Ícone do site Caderno Pop

Crítica: Kaytranada, “Ain’t No Damn Way!”

Kaytranada nunca foi um produtor de caminhos óbvios. Desde que surgiu, o canadense construiu um espaço único dentro da música eletrônica, transitando entre o house, o hip hop e o R&B com uma naturalidade impressionante. Agora, com “Ain’t No Damn Way!”, ele entrega um disco que não busca o brilho dos vocais ou a fórmula das rádios. O que temos aqui é um mergulho na essência do beat, na construção de atmosferas que se sustentam sozinhas, sem depender de grandes refrões ou parcerias estreladas.

Crítica: Kaytranada, “Ain’t No Damn Way!”

Se no passado ele nos ofereceu trabalhos que equilibravam hits e experimentações, aqui o foco é outro. O álbum é pensado como um corpo contínuo de energia. É música para embalar o corpo em movimento, para ser pano de fundo de experiências cotidianas, mas também para ser absorvida de maneira atenta, faixa após faixa, revelando nuances que só um ouvido paciente vai captar. Esse é o ponto central: “Ain’t No Damn Way!” não quer impressionar de imediato, ele quer se infiltrar, ocupar espaço lentamente até se tornar indispensável.

Tecnicamente, o disco impressiona pelo cuidado na construção sonora. Kaytranada domina a linguagem do house, mas o que diferencia sua música é a textura. Ele trabalha com graves precisos, batidas que têm peso mas não sufocam, linhas de sintetizador que parecem desenhar cores no ar. Há uma fluidez rara aqui: as transições são suaves, quase imperceptíveis, como se cada música fosse a extensão natural da anterior. Isso faz com que a audição completa seja mais recompensadora do que a experiência fragmentada de pular faixas.

É curioso perceber que, mesmo sendo um álbum mais minimalista, não há sensação de vazio. Kaytranada sabe como preencher o espaço, como adicionar pequenos detalhes que mantêm a atenção do ouvinte. São efeitos, cortes de samples, camadas que aparecem e desaparecem no momento certo. É esse jogo de elementos que transforma o que poderia ser apenas funcional em algo artisticamente consistente.

Claro que, para quem espera o Kaytranada dos grandes hits vocais, esse trabalho pode soar contido. Mas essa contenção é proposital. Ele não está atrás de hits, está atrás de consistência. “Ain’t No Damn Way!” é um álbum de intenção clara: ser funcional, sim, mas também elegante, sofisticado, feito com mão de artesão. É o tipo de disco que dialoga diretamente com pistas de dança, mas que não perde força quando ouvido sozinho em um quarto, de fones de ouvido.

No fim das contas, Kaytranada reafirma aqui o que já sabíamos: poucos produtores conseguem traduzir tanto em tão pouco. A economia de recursos não é limitação, é escolha. Ele prova que ainda é possível criar música eletrônica acessível sem abrir mão da autenticidade.

“Ain’t No Damn Way!” pode não ser o trabalho mais ousado de sua discografia, mas é sólido, consistente e, principalmente, necessário. Um lembrete de que a música eletrônica não precisa sempre reinventar-se para ser relevante. Às vezes, basta soar verdadeiro.

Nota: 73/100 | Kaytranada, “Ain’t No Damn Way!”

Fique por dentro das novidades das maiores marcas do mundo! Acesse nosso site Marca Pop e descubra as tendências em primeira mão.

Sair da versão mobile