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Crítica: Miley Cyrus, “Bass Persuades”

Texto: Ygor Monroe
17 de setembro de 2026
em Música, Resenhas/Críticas

Poucas coisas são tão perigosas para uma artista quanto lançar um excelente disco e decidir voltar rápido demais. O problema não é exatamente o intervalo curto, porque criatividade não obedece calendário e Miley Cyrus já deixou suficientemente claro que detesta prolongar artificialmente ciclos que, para ela, terminaram. O perigo está na comparação inevitável. Depois de “Something Beautiful”, Miley havia acabado de construir uma das obras mais ambiciosas, esteticamente conscientes e interessantes de sua carreira, então qualquer movimento seguinte precisaria lidar com uma expectativa que ela própria criou. “Bass Persuades”, seu décimo álbum de estúdio e primeiro lançado simplesmente como Miley, chega nesse cenário complicado e produz uma sensação igualmente complicada: não estamos diante de um disco ruim, mas talvez isso seja pouco demais para uma artista que acabou de mostrar o tamanho daquilo que consegue fazer quando decide realmente ultrapassar seus próprios limites.

Crítica: Miley Cyrus, “Bass Persuades”
Crítica: Miley Cyrus, “Bass Persuades”

A mudança de Miley Cyrus para Miley poderia sugerir uma ruptura maior do que aquela encontrada no álbum. Existe algo simbolicamente poderoso em uma artista tão pública, tão discutida e tantas vezes reinventada decidir retirar o sobrenome de sua identidade artística depois de décadas de carreira. Ser apenas Miley, neste estágio, poderia significar uma espécie de síntese definitiva de todas as versões anteriores, como se não fosse mais necessário apresentar uma nova personagem a cada ciclo porque todas elas já pertencem à mesma pessoa. “Bass Persuades”, entretanto, não possui a mesma força dessa decisão. O nome ficou menor justamente no momento em que o disco parece menos interessado em ser grande, e essa contradição acompanha boa parte da experiência.

Isso não significa ausência de identidade sonora. Muito pelo contrário, porque a produção é facilmente uma das maiores virtudes do projeto. “Bass Persuades” é extremamente bem acabado, possui graves utilizados como elemento estrutural, guitarras que aparecem com textura suficiente para impedir que o disco fique excessivamente polido e uma combinação interessante entre impulsos experimentais e soluções bastante acessíveis. Miley continua cercada por pessoas que entendem a dimensão física de sua voz e sabem que produzi-la não significa simplesmente colocá-la na frente de instrumentais gigantescos. Há espaço, sujeira calculada, distorção e momentos nos quais o álbum parece prestes a entrar em territórios bem mais agressivos.

É justamente aí que começa a frustração. “Bass Persuades” apresenta possibilidades sonoras muito mais interessantes do que aquelas que efetivamente decide explorar até o fim. Sempre que o álbum encontra uma textura mais áspera, um baixo mais invasivo, uma guitarra mais incômoda ou uma estrutura menos previsível, surge a sensação de que Miley finalmente encontrou o caminho capaz de justificar imediatamente este novo ciclo. Só que essa energia frequentemente é interrompida pela necessidade de retornar às baladas românticas e a uma escrita muito mais convencional, criando uma disputa interna entre o disco que “Bass Persuades” poderia ser e aquele que efetivamente escolhe entregar.

O amor é o centro assumido do projeto, e não há absolutamente nada de errado nisso. Miley constrói o álbum a partir de uma fase emocional diferente, atravessada por estabilidade, relacionamento e uma ideia de afeto menos autodestrutiva do que aquela encontrada em outros momentos de sua obra. O problema nunca está em cantar sobre felicidade, porque essa crítica seria preguiçosa demais. Artistas não precisam estar emocionalmente destruídos para produzir trabalhos interessantes, e exigir sofrimento como combustível criativo é uma das maneiras mais limitadas de analisar música. O verdadeiro problema de “Bass Persuades” é que Miley parece ter encontrado uma experiência pessoal importante sem encontrar, com a mesma frequência, uma linguagem igualmente interessante para transformá-la em arte.

Essa diferença é fundamental. Intimidade não produz profundidade automaticamente, da mesma maneira que sinceridade não transforma qualquer composição em grande composição. Há momentos em que Miley parece tão empenhada em preservar a simplicidade emocional dessa história de amor que sua escrita perde justamente a capacidade de encontrar detalhes inesperados dentro dela. O álbum fala muito sobre amar, permanecer, desejar, compartilhar e construir, mas nem sempre consegue transformar essas experiências em imagens suficientemente particulares para que deixem de pertencer apenas à cantora e passem a pertencer também ao ouvinte.

