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Crítica: Lola Young, “I’m Only Fucking Myself”

Texto: Ygor Monroe
19 de setembro de 2025
em Música, Resenhas/Críticas

Alguns discos funcionam como radiografias emocionais, revelando não só o que um artista sente, mas também como escolhe se expor diante do mundo. “I’m Only Fucking Myself”, novo trabalho de Lola Young, é exatamente isso: uma confissão sem filtro, que mistura vício, desejo, autossabotagem e redenção em um mosaico sonoro que se recusa a suavizar a própria dor. O álbum é cru, direto e feroz, construído como se fosse um diário íntimo transformado em música, mas que em nenhum momento busca ser agradável ou palatável.

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Crítica: Lola Young, "I'm Only Fucking Myself"
Crítica: Lola Young, “I’m Only Fucking Myself”

O impacto começa no conceito. O título, por si só, já indica uma decisão de confronto, uma recusa a se proteger atrás de metáforas brandas. É um projeto que expõe vulnerabilidades com a mesma intensidade que celebra forças, sempre em tom de desafio. Lola se recusa a se encaixar em moldes: prefere incomodar a se acomodar. Essa é talvez a maior conquista do álbum, que utiliza suas quatorze faixas como capítulos de uma mesma narrativa, em que sexo, vícios e relações tóxicas se entrelaçam a momentos de lucidez, leveza e até gratidão.

Sonoramente, “I’m Only Fucking Myself” passeia por texturas variadas, do pop alternativo ao R&B mais melancólico, do pós-punk explosivo à balada acústica introspectiva. A pluralidade não soa como indecisão, mas como espelho da própria artista, que não teme a contradição. A produção, assinada por Manuka e SOLOMONOPHONIC, equilibra com inteligência os extremos: há espaço tanto para arranjos caóticos, repletos de distorções, quanto para silêncios que pesam mais do que qualquer batida. Esse contraste entre força e fragilidade faz do disco um organismo vivo, pulsante, que nunca permite ao ouvinte permanecer em estado neutro.

Mas a força maior está nas letras. Lola escreve como quem não deve satisfações, como quem usa a caneta para confrontar tanto o mundo quanto a si mesma. Em suas palavras, sexo não é tabu, mas ferramenta de poder; drogas não são apenas vícios, mas sintomas de uma busca por fuga; amores tóxicos não são dramas românticos, mas prisões reais. Tudo isso é narrado com brutalidade e ironia, sem se importar com julgamentos. O resultado é um álbum que não pede desculpas por existir.

Comparações inevitavelmente surgem: a densidade lembra letras de jazz em seus momentos mais confessionais, a visceralidade evoca Fiona Apple, enquanto a alternância entre agressividade e delicadeza poderia muito bem ser associada a Frank Ocean. Ainda assim, Lola não soa como eco de ninguém. O que ela faz em “I’m Only Fucking Myself” é reivindicar um espaço próprio, onde referências se dissolvem em autenticidade.

O disco é longo em intensidade, mesmo sem ser excessivo em duração. Há uma coesão que mantém o ouvinte preso ao fio narrativo, ainda que o caminho seja irregular e desconfortável. Em alguns momentos, a repetição de ideias pode cansar, mas isso parece intencional: como se Lola quisesse mostrar que a autossabotagem, quando se instala, também é cíclica e desgastante. Essa escolha pode irritar, mas é coerente com a proposta estética e temática.

“I’m Only Fucking Myself” não é feito para tocar no rádio com facilidade, nem para agradar de imediato. É um trabalho que exige disposição para entrar em um território de sombras, onde vulnerabilidade e coragem caminham juntas. Mais do que um disco, é um manifesto de quem não teme expor as próprias contradições. Se o primeiro trabalho de Lola Young a apresentou ao mundo, este a consolida como uma voz única de sua geração: feroz, desconfortável e impossível de ignorar.

Nota: 80/100 | Lola Young, “I’m Only Fucking Myself”

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