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Crítica: “Jogo Sujo” (Play Dirty)

Shane Black parece estar jogando com suas próprias cartas em “Jogo Sujo”, mas, dessa vez, o blefe não convence completamente. O filme tenta reviver a velha energia de seus thrillers espirituosos, aquele território entre o sarcasmo e a violência, só que o baralho aqui vem embaralhado demais. O resultado é um híbrido de assalto e comédia de ação que tenta ser “esperto” sem o timing que sempre caracterizou o diretor.

Crítica: “Jogo Sujo” (Play Dirty)

A premissa é clássica: um ladrão profissional, Parker, vivido por Mark Wahlberg, assume uma missão que promete o golpe de sua vida. Ao lado de uma equipe que mistura carisma e caos, ele precisa enfrentar uma máfia impiedosa e um jogo de traições que o coloca à beira do abismo. Há algo de magnético na proposta um retorno à tradição dos anti-heróis que vivem pelo crime, mas seguem um código próprio. Só que Black, dessa vez, parece mais interessado em homenagear esse universo do que realmente mergulhar nele.

O grande problema é o ritmo. O que antes era ironia afiada, aqui soa hesitante. O humor que costumava pontuar os roteiros de Black aparece enferrujado, como se o filme tivesse medo de ser o que promete: uma história suja, cínica e deliciosamente moralmente ambígua. A ação, embora competente, perde impacto no excesso de digitalização. As cenas de perseguição, que deveriam pulsar adrenalina, lembram mais recortes de um streaming apressado do que o cinema vibrante que fez de Black um nome de peso em Hollywood.

Há lampejos do velho Shane Black quando a trama se aproxima de sua veia mais niilista. O diretor sempre entendeu como poucos o contraste entre grandes crimes e pequenas vaidades humanas. É quando “Jogo Sujo” toca essa nota que o filme ganha força, lembrando que, no universo de Black, a violência é só mais um meio de comunicação entre pessoas que desistiram de ser boas.

A parceria entre Wahlberg e LaKeith Stanfield prometia mais do que entrega. O primeiro parece deslocado, quase burocrático, enquanto o segundo injeta carisma e sutileza em cada cena, roubando o protagonismo com facilidade. Rosa Salazar completa o trio com energia, mas o roteiro não lhe dá muito espaço além de funcionar como âncora emocional de um filme que evita o sentimentalismo.

Há, contudo, uma camada curiosa no subtexto: Black transforma o roubo em metáfora para a própria Hollywood, onde tudo é reaproveitado, remixado, refeito. “Jogo Sujo” parece roubar da nostalgia dos anos 90 o que resta de frescor, tentando lembrar o público de uma época em que ação e humor conviviam em harmonia. Só que, ironicamente, esse saque acaba sendo mais melancólico que divertido.

Mesmo com falhas, o filme ainda tem charme o bastante para quem busca um retorno ao crime estilizado, com diálogos pontiagudos e moralidade flexível. E talvez seja essa a maior virtude de Shane Black aqui: ainda que seu jogo esteja manchado, ele continua sendo um jogador perigoso o suficiente para manter o público olhando para a mesa.

“Jogo Sujo”
Direção: Shane Black
Elenco: Mark Wahlberg, LaKeith Stanfield, Rosa Salazar
Disponível em Amazon Prime Video

Avaliação: 2.5 de 5.

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