“Lanternas” entende uma coisa que muitas produções de super heróis ainda parecem resistir em aceitar: poder, sozinho, não cria personagem. Um anel capaz de construir praticamente qualquer coisa a partir da força de vontade poderia facilmente transformar a série em uma sequência de demonstrações visuais, batalhas cósmicas e referências destinadas a quem já conhece décadas de histórias em quadrinhos. Em vez disso, a produção escolhe outro caminho. O verdadeiro centro de “Lanternas” não está no que Hal Jordan e John Stewart conseguem fazer com seus anéis, mas no que esses anéis significam para cada um deles.

Essa diferença muda completamente o tom da série. Hal Jordan, interpretado por Kyle Chandler, já viveu tempo suficiente dentro daquela identidade para enxergar o poder como extensão de tudo aquilo que perdeu, conquistou e talvez já não saiba mais sustentar. John Stewart, vivido por Aaron Pierre, encara a mesma função a partir do extremo oposto. Para ele, ser um Lanterna Verde ainda representa possibilidade, propósito e responsabilidade. Um homem teme descobrir quem será quando deixar de carregar o anel. O outro parece ter passado a vida acreditando que só descobrirá quem realmente é quando finalmente puder usá-lo.
É dessa oposição que nasce a relação mais interessante de “Lanternas”. Hal deveria treinar John, mas está longe de assumir o papel de mentor tradicional. Existe cansaço, ressentimento, desconfiança e um certo desprezo disfarçado de experiência. John, por outro lado, não chega disposto a venerá-lo. Ele conhece a importância de Hal, mas também percebe rapidamente suas falhas, suas contradições e o desgaste de alguém que carrega uma posição heroica há tempo demais. A série transforma a sucessão de um super herói em uma disputa de identidade entre dois homens que não sabem exatamente o que o outro representa em suas vidas.
Essa escolha é especialmente eficiente porque “Lanternas” não tenta transformar Hal em uma figura paternal idealizada. Kyle Chandler trabalha o personagem a partir de uma mistura muito interessante de autoridade e decadência. Há momentos em que Hal ainda possui presença suficiente para justificar a própria reputação, mas existem outros em que parece um homem tentando convencer a si mesmo de que continua sendo necessário. Chandler encontra justamente essa rachadura, evitando interpretar Hal como alguém simplesmente envelhecido ou desiludido.
Seu Hal Jordan é cansado sem ser apático, experiente sem ser necessariamente sábio e carismático sem jamais parecer totalmente confiável. Existe uma diferença enorme entre ser veterano e estar preparado para entregar o próprio lugar, e “Lanternas” explora muito bem esse desconforto. Hal consegue orientar John em determinados momentos, mas também parece permanentemente ameaçado pela ideia de que seu pupilo possa não precisar mais dele.
Aaron Pierre trabalha em uma frequência completamente diferente. John Stewart é mais controlado, metódico e emocionalmente fechado, características que poderiam facilmente transformá-lo em um personagem rígido demais. Pierre, porém, consegue encontrar pequenas variações dentro dessa contenção. John observa antes de reagir, mede o ambiente e evita entregar gratuitamente aquilo que sente. Isso faz com que seus momentos de ruptura tenham muito mais peso, principalmente porque a série entende que sua disciplina não significa ausência de conflito.
A química entre Chandler e Pierre é provavelmente a maior força da produção. Não existe apenas antagonismo e tampouco uma amizade construída rapidamente para atender às necessidades do gênero. A relação entre Hal e John muda constantemente porque cada nova informação interfere na confiança entre eles. Em alguns momentos funcionam como parceiros, em outros como rivais e, frequentemente, como dois homens presos a uma hierarquia que nenhum dos dois aceita completamente. “Lanternas” funciona melhor quando coloca os dois simplesmente conversando, desconfiando e tentando entender quais partes da verdade ainda estão sendo escondidas.
