O barulho das correntes ainda reverbera na memória coletiva do Brasil, mesmo quando a história oficial tenta empurrar essas vozes para os cantos menos iluminados. O que “Malês” propõe é justamente puxar esse passado para o centro da tela, não como uma ilustração distante, mas como uma ferida aberta que dialoga diretamente com o presente.

Ambientado na Salvador de 1835, o filme recria a Revolta dos Malês, o maior levante organizado por pessoas negras escravizadas e libertas no país, com uma atenção rara à identidade cultural e espiritual daqueles que ousaram desafiar a ordem. Os personagens falam, rezam e sonham a partir de suas próprias referências, algo que rompe com a tradição das narrativas históricas que costumam higienizar esse tipo de experiência. Aqui, a fé islâmica, a língua e os rituais deixam de ser detalhe e passam a ser eixo dramático.
A força do longa se manifesta desde os primeiros minutos na maneira como seus personagens ocupam a cena. Existe um frescor no modo como homens e mulheres negros são apresentados como sujeitos complexos, com desejos, conflitos e contradições. Mesmo quando o roteiro parece se espalhar em muitos núcleos, criando uma estrutura quase novelesca, a intenção de construir um mosaico social fala mais alto. “Malês” prefere o excesso de vozes ao silêncio imposto pela história oficial.
Nem tudo, porém, alcança o mesmo nível de potência. A montagem irregular e o tom por vezes didático criam a sensação de que se está assistindo a uma adaptação televisiva expandida, algo que enfraquece a imersão cinematográfica. A própria sequência da revolta, que deveria ser o ápice emocional do filme, carece de impacto, como se a encenação não conseguisse traduzir o peso simbólico daquele momento. A luta que deveria incendiar a tela acaba soando mais fria do que merecia.
Ainda assim, é impossível ignorar o valor político e cultural do projeto. Ao apresentar personagens com sotaque, espiritualidade e códigos próprios, o filme reivindica um espaço que o audiovisual brasileiro historicamente negou. A narrativa convida o espectador a refletir sobre racismo, desigualdade social e intolerância religiosa como estruturas que atravessam séculos e ainda moldam o presente. O passado que “Malês” mostra nunca fica preso em 1835, ele insiste em dialogar com o agora.
O filme talvez não se imponha como uma obra-prima formal, mas se sustenta como um gesto de resgate e afirmação. Conhecer a Revolta dos Malês através dessa lente já é, por si só, um ato de revisão histórica que o cinema nacional ainda precisa fazer muitas vezes.
“Malês”
Direção: Antonio Pitanga
Elenco: Camila Pitanga, Rocco Pitanga, Rodrigo dos Santos
Disponível em: Amazon Prime Video
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