Em algum ponto da cultura pop recente, histórias sobre multiverso deixaram de ser apenas um exercício de ficção científica e passaram a funcionar como metáforas emocionais. Filmes como “Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo” mostraram que viajar entre realidades paralelas pode dizer muito mais sobre perda, escolhas e arrependimentos do que sobre ciência propriamente dita. O multiverso virou uma linguagem narrativa para discutir aquilo que ninguém consegue consertar no mundo real.

É exatamente nessa ferida que se instala “Matar. Vingar. Repetir”. A trama acompanha Irene Kelly, uma mãe devastada pela morte da filha que decide transformar a dor em missão. Em vez de seguir tentando reconstruir a própria vida, ela encontra uma alternativa muito mais radical. Usar uma máquina capaz de atravessar universos paralelos para perseguir, assassinar e voltar a assassinar o homem responsável pela morte de Anna.
O mecanismo da história é brutalmente simples. Irene salta de realidade em realidade com um único objetivo. Encontrar Neville, o assassino de sua filha, e executá-lo novamente. Cada universo visitado é uma repetição do mesmo ritual de vingança, como se o luto tivesse se transformado em um ciclo mecânico impossível de interromper.
O roteiro não se preocupa em transformar o multiverso em uma aula científica. A proposta é muito mais pragmática. Em vez de longas explicações teóricas, a narrativa mergulha nos detalhes práticos dessa obsessão. A máquina precisa de energia. O combustível acaba. O equipamento falha. Cada salto exige preparação. Cada execução cobra um preço psicológico.
Essa escolha cria uma abordagem curiosamente íntima para uma ideia gigantesca. A ficção científica funciona aqui como cenário para um estudo de personagem marcado pela culpa e pelo desespero. Irene não atravessa dimensões em busca de aventura ou descoberta. Ela atravessa dimensões porque não consegue aceitar que o mundo onde sua filha morreu continue existindo.
Michaela McManus sustenta essa espiral emocional com uma atuação intensa. Sua Irene não se parece com a heroína clássica do cinema de ação. O que aparece em cena é uma mulher consumida por um propósito que lentamente começa a apagar qualquer traço de humanidade restante. A vingança, que inicialmente surge como resposta à dor, passa a funcionar como combustível para uma existência vazia.
O filme estabelece essa brutalidade logo nos primeiros momentos. Um homem amarrado a uma cadeira queima vivo enquanto Irene observa sem hesitação. A sequência não existe apenas para chocar. Ela define imediatamente o estado emocional da protagonista, alguém que já atravessou o limite moral que separa justiça de obsessão.
Dentro desse ciclo aparentemente infinito, surge Mia, uma adolescente que se torna a próxima vítima em potencial de Neville. O encontro entre as duas personagens altera completamente o eixo da narrativa. De repente, a história deixa de ser apenas uma jornada de vingança e passa a discutir o impacto dessa escolha sobre outras vidas.
Mia funciona como um espelho distorcido do passado de Irene. Jovem, impulsiva e igualmente tomada pela raiva, a garota enxerga na vingança uma solução imediata. A relação entre as duas transforma o filme em um debate silencioso sobre o que acontece quando o trauma passa a definir todas as decisões de uma pessoa.
O interessante é que “Matar. Vingar. Repetir” nunca tenta transformar Neville em um vilão excessivamente presente. Ele aparece e desaparece ao longo da narrativa, quase como uma sombra constante que atravessa diferentes universos. O verdadeiro antagonista da história não é apenas o assassino. É o ciclo de violência que Irene alimenta a cada novo salto dimensional.
Mesmo trabalhando com um orçamento claramente limitado, a direção de Matthew McManus e Kevin McManus encontra soluções criativas para construir seu universo. Os saltos entre realidades são discretos, quase minimalistas, reforçando a ideia de que essa tecnologia não representa um espetáculo futurista, mas uma ferramenta perigosa nas mãos de alguém desesperado.
Esse estilo lo fi de ficção científica acaba funcionando como identidade estética do projeto. A ausência de grandes efeitos visuais coloca o foco no que realmente importa: as consequências emocionais de brincar com o destino.
Outro elemento simbólico curioso aparece na própria máquina que permite os saltos dimensionais. Seu formato lembra um caixão metálico, como se cada viagem fosse uma espécie de enterro simbólico. Irene entra naquele espaço para revisitar a morte da filha repetidas vezes, sempre acreditando que o próximo universo talvez ofereça uma chance diferente.
A tragédia da personagem nasce justamente dessa esperança. Em algum lugar do multiverso, Anna poderia estar viva. Mas quanto mais Irene percorre essas realidades, mais evidente se torna que certas perdas talvez sejam inevitáveis.
“Matar. Vingar. Repetir” mistura suspense, drama e ficção científica sem nunca se encaixar completamente em um único gênero. A violência existe, o horror psicológico também, mas o centro da história permanece emocional. No fundo, trata-se de um filme sobre a impossibilidade de fugir do luto, mesmo quando se tem acesso a infinitos mundos diferentes.
Quando a narrativa finalmente desacelera, a pergunta que permanece é desconfortável. Se existissem infinitas versões da realidade, quantas vezes alguém estaria disposto a repetir o mesmo erro na esperança de consertar algo que já aconteceu.
“Matar. Vingar. Repetir”
Direção: Matthew McManus, Kevin McManus
Elenco: Michaela McManus, Jim Cummings, Jeremy Holm
Disponível em: HBO Max
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