Ícone do site Caderno Pop

Crítica: Kesha, “.”

Kesha entendeu que liberdade não é só um conceito bonito. É algo que se vive na pele ou não se vive. E foi exatamente essa convicção que guiou cada passo até o lançamento de seu novo trabalho, batizado de forma tão minimalista quanto poderosa: “.”. Sim, é um ponto final. Pronuncia-se period, em inglês, que significa “ponto”. O título pode soar simples, quase enigmático, mas carrega um peso simbólico gigantesco. Representa o encerramento de um ciclo de dor, opressão e contratos sufocantes, ao mesmo tempo em que marca o início de uma fase em que a artista finalmente se reconhece como dona do próprio corpo, voz e narrativa.

Crítica: Kesha, “.”

O caminho até aqui foi turbulento. Kesha enfrentou um processo desgastante contra Dr. Luke, seu antigo produtor, por abuso e agressão sexual, e precisou amargar anos presa a contratos que pareciam algemas. Esse embate consumiu quase uma década, entre idas e vindas no tribunal, boicotes na indústria e a incerteza se poderia lançar música novamente sem medo. Só em dezembro de 2023 conseguiu, finalmente, romper o vínculo com RCA, Kemosabe Records e até com sua antiga equipe de gestão. Nas palavras dela, estava precisando de um recomeço. E foi atrás disso sem hesitar.

A partir daí, tudo mudou. Kesha assinou com a Crush Music, criou seu próprio selo, o Kesha Records, e tratou de fechar um acordo de distribuição com a Alternative Distribution Alliance, braço da Warner Music. Foi o suficiente para colocar em movimento a engrenagem que culminou em “Period”, lançado em 4 de julho de 2025. Um disco que chega carregado de simbolismos, tanto no nome minimalista, representado por um simples ponto final, quanto na sonoridade que passeia entre pop, hyperpop, disco, country-pop, polka e EDM. Parece caótico? Talvez, mas é justamente nesse caos que Kesha se reencontra.

O álbum abre com “Freedom”, uma faixa que começa quase como um lamento, uma meditação melancólica, mas logo se transforma em uma explosão house e disco de seis minutos. É como se fosse o nascimento de um novo capítulo. “Joyride”, o primeiro single e hino de libertação, é uma festa electropop embalada por sintetizadores agressivos, batidas dançantes e até acordeões que flertam com a polka. Essa faixa foi o primeiro passo público de Kesha fora das amarras da antiga gravadora, e por isso carrega o peso histórico de quem esperou toda uma vida para dizer: estou livre.

A variedade de estilos é um convite ao ouvinte para mergulhar no universo plural de Kesha. “Yippee-Ki-Yay”, com participação do T-Pain, abraça o country-pop, com pitadas que lembram hits atuais de Shaboozey. Já “Delusional” aposta num pop dramático, uma balada poderosa que revela as fragilidades de Kesha ao encarar um ex incapaz de encarar a realidade. A sequência traz “Love Forever”, um mergulho no disco retrô com vocoders, e “Boy Crazy”, uma explosão hyperpop que coloca Kesha no papel de uma femme fatale completamente desinibida. “Glow”, por sua vez, é quase videogame, com vocais glitchados e synths 8-bit que se recusam a ficar no mesmo lugar.

O desfecho com “Cathedral” é arrebatador. Ali, Kesha se coloca como seu próprio templo, cultuando o amor-próprio e o respeito ao corpo depois de anos sendo tratada como produto. Não por acaso, essa foi a música escolhida para o TED Talk dela sobre composição e o impacto que a arte tem em sua vida.

Em entrevistas recentes, Kesha deixou claro que este é o primeiro álbum em que se sente completamente solta, criativa e juridicamente. Disse que quer transformar “Period” em um espaço seguro para quem precisa se sentir livre, inteiro, sem vergonha. Não é só discurso de marketing. Dá para ouvir essa libertação em cada refrão catártico, em cada melodia que ousa misturar polka com hyperpop ou EDM com country.

Kesha pode ter levado vinte anos para chegar até aqui, mas chegou com força. “Period” é mais do que um disco, é um grito de independência. É o ponto final numa era de abusos, contratos tóxicos e processos intermináveis. E o ponto de partida para uma fase que, ao que tudo indica, vai ser a mais autêntica, honesta e, acima de tudo, feliz de toda a carreira dela.

Nota: 79/100

Fique por dentro das novidades das maiores marcas do mundo! Acesse nosso site Marca Pop e descubra as tendências em primeira mão.

Sair da versão mobile