É por isso que a comparação com um drama policial funciona muito mais como descrição de estrutura do que como simples referência estética. A investigação de um assassinato em uma pequena cidade norte americana permite que a série reduza a escala de um universo potencialmente infinito. Em vez de começar pelo espaço, ela começa pelo chão. Há estradas, motéis, propriedades rurais, delegacias e comunidades fechadas, espaços que normalmente pertenceriam a um suspense criminal e que aqui passam a conviver com a possibilidade de uma ameaça extraterrestre.
Essa combinação é um dos elementos mais inteligentes da série porque impede que a ficção científica domine imediatamente a narrativa. Existe algo essencialmente estranho em colocar dois policiais cósmicos diante de um crime aparentemente local, e “Lanternas” utiliza essa estranheza a seu favor. Hal chega convencido de que determinados elementos pertencem à sua jurisdição, enquanto as autoridades locais naturalmente questionam por que dois homens ligados a uma organização intergaláctica deveriam interferir naquele território.
Kelly Macdonald contribui bastante para esse contraste como a xerife Kerry Kane. Sua presença oferece resistência imediata à autoridade dos Lanternas e impede que a série trate a população local apenas como conjunto de personagens esperando explicações de pessoas mais poderosas. Kerry possui seu próprio conhecimento daquele espaço e seu próprio interesse em proteger a comunidade, fazendo com que o conflito de jurisdição funcione também como disputa de perspectiva.
A investigação cresce progressivamente sem abandonar o caráter humano da história. Existem suspeitos, identidades falsas, informações escondidas e uma série de personagens cuja relação com o caso se torna menos óbvia conforme a narrativa avança. A presença dos Manhunters adiciona outra camada ao mistério porque introduz uma ameaça capaz de comprometer inclusive a percepção dos protagonistas. Se qualquer pessoa pode não ser exatamente aquilo que parece, confiança deixa de ser apenas uma questão emocional e passa a ser também ferramenta de sobrevivência.
Esse aspecto conversa diretamente com a relação entre Hal e John. Os dois estão tentando identificar um inimigo que pode assumir diferentes formas enquanto simultaneamente escondem informações um do outro. O mistério externo funciona porque existe um mistério igualmente importante dentro da própria parceria. A série percebe que descobrir quem está mentindo na investigação importa tanto quanto descobrir até onde Hal e John estão dispostos a mentir entre si.
A presença de Sinestro amplia essa tensão de maneira especialmente eficiente. Ulrich Thomsen trabalha o personagem sem depender de grandiosidade visual ou comportamento excessivamente ameaçador. Sua força está na manipulação. Há algo particularmente interessante em observar Hal, normalmente tão seguro diante de John, retornar quase imediatamente à posição de aluno quando confrontado por seu antigo mentor. A dinâmica modifica sua postura e revela uma fragilidade que dificilmente apareceria em outras circunstâncias.
Sinestro entende Hal e, exatamente por isso, não precisa exercer controle através da força. Ele sabe quais inseguranças pressionar, quais dúvidas alimentar e como transformar preocupação em paranoia. O personagem funciona porque sua ameaça está menos no que pode fazer fisicamente e mais na facilidade com que consegue reorganizar emocionalmente as pessoas ao seu redor. Dentro de uma série interessada em confiança, legado e autoridade, essa abordagem é muito mais eficiente do que simplesmente tratá-lo como mais um antagonista aguardando uma batalha.
Outro acerto importante está na maneira como “Lanternas” trabalha a moralidade de John. Quando surge a possibilidade de simplesmente tomar para si o poder que acredita merecer, o personagem recusa. Essa decisão poderia ser apresentada de maneira excessivamente heroica, mas funciona melhor porque revela algo mais fundamental sobre sua personalidade. John não está disposto a se tornar aquilo que combate apenas para alcançar a posição que deseja.
Isso também cria uma tensão interessante entre aquilo que faz alguém eficiente dentro da Tropa e aquilo que faz alguém moralmente digno dela. A série questiona se obediência, dureza e capacidade de matar são necessariamente características de um bom Lanterna ou apenas exigências de uma instituição que também pode estar errada. Essa dúvida adiciona uma camada política e ética à narrativa sem transformar os personagens em simples porta vozes de ideias.
