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Crítica: Madonna, “Confessions 2 – The Film”

Texto: Ygor Monroe
8 de junho de 2026
em Curta-Metragem, Resenhas/Críticas

A sensação que domina “Confessions 2 – The Film” não nasce da nostalgia. Surge de um estranhamento quase hipnótico ao perceber Madonna atravessando o próprio mito como alguém que ainda consegue remodelar a cultura pop diante dos olhos do público. Enquanto artistas parecem presos à lógica descartável dos vídeos de quinze segundos e refrões programados para viralizar durante uma semana, Madonna aparece com um curta de treze minutos que funciona como instalação artística, manifesto queer, filme experimental e delírio de pista de dança ao mesmo tempo. Tudo em “Confessions 2 – The Film” parece existir para desafiar a velocidade superficial do entretenimento moderno.

Crítica: Madonna, "Confessions 2 - The Film"
Crítica: Madonna, “Confessions 2 – The Film”

A estética construída pelo coletivo TORSO transforma o curta em uma espécie de pesadelo glamouroso iluminado por neon, suor, fumaça e flashes digitais. Cada quadro carrega a sensação de um sonho febril capturado às três da manhã dentro de uma boate que talvez nem exista mais. Madonna entende algo que poucos artistas compreenderam nas últimas décadas: a música pop deixa de ser relevante quando abandona a construção de universo. “Confessions 2 – The Film” não entrega apenas músicas inéditas. Entrega geografia emocional, arquitetura visual e uma mitologia inteira orbitando o álbum.

E talvez seja justamente por isso que o filme provoque tanto choque. Porque Madonna se recusa a envelhecer da forma confortável que a indústria gostaria. Existe um desejo coletivo de transformar artistas mulheres em peças decorativas do próprio legado depois de determinada idade. Madonna sempre tratou essa expectativa com desprezo absoluto. Enquanto boa parte da cultura pop atual funciona como reciclagem estética sem personalidade, ela aparece aos 67 anos comandando um curta onde mulheres disparam lasers vaginais, Kate Moss dança num banheiro tomado por caos homoerótico, Benedict Cumberbatch executa movimentos desconcertantemente sensuais no meio de um clube inspirado na Danceteria e Sabrina Carpenter funciona como uma espécie de guia geracional atravessando a memória viva da noite nova-iorquina. É cinema construído através da provocação, mas também através da inteligência cultural.

O aspecto mais impressionante do curta talvez esteja justamente na forma como Madonna reorganiza sua própria iconografia. As referências ao passado nunca aparecem como fan service barato. São reposicionadas dentro de um contexto novo, quase como se a artista estivesse desmontando décadas da própria carreira para reconstruí-las sob outra lógica estética. Julia Garner encarnando uma Madonna jovem cria um jogo metalinguístico fascinante. O filme olha para o passado enquanto permanece violentamente interessado no futuro. Poucos artistas conseguem fazer isso sem parecer caricatura de si mesmos.

A sequência de “Danceteria” talvez seja o ápice dessa experiência. O curta inteiro parece pulsar ao redor daquela energia decadente, sexual e delirante. A boate deixa de ser apenas cenário e vira entidade espiritual. Madonna transforma a pista de dança em lugar sagrado, espaço de sobrevivência, catarse e comunhão queer. Toda a atmosfera lembra o glamour destruído de “Party Monster”, a sensualidade mecânica de “Crash” de David Cronenberg, o excesso visual de “Enter the Void” e até fragmentos da melancolia urbana presente em “After Hours” de Scorsese. Só que tudo filtrado pelo olhar de alguém que ajudou a inventar a própria linguagem da cultura clubber mainstream.

A obsessão estética do filme impressiona porque nada parece gratuito. Até os chamados “pussy lasers”, conceito que poderia facilmente virar meme vazio nas mãos erradas, aparecem como extensão do discurso visual sobre poder feminino, espetáculo, voyeurismo e corpo performático. Madonna entende perfeitamente o absurdo da própria imagem pública e usa isso como combustível artístico. O filme inteiro vive dessa tensão entre ironia e sinceridade. Entre o grotesco e o sublime. Entre devoção e paródia.

Musicalmente, o curta funciona quase como um organismo contínuo. As transições entre “I Feel So Free”, “Good for the Soul”, “One Step Away”, “Bring Your Love”, “Danceteria” e “Read My Lips” acontecem sem preocupação tradicional de estrutura pop. Madonna parece mais interessada em criar fluxo emocional do que hits isolados. Existe coragem em abandonar a lógica imediatista do streaming para apostar numa experiência audiovisual que exige atenção completa do espectador.

