Logo na primeira cena de “Luta de Classes” parece que Spike Lee está prestes a entregar um épico moderno. Denzel Washington surge em um terraço que domina Nova York, interpretando um magnata da música com o apelido simbólico de “os melhores ouvidos do ramo”. O enquadramento promete grandeza, o peso de um cinema que dialoga com a altura do personagem. Mas essa aura se desfaz aos poucos e o que era introduzido como espetáculo vai se fragmentando em um filme irregular, com lampejos de potência e longos trechos em falso tom.
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A estrutura é ambiciosa: drama criminal, crítica social, comentário sobre o mercado musical e tensões familiares. Só que o excesso de camadas drena a consistência. Spike Lee propõe uma releitura de Akira Kurosawa, mas o conflito moral que no original era visceral aqui se torna diluído, quase um acessório. O sequestro, que deveria conduzir a espinha dorsal do suspense, é tratado sem a densidade necessária. O resultado é um filme que fala muito sobre dilemas de poder, mas não consegue traduzir em impacto emocional aquilo que está em jogo.
Washington segura cada cena com presença absoluta, mas o roteiro entrega a ele um personagem construído de forma crua, sem o refinamento psicológico que sua atuação merecia. Jeffrey Wright, mesmo limitado por um papel enfraquecido em relação à matriz, injeta gravidade nas poucas oportunidades que tem. Já ASAP Rocky funciona mais como um elemento de estilo do que como antagonista de fato. A sua presença carrega energia, mas carece de ameaça real.
Visualmente, o contraste é curioso: ao mesmo tempo em que Spike investe em estética brilhante, com brilho de videoclipes de alto orçamento, recorre a sequências de ação quase amadoras. Essa oscilação derruba a coesão, criando a sensação de que o filme foi costurado às pressas, um mosaico em busca de direção. A trilha sonora, que deveria ser o coração pulsante de uma obra ambientada no universo musical, acaba sendo um tropeço sonoro, incapaz de sustentar a atmosfera.
Ainda assim, há um subtexto interessante. “Luta de Classes” pode ser lido como um comentário sobre a fase atual de artistas como Lee e Washington, veteranos que se encontram em um mercado transformado, onde o talento humano é constantemente ameaçado por algoritmos e inteligência artificial. Quando o filme insiste em destacar a habilidade de King para identificar talentos, a metáfora se projeta além da trama, sugerindo uma defesa das virtudes humanas diante da máquina. É um ponto de luz em meio a uma narrativa dispersa.
O maior problema é que Spike Lee não encontra o equilíbrio entre a reverência a Kurosawa e a criação de algo genuinamente novo. O que poderia ser uma obra de confronto, pulsante e marcada pela singularidade autoral, se perde em um terreno intermediário, sem a força para ser inesquecível e sem a ousadia para ser memorável pelas falhas. O resultado é um filme assistível, mas que não deixa marcas, especialmente quando se considera a expectativa de uma quinta parceria entre Denzel e Spike.
No fim, “Luta de Classes” não desmorona completamente, mas tampouco se ergue como um marco. É uma experiência que se deixa ver, com atuações sólidas e boas ideias, porém incapaz de sustentar o peso da comparação com Kurosawa ou com o melhor de Spike Lee. A sensação que resta é de frustração: a promessa de grandeza estava ali, mas se perdeu no caminho.
“Luta de Classes“
Direção: Spike Lee
Roteiro: Spike Lee, Alan Fox
Elenco: Denzel Washington, Jeffrey Wright, Ilfenesh Hadera, ASAP Rocky
Disponível em: Apple TV+
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