Porta aberta, queda no chão, um sussurro quase inaudível. Foi assim que Mitski decidiu anunciar “Nothing’s About to Happen to Me”. A frase soa como negação, mas também como provocação. Quando uma artista diz que nada está prestes a acontecer, é porque algo profundo já começou a se mover por dentro.
O oitavo álbum de estúdio chega depois da retomada iniciada em “Laurel Hell” e aprofundada em “The Land Is Inhospitable and So Are We”. Se naquele momento Mitski parecia testar novas peles, aqui ela parece arrancá las com cuidado cirúrgico. O disco parte de uma narrativa clara, centrada em uma mulher reclusa que encontra liberdade dentro de uma casa desarrumada e julgamento do lado de fora. A metáfora é direta, mas a execução é cheia de camadas.
Gravado novamente com Patrick Hyland, colaborador de longa data, o álbum ecoa a atmosfera expansiva do trabalho anterior, mas troca a vastidão campestre por um espaço mais claustrofóbico. A casa da personagem é também a mente da artista, abarrotada de expectativas alheias, versões distorcidas e fantasmas de interpretações futuras. Cada cômodo parece guardar uma memória que insiste em não ficar quieta.
Musicalmente, o início do disco aposta em lentidão e contenção. Instrumentação orgânica, quarteto vocal que surge como presença quase fantasmagórica, arranjos que lembram um bar de jazz mal iluminado no fim da noite. É como se o ouvinte tropeçasse em um show secreto. Essa estética intimista reforça o isolamento da protagonista, mas também sua autonomia.
Em “Cats”, a dependência emocional ganha contornos delicados, quase dóceis. Logo depois, “If I Leave” vira o espelho ao contrário, distorcendo guitarras e desmontando a ideia de abandono como libertação simples. Mitski entende que toda fuga carrega perda, e toda permanência exige sacrifício. O disco inteiro respira essa tensão.
“I’ll Change for You” é um dos momentos mais irônicos do repertório. Sobre uma linha de baixo sinuosa, a promessa de moldar se ao desejo do outro soa menos como entrega romântica e mais como crítica à expectativa constante de adaptação feminina. O ruído ambiente que invade a faixa amplia a sensação de exposição, como se a intimidade estivesse sempre sendo observada.
O ponto mais devastador surge em “Dead Woman”. Aqui, a narrativa abandona parcialmente o personagem e se aproxima da própria Mitski Miyawaki. A reflexão sobre como sua história será recontada depois da morte é brutal. Ser reinterpretada à revelia, transformada em mito conveniente, pode ser uma segunda morte. É um comentário direto sobre fama, fandom e indústria, mas também sobre o medo universal de perder o controle da própria narrativa.
Esse tema reaparece em “Charon’s Obol”, referência ao ritual de colocar uma moeda sobre a boca do morto. O quarteto vocal assume um papel quase animal, criando um coro que persegue e protege ao mesmo tempo. A artista já falou abertamente sobre sua relação conflituosa com a visibilidade. Aqui, ela transforma essa tensão em dramaturgia sonora.
O encerramento com “Lightning” fecha o ciclo com uma pergunta que ecoa muito além do disco. A possibilidade de retornar como chuva, como fenômeno natural, aponta para uma reinvenção menos ligada à imagem pública e mais conectada à permanência da obra. Mitski parece finalmente aceitar que não controla o olhar do outro, mas pode controlar o que coloca no mundo.
Depois do brilho sintético de “Laurel Hell” e da solidão épica de “The Land Is Inhospitable and So Are We”, “Nothing’s About to Happen to Me” soa como reconquista. Não de mercado, não de tendência, mas de território interno. A artista que já pensou em abandonar a música agora parece confortável em ocupar o próprio mito, inclusive suas lacunas.
O título engana de propósito. Algo está acontecendo, sim. Está acontecendo uma redefinição silenciosa de identidade. Mitski transforma recolhimento em potência e silêncio em declaração. E, ao fazer isso, prova que às vezes o gesto mais radical é fechar a porta, apagar a luz e ainda assim continuar sendo ouvida.
Nota final: 83/100
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