“Bring Your Love”, parceria com Sabrina Carpenter, talvez seja a faixa que melhor sintetiza o conflito geracional presente no curta. Sabrina funciona como símbolo de uma nova geração da indústria pop, enquanto Madonna surge como entidade que atravessou todas as transformações possíveis da cultura midiática sem desaparecer. O encontro das duas não parece tentativa desesperada de atualização. Funciona mais como passagem de bastão distorcida, quase ritualística.

A fotografia alterna entre o preto absoluto e explosões cromáticas violentas, criando uma sensação constante de paranoia noturna. Tudo parece úmido, pulsante, excessivamente vivo. O uso da iluminação reforça a ideia de exposição permanente. Madonna está sempre sendo observada, perseguida, filmada. Mulheres armadas com câmeras acompanham sua trajetória como se fossem sacerdotisas digitais de uma religião pop. O filme transforma fama em estado psicológico claustrofóbico.

Também impressiona a maneira como “Confessions 2 – The Film” reafirma a relação histórica de Madonna com a comunidade queer sem transformar isso em estratégia vazia de marketing. O curta entende a pista de dança como espaço político, afetivo e espiritual. A Danceteria reaparece como símbolo dessa origem artística construída na marginalidade criativa de Nova York. Enquanto parte da indústria transforma estética queer em embalagem comercial higienizada, Madonna continua interessada na sujeira, no exagero e no desconforto.

Kate Moss atravessa o filme como fantasma fashion de uma era onde decadência ainda possuía glamour genuíno. Debi Mazar carrega a energia caótica dos primeiros anos da carreira de Madonna. Honey Dijon surge como elo entre passado e presente da cultura clubber. Lourdes Leon aparece quase como continuidade genética daquele universo artístico. Até as participações rápidas parecem cuidadosamente pensadas para compor essa colagem sobre memória cultural e sobrevivência pop.

E talvez seja impossível assistir ao curta sem pensar naquela famosa frase dita pela própria Madonna anos atrás sobre continuar viva enquanto tantos ícones desapareceram. Michael Jackson, Prince, David Bowie, Whitney Houston e Amy Winehouse. “Confessions II – The Film” carrega silenciosamente esse peso. Madonna dança como alguém consciente de que permanecer relevante durante mais de quatro décadas talvez seja sua provocação mais radical.

O curta também funciona como comentário sobre o estado atual da própria música pop. Enquanto grande parte do mainstream aposta em minimalismo visual e músicas descartáveis de dois minutos, Madonna entrega um projeto maximalista, teatral e profundamente autoral. Ela continua tratando o pop como arte total. Som, figurino, cinema, performance, coreografia, sexualidade, moda e política coexistem dentro do mesmo organismo criativo.

Poucos artistas sobreviveriam ao nível de escrutínio que Madonna enfrenta diariamente. Qualquer gesto seu vira piada instantânea na internet. Qualquer tentativa estética é recebida como “desespero”. Só que “Confessions 2 – The Film” desmonta esse discurso porque o curta possui visão artística demais para ser reduzido a meme. Pode provocar estranhamento. Pode soar excessivo. Pode parecer delirante. Mas mediocridade definitivamente não é uma acusação possível aqui.

A sensação final deixada pelo filme lembra caminhar para fora de uma boate ao amanhecer depois de uma noite emocionalmente devastadora. Tudo parece um pouco irreal. O corpo ainda pulsa no ritmo da música. A maquiagem borrada. O neon refletindo no asfalto molhado. Madonna entende perfeitamente essa sensação. Sempre entendeu. E talvez seja exatamente isso que continua separando sua obra do restante da indústria pop: enquanto muitos artistas fazem produtos, ela ainda cria experiências capazes de assombrar o espectador dias depois dos créditos finais.

“Confessions 2 – The Film”
Direção
: Torso
Elenco: Madonna, Sabrina Carpenter, Julia Garner, Kate Moss, Benedict Cumberbatch, Debi Mazar, Honey Dijon, Lourdes Leon, Richard E. Grant, Odessa A’zion, Cole Palmer, Archie Madekwe, Arca e Shygirl
Disponível em: YouTube

⭐⭐⭐⭐⭐

Avaliação: 5 de 5.

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Temas: ArcaArchie MadekweBenedict CumberbatchCole PalmerCríticaDebi MazarHoney DijonJulia GarnerKate MossLourdes LeonMadonnaOdessa A’zionResenhaReviewRichard E. GrantSabrina Carpenter

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