Ícone do site Caderno Pop

Crítica: “Justiça Artificial” (Mercy)

O futuro costuma ser vendido como promessa de eficiência, neutralidade e progresso. Aqui, ele chega como ameaça silenciosa, fria e burocrática. Um tribunal sem rosto, um cronômetro implacável e a ideia perigosa de que justiça pode ser reduzida a cálculos. O que deveria eliminar falhas humanas acaba expondo o pior delas: a pressa em condenar.

Crítica: “Justiça Artificial” (Mercy)

“Justiça Artificial” parte de um conceito provocador. Um detetive acusado de assassinar a própria esposa precisa provar sua inocência em 90 minutos diante de uma inteligência artificial que, ironicamente, ajudou a legitimar no passado. Los Angeles, em 2029, surge menos como cidade e mais como sintoma de um mundo que terceirizou decisões morais para sistemas automatizados. A premissa carrega potencial, especialmente ao flertar com debates sobre ética, vigilância e a ilusão de imparcialidade tecnológica.

O problema começa na execução. A narrativa se ancora quase inteiramente em Chris Pratt encarando telas, dados e interfaces digitais. A escolha estética até tenta dialogar com o cinema de linguagem digital popularizado por produções como “Searching” e “Missing”, mas aqui o formato pesa. A experiência se torna repetitiva, cansativa e visualmente engessada, como se o filme insistisse em mostrar movimento onde existe estagnação dramática.

O suspense prometido se sustenta por pouco tempo. Informações surgem aos poucos, mas sem real impacto emocional. Quando a trama tenta se reinventar, abandona a proposta inicial e escorrega para uma ação genérica, inflada por coincidências convenientes e reviravoltas que soam mais como atalhos de roteiro do que consequências naturais da história. O que deveria ser um thriller psicológico se dilui em uma sucessão de decisões previsíveis.

A edição colabora pouco. O excesso de janelas, gráficos e estímulos visuais, somado a uma trilha sonora constante e invasiva, cria uma sensação de urgência artificial. O silêncio, que poderia ser um aliado poderoso em um julgamento moral, nunca encontra espaço. O filme fala o tempo todo, mas raramente diz algo relevante.

Rebecca Ferguson surge como o elemento mais comprometido do elenco. Sua presença oferece algum peso dramático a uma narrativa que insiste em se simplificar. Ainda assim, nem mesmo sua entrega consegue salvar um roteiro que prefere caminhos fáceis. Annabelle Wallis aparece de forma funcional, sem espaço real para complexidade.

A direção de Timur Bekmambetov reforça um vício já conhecido. A obsessão pelo formato tecnológico parece mais importante do que a história em si. O mais contraditório é perceber que, nos minutos finais, o filme abandona justamente a linguagem que tentou sustentar toda a experiência. Quando a tela se abre, já é tarde demais.

Existe um discurso subjacente inquietante. A obra parece aceitar com naturalidade a ideia de sistemas automatizados decidindo destinos humanos. O que poderia ser uma crítica se aproxima perigosamente de uma validação. A ficção científica perde força quando deixa de questionar suas próprias premissas.

“Justiça Artificial” se apresenta como um alerta que nunca encontra coragem para ser incômodo. Um filme que começa com ambição conceitual, mas termina como produto genérico, mais alinhado ao consumo rápido do streaming do que a uma reflexão duradoura sobre justiça, tecnologia e responsabilidade. A inteligência artificial julga, mas o cinema aqui falha em convencer.

“Justiça Artificial”
Direção:
Timur Bekmambetov
Elenco: Chris Pratt, Rebecca Ferguson, Annabelle Wallis
Disponível em: 22 de janeiro nos cinemas

Avaliação: 2 de 5.

Fique por dentro das novidades das maiores marcas do mundo! Acesse nosso site Marca Pop e descubra as tendências em primeira mão.

Sair da versão mobile