boa parte da duração tentando aumentar o volume até perceber que algumas de suas melhores piadas acabaram desaparecendo dentro do próprio excesso.
Existe também uma tentativa bastante clara de construir uma sátira da vida americana. Classes sociais diferentes, instituições, religião, dependência química, dinheiro e privilégio atravessam a narrativa sem necessariamente se tornarem o centro dela. O adolescente rico cercado por adultos incompetentes ou economicamente vulneráveis já oferece um contraste evidente, e o filme tenta extrair humor dessa desigualdade enquanto brinca com a facilidade que determinados personagens possuem para escapar das consequências de suas próprias ações.
A sátira funciona melhor quando o roteiro permite que o comportamento dos personagens exponha essas diferenças sem precisar transformá las em discurso. Quando a crítica social surge organicamente da situação, o filme consegue ser engraçado e incômodo ao mesmo tempo. O problema é que nem todas essas ideias recebem desenvolvimento suficiente. O longa começa a sugerir algo sobre classe, muda para outra situação, retorna ao conflito familiar e logo introduz criminosos, drogas e novas complicações. Existe sempre alguma possibilidade interessante sendo aberta, mas poucas recebem espaço suficiente para amadurecer, fazendo com que “Idiotas” pareça frequentemente mais cheio do que realmente profundo.
Essa característica conversa diretamente com a própria lógica do filme porque existe uma sinceridade curiosa escondida por baixo de toda a bagunça. O longa não está interessado apenas em acompanhar três pessoas se destruindo ao longo da estrada. Há uma preocupação genuína com conexão, abandono, responsabilidade e com a possibilidade de alguém conseguir chegar emocionalmente ao outro justamente quando ambos já perderam qualquer expectativa de controle. É nesse ponto que a segunda metade começa a conquistar algum peso emocional, transformando gradualmente a convivência do trio em uma espécie de vínculo improvisado.
Não chega a ser uma família substituta no sentido mais tradicional, e seria simplista reduzir a relação a isso, mas existe alguma coisa parecida com pertencimento surgindo dentro da desordem. O filme encontra sua melhor camada quando percebe que seus personagens são engraçados porque estão perdidos, mas também conseguem ser comoventes exatamente pelo mesmo motivo. A vulnerabilidade não surge apesar da estupidez deles, mas frequentemente através dela, como consequência de pessoas que passaram tanto tempo tomando decisões ruins que já não sabem exatamente como reorganizar a própria vida.
Esse equilíbrio entre humor e sinceridade é difícil, e Blair nem sempre consegue mantê lo. Em determinados momentos, a transição entre uma piada absurda e uma tentativa de emoção parece abrupta demais. O longa quer que o espectador aceite uma lógica quase cartunesca e, pouco depois, trate uma revelação emocional com absoluta seriedade. Isso poderia funcionar perfeitamente se a linguagem estivesse mais integrada, mas há trechos nos quais parece que duas versões diferentes do filme estão disputando espaço, com uma interessada em ser uma comédia física quase anárquica e outra tentando construir uma história amarga sobre pessoas emocionalmente desajustadas procurando alguma direção. As duas propostas possuem força individualmente, mas o problema está na dificuldade de fazê las parecer partes inseparáveis do mesmo filme.
Ainda assim, existe algo admirável nessa tentativa, principalmente porque “Idiotas” prefere correr riscos a se acomodar numa estrutura segura. Blair claramente não está interessado em entregar uma comédia genérica de viagem com um arco previsível e personagens domesticados. Ele quer sujeira, exagero, desconforto e uma sensação constante de que tudo pode desmoronar, e essa disposição dá personalidade ao longa mesmo quando a execução tropeça. É difícil acusar “Idiotas” de falta de identidade, porque até seus defeitos parecem consequência direta da vontade de levar sua proposta o mais longe possível.
Visualmente, a direção não tenta embelezar demais a estrada ou transformar a jornada em turismo. O ambiente é funcional, imperfeito e muitas vezes desagradável, o que combina com os personagens e com a própria natureza da história. Há uma fisicalidade importante nas cenas, especialmente quando a comédia depende de corpos se machucando, correndo, caindo ou simplesmente ocupando espaços de maneira desajeitada. A câmera entende que parte da graça está justamente na relação física entre aquelas pessoas e ambientes que parecem sempre um pouco inadequados para elas.
A montagem acompanha essa energia, mas também participa do problema de excesso. O filme raramente deixa uma situação respirar por muito tempo e frequentemente parece disposto a chegar à próxima ideia antes mesmo de explorar completamente a anterior. A urgência constante ajuda a criar ritmo, mas também impede que algumas das melhores situações tenham tempo suficiente para se tornar realmente memoráveis. Há piadas que poderiam crescer pela insistência, pelo constrangimento ou simplesmente pelo silêncio, mas que acabam rapidamente substituídas por outro estímulo.
