Dinheiro antigo tem cheiro de mofo e pólvora. Quando herança vira obsessão, afeto vira estatística e família se transforma em obstáculo contábil. É nesse terreno ácido que “Manual Prático Da Vingança Lucrativa” constrói sua engrenagem de humor sombrio e ambição desmedida, apostando alto em uma fábula contemporânea sobre poder, ressentimento e a sedução do status.
No centro da trama está Becket Redfellow, herdeiro indireto de um império bilionário que cresceu à margem do luxo que sempre considerou seu por direito. Filho da descendente deserdada, ele observa primos e tios desfrutando de uma fortuna estimada em 28 bilhões de dólares enquanto acumula frustração. A pergunta que guia o filme é simples e venenosa. Até onde alguém iria para transformar inveja em patrimônio? A resposta aqui não pede meias medidas. Pede planejamento, frieza e uma contabilidade de corpos.
Sob a direção de John Patton Ford, o longa assume sem pudor o prazer do exagero. Há um cuidado estético evidente. A fotografia investe em cores vibrantes, granulação elegante e enquadramentos que lembram comerciais de luxo atravessados por ironia. O resultado é um contraste saboroso entre a beleza da imagem e a podridão moral dos personagens. É um filme que entende que estilo também é discurso.
O roteiro, assinado pelo próprio diretor, equilibra humor ácido e tensão com uma precisão que raramente escorrega para o gratuito. Cada corte para um funeral funciona como piada visual e comentário social. A montagem brinca com o absurdo da situação e transforma a morte em espetáculo quase burocrático. O riso surge desconfortável, e esse desconforto é parte essencial da experiência.
Na pele de Becket, Glen Powell reforça seu status de protagonista carismático mesmo quando encarna um personagem moralmente questionável. Ele dosa charme e frieza com naturalidade, conduzindo o público por uma espiral de decisões cada vez mais extremas. Powell sustenta o filme com uma presença magnética, fazendo com que o espectador oscile entre repulsa e cumplicidade.
Quem realmente rouba a cena, no entanto, é Margaret Qualley. Sua personagem carrega um cinismo elegante, quase felino, que transforma cada aparição em um pequeno terremoto narrativo. Há algo de calculado em seus silêncios e algo de explosivo em seus olhares. É o tipo de atuação que eleva o material e imprime identidade própria à história. Qualley domina a tela com uma frieza sedutora que faz do caos um jogo de estratégia.
O elenco de apoio também contribui para o tom afiado da produção, com participações que reforçam o caráter satírico da trama. O filme dialoga com obras que exploraram a ganância como espetáculo, evocando ecos de The Wolf of Wall Street e American Psycho, mas encontra sua própria voz ao assumir a vingança como método empresarial. Aqui, matar é parte do plano de negócios.
Se existe um ponto que poderia ser mais desenvolvido é a exploração de alguns assassinatos que passam rápido demais, quase como notas de rodapé em um relatório financeiro. Um pouco mais de tempo poderia aprofundar as consequências emocionais e ampliar o impacto dramático. Ainda assim, o ritmo ágil mantém o público preso à narrativa, sempre curioso sobre qual será o próximo movimento nesse tabuleiro de luxo e sangue.
“Manual Prático Da Vingança Lucrativa” transforma ambição em espetáculo e ironiza a obsessão contemporânea por fortuna e reconhecimento. Ao final, deixa uma reflexão incômoda. Em um mundo onde tudo pode ser precificado, inclusive relações familiares, o que realmente vale mais, o dinheiro ou a consciência?
“Manual Prático Da Vingança Lucrativa”
Direção: John Patton Ford
Elenco: Glen Powell, Margaret Qualley, Jessica Henwick
Disponível em: nos cinemas brasileiros
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