Miley já demonstrou inúmeras vezes que consegue transformar situações pessoais em alguma coisa muito maior do que confissão. Sua melhor escrita costuma aparecer quando existe atrito, não necessariamente sofrimento, mas algum tipo de resistência entre aquilo que sente e aquilo que consegue dizer. Em “Bass Persuades”, essa resistência frequentemente desaparece. O sentimento chega pronto, a produção o envolve lindamente e Miley o interpreta com toda a autoridade vocal que possui, mas falta aquela segunda camada capaz de tornar uma declaração aparentemente simples em alguma coisa impossível de esquecer.

Isso se torna especialmente perceptível porque a voz de Miley continua sendo muito mais interessante do que parte do material que recebe neste álbum. Poucas cantoras do pop atual possuem um instrumento tão imediatamente identificável. A rouquidão, o desgaste proposital, a capacidade de transformar determinadas vogais em quase um ruído e a maneira como sua interpretação consegue atravessar rock, country, pop e eletrônica sem perder personalidade continuam sendo armas enormes. O problema aparece quando “Bass Persuades” parece acreditar que a presença dessa voz será suficiente para transformar qualquer ideia em acontecimento.

Em determinados momentos, Miley exagera justamente porque pode. Sua performance vocal abandona a contenção e passa a explorar respiração, gemidos, prolongamentos e pequenas distorções como parte da própria textura da produção. Conceitualmente, isso poderia funcionar muito bem dentro de um álbum interessado no desejo como experiência física. Na prática, há passagens em que essa escolha deixa de acrescentar tensão e começa a parecer insistência. Quando a interpretação chama mais atenção para o gesto de cantar do que para aquilo que está sendo comunicado, a sensualidade perde espontaneidade e começa a soar excessivamente performada.

É uma pena porque a primeira metade de “Bass Persuades” sugere um álbum consideravelmente mais ousado. Existe ali uma combinação muito promissora entre pop, rock, eletrônica e alguma coisa quase industrial em determinadas texturas, além de uma disposição para permitir que o grave seja mais do que simplesmente parte da mixagem. O baixo funciona como presença física e, quando essa lógica domina o álbum, o título deixa de parecer apenas uma boa frase e passa a descrever efetivamente a proposta sonora. O som convence pelo corpo antes de precisar convencer pela narrativa.

Conforme o projeto avança, entretanto, essa personalidade começa a perder definição. A segunda metade desacelera não apenas em andamento, o que jamais seria um problema por si só, mas também em inventividade. A quantidade de baladas e composições românticas mais tradicionais faz o álbum entrar em uma zona de conforto que contrasta diretamente com a agressividade prometida por sua estética inicial. Não existe uma queda técnica brusca, porque a produção permanece sofisticada e Miley continua cantando com enorme domínio, mas competência deixa de ser suficiente quando o próprio começo do disco já demonstrou que havia uma obra muito mais imprevisível escondida dentro dele.

Essa é provavelmente a maior diferença entre “Bass Persuades” e “Something Beautiful”. O álbum anterior possuía uma convicção estética que transformava suas escolhas em partes de um mesmo organismo. Mesmo quando mudava de linguagem, havia a sensação de que tudo pertencia à mesma obsessão criativa. “Bass Persuades” possui boas ideias, algumas ótimas, mas nem sempre consegue fazer com que elas pareçam inevitavelmente pertencentes ao mesmo projeto. Há experimentação, baladas, guitarras, eletrônica, sensualidade, romantismo e colaborações com nomes vindos de territórios menos óbvios, mas o álbum não encontra uma tese forte o suficiente para fazer todas essas decisões conversarem na mesma intensidade.

A presença de artistas independentes dentro desse universo merece atenção justamente porque Miley não os utiliza como acessórios de credibilidade alternativa. Existe uma integração real entre diferentes sensibilidades, sem aquela situação constrangedora em que uma estrela pop convida alguém de uma cena mais experimental apenas para demonstrar que conhece música fora das paradas. Miley respeita as características desses colaboradores e permite que determinadas interferências modifiquem a textura de seu próprio trabalho. Isso confirma uma curiosidade musical que sempre foi uma das partes mais interessantes de sua carreira, mesmo quando o resultado geral não consegue aproveitar completamente aquilo que essas aproximações poderiam provocar.

Também seria injusto exigir que “Bass Persuades” repetisse “Something Beautiful”. Repetição provavelmente seria ainda mais decepcionante. Miley construiu uma carreira inteira a partir da recusa em permanecer dentro da mesma estética por tempo demais, e parte de seu interesse como artista está justamente na velocidade com que abandona universos que outras cantoras explorariam durante anos. O problema não é “Bass Persuades” ser diferente de “Something Beautiful”, mas ser menos resolvido dentro daquilo que escolheu ser. A comparação com o trabalho anterior importa porque demonstra a distância entre duas formas muito diferentes de administrar ambição, não porque Miley tivesse obrigação de produzir uma continuação.