Peter Dinklage aparece dentro de um elenco que aproveita bem as oportunidades de excentricidade, embora o foco continue necessariamente concentrado no trio principal. A produção entende que a jornada só funciona se o espectador acreditar que aquelas três pessoas, por mais incompatíveis que sejam, podem permanecer juntas por tempo suficiente para que alguma transformação aconteça. É justamente nesse aspecto que o longa consegue vencer parte de suas próprias limitações, porque mesmo quando o roteiro exige decisões absurdas, o elenco encontra pequenas reações, olhares e pausas que preservam uma sensação de relação real. A química não resolve todos os problemas, mas oferece um centro emocional suficientemente forte para que o caos não pareça completamente vazio.
Existe também uma qualidade interessante na maneira como o filme lida com a ideia de fracasso. Nenhum daqueles personagens parece estar exatamente onde gostaria de estar. Eles carregam erros anteriores, decisões ruins e uma dificuldade evidente de assumir responsabilidade, fazendo com que a viagem funcione não apenas como deslocamento físico, mas como extensão desse estado de desorientação. Em “Idiotas”, chegar ao destino nunca parece tão importante quanto sobreviver às próprias escolhas, e essa talvez seja a ideia mais forte escondida dentro da estrutura de road movie construída por Blair.
O próprio título funciona menos como julgamento individual e mais como descrição de um comportamento coletivo. Não existe um único idiota conduzindo a história, mas uma cadeia inteira de decisões ruins, pessoas mal preparadas e situações que poderiam ter sido evitadas com uma quantidade mínima de bom senso. Essa irresponsabilidade generalizada dá ao filme uma energia quase niilista, mas Blair nunca abandona totalmente seus personagens. Existe sempre alguma ternura por trás do deboche, o que impede “Idiotas” de se transformar numa comédia puramente cruel. O filme ri deles, evidentemente, mas também parece gostar genuinamente daquelas figuras e compreender parte da fragilidade escondida por trás de suas escolhas.
Essa diferença ajuda bastante na reta final, quando a narrativa começa a reorganizar os acontecimentos anteriores e oferecer uma perspectiva mais clara sobre a jornada. Algumas situações ganham outro peso quando vistas retrospectivamente, e existe satisfação em perceber que parte do caos não era totalmente aleatória. Isso não apaga a irregularidade do caminho, mas oferece algum sentido à insistência do filme em empurrar seus personagens de uma situação impossível para outra.
“Idiotas” é muito mais consistente em energia do que em tom. A disposição para ser estranho, agressivo e imprevisível permanece do início ao fim, mas a maneira como humor, sátira e emoção convivem varia bastante. É um filme que provavelmente funcionará melhor para quem aceita entrar completamente no jogo proposto por Blair. O espectador que exigir lógica realista encontrará motivos para desistir cedo, embora o problema mais interessante seja que até quem aceita o absurdo pode esbarrar em momentos nos quais a credibilidade interna da história é pressionada além do limite.
No fim, “Idiotas” funciona menos porque sua história seja particularmente bem equilibrada e mais porque seus personagens são bons demais para serem abandonados. Dave Franco, O’Shea Jackson Jr. e Mason Thames carregam o filme através de uma química que transforma situações extremamente artificiais em interações surpreendentemente vivas. É através deles que o roteiro encontra humanidade suficiente para impedir que a sucessão de absurdos se transforme apenas em ruído.
Macon Blair constrói um longa bagunçado sobre pessoas bagunçadas e, curiosamente, encontra verdade justamente quando para de tentar superar o próprio caos. Quando confia nos personagens, “Idiotas” encontra humor, afeto e uma melancolia inesperada. Quando confia apenas na próxima situação absurda, começa a perder força. Essa oscilação acompanha praticamente toda a experiência e explica por que o filme consegue ser simultaneamente divertido, frustrante e estranhamente carismático.
Ainda assim, existe valor em uma comédia que prefere exagerar a permanecer previsível. “Idiotas” tropeça muitas vezes, muda de direção sem aviso e testa constantemente a paciência do espectador, mas possui uma energia difícil de ignorar e um elenco capaz de encontrar humanidade mesmo nas situações mais artificiais. Talvez essa imperfeição seja, de alguma maneira, coerente com uma história construída ao redor de pessoas que raramente sabem o que estão fazendo e que precisam atravessar uma quantidade absurda de erros antes de compreender minimamente para onde estão indo.
“Idiotas”
Direção: Macon Blair
Elenco: Dave Franco, O’Shea Jackson Jr., Mason Thames e Peter Dinklage
Disponível em: cinemas
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