Existem narrativas que prometem confronto geracional e anunciam um embate entre passado e presente como motor dramático. Quando essa promessa não se concretiza, o que resta é a sensação de potencial desperdiçado. A ideia é potente, mas a execução não sustenta o conflito que anuncia.
“Meu Avô Stanislau” parte de uma premissa instigante. Stanislau, líder de uma comunidade ucraniana no interior, representa a tradição, a memória e o peso da herança cultural. Bóris, seu neto gamer, chega ao campo carregando o universo digital, a linguagem acelerada e a lógica das telas. O encontro entre os dois poderia render um estudo sensível sobre identidade e pertencimento. O filme, no entanto, apresenta o conflito sem desenvolvê-lo com profundidade.
Há um vazio estrutural perceptível ao longo da narrativa. As cenas se sucedem sem progressão dramática consistente, como se fossem fragmentos que não encontram eixo central. Falta tensão crescente, faltam consequências claras para as ações dos personagens. A história avança, mas não evolui. O resultado é uma obra que parece hesitar sobre o caminho que deseja seguir.
Os diálogos representam um dos pontos mais frágeis. Em um momento em que o audiovisual brasileiro tem amadurecido ao tratar do choque entre tradição e contemporaneidade, aqui a linguagem soa artificial. Termos como call, squad, mid e gankar aparecem de maneira caricata, distantes de qualquer naturalidade. Não se trata de representar o universo jovem, mas de reproduzir uma versão estereotipada dele. Essa escolha compromete a credibilidade do conflito geracional que o filme pretende construir.
Ainda assim, há elementos que merecem reconhecimento. A figura do avô como guardião de histórias carrega um simbolismo universal. O cinema frequentemente utiliza essa relação para discutir memória e passagem de tempo, e a obra toca nesse imaginário afetivo, mesmo que de forma superficial. Existe sinceridade na tentativa de abordar laços familiares e deslocamentos culturais, ainda que o roteiro não consiga aprofundá-los.
Considerando tratar-se de um dos primeiros trabalhos do diretor, percebe-se um movimento de experimentação. A duração irregular, o tom indefinido e o orçamento enxuto sugerem uma busca por linguagem própria. Há tentativa de inovação, mas falta maturidade narrativa para organizar as intenções.
Se há um mérito consistente, ele está na fotografia e no uso do espaço. As paisagens rurais funcionam como contraponto visual ao universo digital do neto. A natureza imprime leveza à atmosfera, criando um contraste interessante entre campo e tecnologia. A imagem, em muitos momentos, comunica mais do que o texto.
O longa flerta com o tom de crônica afetiva, mas não assume plenamente essa identidade. Tampouco se consolida como crítica geracional. A cultura ucraniana aparece mais como cenário do que como elemento dramatúrgico aprofundado. O universo gamer surge como referência superficial. E o afeto entre avô e neto carece de construção que justifique seu peso emocional.
No conjunto, “Meu Avô Stanislau” revela potencial e boas intenções, mas transmite a impressão de obra em processo. Não é um fracasso absoluto, mas um filme que parece inacabado. Há atores comprometidos, imagens bem construídas e uma temática relevante. O que falta é coesão, densidade e decisão clara sobre qual história realmente deseja contar.
“Meu Avô Stanislau”
Direção: Guto Pasko
Elenco: Fhelipe Gomes, Ranieri Gonzalez, Angélica Bueno, Laura Haddad, Mauro Zanatta, Rosana Stavis
Disponível em: Globoplay
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