É raro encontrar um filme que cause perplexidade já na primeira cena, mas “Imperfeitamente Perfeita” abraça esse efeito com convicção quase acidental. A obra parece nascer de uma disputa interna entre o que deseja ser e o que entrega, criando uma experiência que mistura caos, ruído e uma dose involuntária de estranheza cinematográfica. O filme provoca a sensação de observar um organismo tentando se entender enquanto se apresenta ao público. A ideia central existe, mas o caminho para chegar lá se perde em cada curva.
Ella McCay, interpretada por Emma Mackey, surge como promessa política e figura idealista, dividida entre desafios profissionais e conflitos familiares que poderiam render um retrato complexo sobre liderança e identidade. A proposta, no papel, oferece uma brecha interessante para um drama cômico com personalidade. Porém, tudo o que se desenrola a partir dessa premissa parece se afastar do filme que poderíamos esperar. O projeto soa como rascunho de roteiro encontrado em um arquivo antigo, algo que busca forma, textura e alma, mas que escorrega constantemente ao tentar consolidar suas próprias ideias.
O estranhamento surge primeiro pelos diálogos. As falas operam como se cada personagem recebesse o texto fora de ordem e fosse instruído a recitá-lo sem compreensão do contexto. Isso resulta em conversas que soam desalinhadas, fragmentadas, quase como se pertencessem a universos paralelos. As intenções verbais se perdem, e cada gesto parece surgir sem ponto de partida ou consequência, criando uma atmosfera artificial onde personagens deixam de parecer pessoas.
Esse descompasso se expande para a composição visual. A comédia dramática que “Imperfeitamente Perfeita” tenta sustentar se desfaz em escolhas estéticas que pouco conversam entre si. Momentos de humor surgem em bolsões de silêncio desconfortável. Tensões dramáticas se resolvem com cortes abruptos, como se a narrativa resistisse a qualquer tentativa de construção emocional. É um filme que, mesmo sem querer, cria uma sensação curiosa: o público observa, mas busca algum ponto de ancoragem que nunca chega.
Há também um problema estrutural. Os personagens orbitam Ella sem objetivos claros, como se agissem em função de impulsos desconexos. A família McCay parece presa em um universo onde a lógica se tornou souvenir esquecido, e cada interação reforça essa percepção. A sensação é de acompanhar uma dinâmica que tenta simular humanidade sem compreender como humanos realmente funcionam. O resultado provoca um tipo de humor involuntário, aquele que surge quando a obra falha no que promete, mas acerta por acidente em outra coisa.
Nada disso diminui o esforço do elenco, que tenta encontrar respiração dentro da confusão. Emma Mackey constrói uma Ella determinada, ainda que cercada por situações que pouco favorecem sua personagem. Jamie Lee Curtis e Woody Harrelson entram em cena com energia, porém sempre engolidos pela instabilidade tonal da obra. É como se cada ator estivesse em um filme diferente, lutando para permanecer de pé enquanto o roteiro muda de direção a cada minuto.
“Imperfeitamente Perfeita” se revela, no fim, como experiência intrigante por motivos que escapam à intenção original. Há filmes que surpreendem pelo domínio técnico, outros pela potência emocional. Este surpreende pela coragem involuntária de se apresentar exatamente como é: irregular, disperso e, de certa forma, fascinante pelo estranhamento que provoca. Um estudo involuntário sobre o que acontece quando a ambição de uma história supera sua execução.
“Imperfeitamente Perfeita”
Direção: James L. Brooks
Elenco: Emma Mackey, Jamie Lee Curtis, Woody Harrelson
Disponível em 11 de dezembro de 2025 nos cinemas
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