Ao mesmo tempo, “Lanternas” nem sempre encontra o mesmo equilíbrio quando tenta ampliar seus comentários sociais. A discussão sobre raça nos Estados Unidos faz sentido dentro da trajetória de John Stewart e não deveria ser eliminada de uma adaptação do personagem. O problema surge quando determinadas situações são construídas de maneira tão evidente que parecem interromper a naturalidade da narrativa para sublinhar uma ideia já perfeitamente compreensível.
A série funciona melhor quando permite que essas experiências apareçam em interações menores, como a necessidade de John controlar a própria reação diante de situações hostis, porque Pierre consegue comunicar muito sem depender de diálogos explicativos. Quando “Lanternas” confia nos personagens, seus comentários sociais surgem organicamente; quando tenta explicá-los demais, perde parte da precisão que demonstra no restante da história.
Essa irregularidade também aparece em alguns flashbacks. Existe material importante na formação de John e na construção daquilo que o levou até aquele momento, mas nem toda incursão ao passado acrescenta algo que o presente já não estivesse comunicando. Em determinados episódios, a série parece sentir necessidade de justificar psicologicamente comportamentos que poderiam continuar parcialmente misteriosos. A consequência é uma interrupção de ritmo em uma narrativa que funciona melhor quando investigação e relação entre os protagonistas avançam simultaneamente.
Ainda assim, essas falhas não comprometem a estrutura geral. “Lanternas” possui uma confiança incomum em diálogos, performances e tensão psicológica para uma produção baseada em personagens cuja iconografia normalmente convida ao espetáculo. Isso não significa que os poderes sejam abandonados. Os construtos criados pelos anéis aparecem, a ficção científica ganha espaço e existem momentos destinados claramente ao prazer visual de ver essa mitologia funcionando em live action. A diferença está no fato de que essas cenas possuem consequência dramática.
O anel nunca parece apenas um efeito especial caro. Ele carrega história. Para Hal, representa uma identidade que talvez esteja próxima do fim. Para John, representa uma identidade que ainda não começou completamente. Quando o objeto passa de uma mão para outra, existe uma tensão muito maior do que simplesmente decidir quem terá acesso ao poder naquele momento.
Essa preocupação também ajuda “Lanternas” a escapar do problema recorrente de tantas produções de super heróis que transformam personagens extraordinários em ferramentas para conectar universos maiores. Existem referências, personagens conhecidos e elementos destinados ao público familiarizado com a DC, mas a série não exige que o espectador reconheça cada nome para compreender o drama central. A mitologia expande a história sem substituí-la.
Visualmente, a produção acompanha essa escolha. James Hawes e Geeta Vasant Patel trabalham uma estética muito mais próxima do suspense policial do que do espetáculo espacial tradicional. Os ambientes rurais, a fotografia mais contida e a composição frequentemente interessada nos personagens ajudam a manter a sensação de que existe algo estranho infiltrado em um mundo aparentemente comum.
É justamente essa normalidade que torna determinados elementos fantásticos mais eficientes. Um construto luminoso criado por um anel parece muito mais extraordinário quando surge no meio de uma estrada, de uma propriedade rural ou de um ambiente cotidiano do que quando está cercado permanentemente por outras imagens igualmente impossíveis. “Lanternas” entende o valor do contraste e evita transformar o extraordinário em rotina visual.
A escolha também permite que a violência tenha peso. Não existe a sensação de que tudo pode ser destruído e reconstruído alguns minutos depois sem consequência. A investigação está ligada a mortes, desaparecimentos e pessoas reais dentro daquele universo, o que torna a ameaça mais palpável. Mesmo quando a história amplia seu alcance para conspirações e tecnologias extraterrestres, continua existindo uma preocupação em retornar às consequências humanas.
