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Crítica: “Ladrões de Drogas” (1ª temporada)

Poucas narrativas conseguem retratar com precisão o colapso iminente que ronda personagens marginais quando o crime deixa de ser plano e passa a ser armadilha. “Ladrões de Drogas”, nova aposta da Apple TV+, parte exatamente desse princípio: o de um erro de cálculo que desestabiliza tudo. O que começa com uma artimanha engenhosa se transforma em um labirinto sufocante, onde a sobrevivência depende menos da esperteza e mais da resistência emocional dos protagonistas.

Crítica: “Ladrões de Drogas” (1ª temporada)

Baseada no livro de Dennis Tafoya, a série não busca reinventar o gênero policial, mas oferece uma atmosfera de tensão permanente e um estudo rigoroso sobre a degradação da lealdade em cenários extremos. A narrativa é ágil e sem tempo para respirar, como se os próprios personagens estivessem em constante fuga da lei, dos rivais e de si mesmos. É nesse ambiente claustrofóbico que a série encontra sua força: ao expor o esgotamento moral daqueles que confundem lealdade com sobrevivência.

O que diferencia “Ladrões de Drogas” de outras produções do gênero não está no enredo, mas na densidade com que apresenta suas camadas. A série não recorre a heróis ou vilões caricatos. Seus protagonistas são figuras comprometidas com um código próprio, um senso de justiça enviesado que beira a ilusão de nobreza mas que, no fundo, é só mais uma tentativa desesperada de justificar atos irreversíveis. A amizade é posta à prova não em gestos grandiosos, mas na hesitação diante do perigo, na omissão, na traição silenciosa.

A direção de Ridley Scott, ainda que limitada ao início, imprime uma assinatura visual clara: enquadramentos que comprimem os corpos, paletas frias, uma mise-en-scène que reforça o cerco psicológico. E, embora o ritmo se intensifique com o avanço da trama, há um cuidado em preservar o tom sombrio, como se cada episódio fosse mais uma etapa da queda inevitável de dois homens que já cruzaram todos os limites.

O elenco carrega a narrativa com sobriedade e precisão. Brian Tyree Henry entrega um personagem dilacerado por contradições, enquanto Wagner Moura projeta com firmeza a angústia de quem percebe tarde demais o tamanho da armadilha em que se meteu. É nas entrelinhas, nos silêncios entre uma decisão e outra, que os dois constroem a tragédia compartilhada que move a série.

Sem tentar ser original a qualquer custo, “Ladrões de Drogas” aposta naquilo que o gênero tem de mais sólido: tensão, imprevisibilidade e desfechos que evitam o conforto. Não é uma série sobre redenção. É sobre consequências. Sobre o momento exato em que se percebe que não há mais volta e ainda assim, continua-se em frente.

“Ladrões de Drogas”
Direção: Ridley Scott
Elenco: Brian Tyree Henry, Wagner Moura, Marin Ireland
Disponível em: Apple TV+

Avaliação: 3 de 5.

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