Também existe uma diferença importante quando “Bass Persuades” é colocado ao lado de “Plastic Hearts”. Aquele disco possuía uma identidade imediatamente reconhecível, ainda que trabalhasse com referências bastante evidentes, enquanto “Bass Persuades” parece passar parte de sua duração procurando exatamente qual de suas personalidades deseja colocar em primeiro plano. Não falta personalidade a Miley, algo que seria quase impossível dizer sobre uma artista cuja voz, imagem e comportamento público sempre foram tão marcantes. Falta personalidade ao álbum como unidade, e essa talvez seja uma crítica ainda mais incômoda porque há momentos individuais em que ele demonstra possuir todas as ferramentas necessárias para resolver esse problema.

A curta duração impede que a experiência se torne verdadeiramente cansativa, mas cria outra questão. Um álbum relativamente compacto deveria, em teoria, beneficiar-se da ausência de gordura, porém “Bass Persuades” consegue produzir uma estranha sensação de esquecimento mesmo sem se prolongar demais. Algumas ideias passam sem deixar cicatrizes, e isso é especialmente frustrante em um trabalho de Miley porque poucas coisas em sua discografia mais interessante simplesmente passam. Mesmo quando ela erra, normalmente existe algum excesso, alguma decisão estética ou algum desastre fascinante capaz de permanecer na memória. Aqui, parte do material apenas funciona, e para uma artista tão historicamente associada ao exagero, descobrir Miley sendo apenas funcional é quase mais estranho do que vê-la fracassar tentando alguma coisa absurda.

Talvez “Bass Persuades” também exponha um efeito curioso da maturidade artística. Miley não precisa mais provar que sabe cantar, que consegue transitar entre gêneros ou que sobrevive fora da imagem construída durante sua juventude. Essas batalhas acabaram há muito tempo. Ela conquistou liberdade suficiente para fazer praticamente aquilo que quiser, e essa liberdade deveria ser fascinante. O álbum mostra, porém, que ausência de limitações também exige um senso particularmente forte de direção. Quando qualquer caminho é possível, escolher o mais interessante se torna ainda mais importante.

É por isso que a transformação de Miley Cyrus em simplesmente Miley permanece mais interessante conceitualmente do que aquilo que o disco faz com ela. Retirar o sobrenome parece anunciar uma artista chegando à própria essência, mas “Bass Persuades” frequentemente oferece uma versão menos definida justamente quando deveria representar uma síntese. Talvez essa contradição seja apenas consequência de um trabalho criado rapidamente por alguém que já estava pensando no próximo capítulo antes mesmo de terminar completamente o anterior. Miley já falou sobre sua impaciência com campanhas longas, e essa velocidade certamente mantém sua produção viva, mas também levanta uma questão inevitável sobre quanto determinadas ideias poderiam crescer se ela permanecesse um pouco mais dentro delas.

Ainda assim, seria exagerado transformar frustração em condenação. “Bass Persuades” possui produção excelente, interpretações vocalmente poderosas, momentos de experimentação genuína e sinais suficientes da inquietação artística que tornou Miley uma figura tão difícil de encaixar em uma única categoria. O que falta é consistência na utilização dessas qualidades. O álbum não fracassa por não possuir boas ideias, mas por apresentar ideias excelentes e depois aceitar soluções muito menos interessantes ao lado delas. É justamente essa proximidade com algo potencialmente extraordinário que faz o resultado parecer mais decepcionante do que um disco simplesmente ruim pareceria.

No fim, “Bass Persuades” ocupa uma posição estranha dentro da discografia de Miley. É competente demais para ser descartado, bem produzido demais para ser chamado de preguiçoso e curioso demais para ser considerado completamente convencional, mas também é pouco incisivo para ocupar o mesmo espaço artístico de seus trabalhos mais fortes. Há um excelente álbum escondido dentro dele, provavelmente mais sujo, mais físico, mais estranho e muito mais comprometido com aquela combinação de graves, guitarras e eletrônica que aparece em seus melhores momentos. O disco que efetivamente chegou prefere dividir esse espaço com um romantismo mais seguro e uma escrita que nem sempre acompanha a sofisticação de sua produção.

Talvez essa seja a verdadeira decepção de “Bass Persuades”: Miley não perdeu sua capacidade de surpreender, mas decidiu utilizá-la apenas em partes de um álbum que precisava desesperadamente de sua coragem por inteiro. Depois de “Something Beautiful”, ficou impossível esquecer o que acontece quando ela trata um projeto como universo completo e leva cada decisão até as últimas consequências. Seu décimo disco não apaga aquela conquista e tampouco diminui a artista que Miley se tornou, mas demonstra que excelente produção, uma voz gigantesca e liberdade criativa não garantem automaticamente uma grande obra. Às vezes, ter todas as ferramentas disponíveis apenas torna ainda mais perceptível aquilo que poderia ter sido construído com elas.

Nota final: 66

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Temas: CríticaMiley CyrusMúsicaResenhaReview

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