Poorna Jagannathan adiciona outra energia à série através de Zoe, principalmente na relação com John. A personagem inicialmente parece ocupar um espaço mais simples dentro da investigação e da vida pessoal dele, mas gradualmente passa a representar uma das principais fontes de desconfiança. A relação entre desejo e suspeita funciona porque o roteiro não separa completamente essas duas dimensões.
Garret Dillahunt também aproveita muito bem a excentricidade de William Macon. Existe algo imprevisível na maneira como o personagem ocupa a narrativa, alternando ameaça, absurdo e vulnerabilidade de uma forma que impede uma leitura imediata de suas intenções. Esse tipo de presença é valioso em uma história de investigação porque mantém a sensação de que quase todos podem estar escondendo alguma coisa sem transformar todos automaticamente em suspeitos idênticos.
O maior mérito da série, porém, permanece sendo sua capacidade de transformar Hal e John no coração de tudo. Existem alienígenas, conspirações, assassinatos, armas capazes de manipular forças impossíveis e uma organização intergaláctica inteira por trás deles, mas é a pergunta sobre qual desses dois homens realmente deveria carregar o anel que mantém a história emocionalmente interessante.
Essa pergunta também é mais complexa do que simplesmente decidir quem é melhor. Hal possui experiência, mas está desgastado. John possui princípios, mas ainda não possui a mesma experiência. Um conhece demais o sistema. O outro ainda acredita que pode ser melhor do que ele. “Lanternas” encontra sua melhor versão quando percebe que sucessão não significa substituição e que legado pode ser tanto um presente quanto uma forma de aprisionamento.
É isso que diferencia a série de uma simples história sobre treinamento. Hal não está apenas ensinando John a utilizar poderes, porque a própria presença de John obriga Hal a confrontar a possibilidade de que seu tempo esteja terminando. John também não está apenas esperando uma promoção. Quanto mais conhece o homem que deveria substituir, mais precisa decidir se deseja realmente herdar tudo aquilo que acompanha o cargo.
Essa relação oferece a Kyle Chandler e Aaron Pierre espaço para construir uma dinâmica que melhora conforme a série avança. As provocações funcionam, os conflitos são convincentes e os raros momentos de confiança possuem importância justamente porque foram conquistados com dificuldade. Quando os dois finalmente parecem agir como parceiros, “Lanternas” já fez o suficiente para que essa parceria signifique alguma coisa.
Existem episódios mais equilibrados do que outros e alguns desvios narrativos demonstram uma série ainda procurando a melhor maneira de administrar todas as ideias que possui. Mesmo assim, a ambição é interessante porque não está concentrada apenas em ampliar o universo da DC. “Lanternas” parece genuinamente interessada em usar esse universo para falar sobre envelhecimento, expectativa, autoridade, racismo, lealdade, culpa e a dificuldade de confiar em alguém quando poder e identidade estão tão profundamente misturados.
No fim, talvez seja justamente isso que torna a produção tão interessante. “Lanternas” poderia ter escolhido o caminho mais fácil e transformado Hal Jordan e John Stewart em duas máquinas de efeitos visuais esperando pela próxima ameaça cósmica. Em vez disso, prefere observar dois homens dentro de um carro, de um motel, de uma delegacia ou de uma estrada tentando descobrir se podem confiar um no outro.
A melhor decisão de “Lanternas” é compreender que o universo pode ser infinito sem que a história precise ser gigantesca o tempo inteiro. Ao reduzir a escala para investigar seus personagens, a série acaba encontrando algo muito maior do que espetáculo. O anel pode criar praticamente qualquer coisa que a imaginação permita, mas o verdadeiro desafio continua sendo decidir quem merece carregá lo e, principalmente, o que sobra de alguém quando essa luz finalmente deixa sua mão.
“Lanternas”
Direção: James Hawes e Geeta Vasant Patel
Elenco: Kyle Chandler, Aaron Pierre, Kelly Macdonald, Garret Dillahunt, Poorna Jagannathan, Laura Linney, Jason Ritter, Chris Coy, Ulrich Thomsen, J. Alphonse Nicholson, Nathan Fillion e Jasmine Cephas Jones
Disponível em: HBO Max
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