O álbum “Locket” marca um ponto de inflexão decisivo na trajetória de Madison Beer. Seu terceiro álbum de estúdio surge como resposta direta a tudo o que “Silence Between Songs” deixou em suspensão. Se o disco anterior se apoiava na introspecção e no silêncio como linguagem estética, aqui o movimento é inverso. Madison escolhe o corpo, a pista, o pulso eletrônico e a exposição emocional como matéria-prima. Trata-se de um álbum que abandona a contemplação e passa a operar em estado de presença.

Desde o primeiro contato, “Locket” se apresenta como um projeto consciente de identidade. A produção mergulha em bases de dance pop, electro pop e house melódico, com texturas digitais que dialogam diretamente com a cultura de clubes. Existe intenção clara em reposicionar Madison como artista pop de domínio técnico e autonomia estética. A voz, seu principal instrumento, ocupa o centro de tudo. Não como ornamento, mas como eixo estrutural.
O álbum carrega uma coesão sonora evidente, ainda que nem sempre equilibrada. A escolha por privilegiar elementos de cantora e compositora em um disco que flerta com a música eletrônica cria um atrito constante. Em alguns momentos, esse contraste funciona como assinatura. Em outros, soa como oportunidade parcialmente explorada. O impacto de “Make You Mine” deixa essa questão explícita. A faixa estabelece um padrão de energia, pulsação e estética que o álbum nem sempre sustenta até o fim.
Tecnicamente, “Locket” impressiona pela qualidade de produção. As camadas digitais são precisas, os graves bem controlados, os drops calculados para impacto e não para excesso. O álbum entende o funcionamento do pop eletrônico atual sem soar derivativo. Ainda assim, a repetição de certos recursos, especialmente em refrões baseados em mantras vocais, provoca desgaste ao longo da audição. O excesso de segurança acaba limitando o risco artístico.
Quando Madison desacelera, o disco respira melhor. Nas faixas de construção mais atmosférica, a cantora revela seu maior trunfo. A forma como trabalha dinâmica vocal, emoção contida e interpretação cria momentos de real envolvimento. Existe maturidade no controle de sua voz, na escolha de quando segurar e quando expandir. Essas faixas dialogam diretamente com sua fase anterior, mas agora integradas a uma estética mais contida.
O grande mérito de “Locket” está em sua ambição. Madison não se contenta em repetir fórmulas que já funcionaram. O álbum testa limites, flerta com a cultura clubber e se permite errar em nome de uma identidade mais definida. Mesmo quando falha, falha tentando avançar. Isso o torna mais interessante do que seguro.
Há também um entendimento claro de narrativa. O disco se constrói como percurso emocional. Da euforia inicial à introspecção final, “Locket” se organiza como um ciclo de desejo, vulnerabilidade e reconstrução. O encerramento do álbum funciona como síntese dessa proposta, recompensando o ouvinte com uma sensação de fechamento emocional e estético.
Ainda assim, fica a impressão de que o álbum poderia ter sido mais incisivo em sua vertente eletrônica. O flerte com o house e o dance pop aponta para um caminho que, se explorado com mais ousadia, teria elevado o impacto do projeto. Madison prova que pertence a esse território, mas ainda caminha com cautela demais dentro dele.
“Locket” é um álbum de afirmação. Não definitivo, mas necessário. Um trabalho que consolida Madison Beer como uma artista tecnicamente preparada, consciente de sua imagem e disposta a expandir seu repertório estético. Não é um disco confortável, nem pretende ser. É um projeto que existe no meio do caminho entre controle e risco, entre pista e introspecção, entre estratégia e verdade emocional.
O conjunto funciona como aquilo que o título sugere. Um objeto íntimo, guardado junto ao corpo, que carrega valor emocional mais do que impacto imediato. Um álbum que talvez não grite, mas permanece. E isso, dentro do pop, já é uma conquista significativa.
Nota final: 79/100
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