A nova aposta de Ryan Murphy e Ian Brennan transforma um dos nomes mais perturbadores do true crime em material dramático de precisão quase cirúrgica. “Monstro: A História de Ed Gein” parte do terror rural dos anos 1950 para reconstruir o nascimento do horror moderno, aquele mesmo que inspirou “Psicose”, “O Massacre da Serra Elétrica” e “O Silêncio dos Inocentes”. Mas o que a série realmente faz é muito mais do que revisitar um caso real. É uma autópsia moral sobre a relação entre fé, repressão e loucura.
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O cenário é a Wisconsin profunda, e o clima já nasce apodrecido. Ed Gein, interpretado por Charlie Hunnam, é o tipo de figura que parece existir à margem da realidade. Hunnam entrega uma performance gelada e imprevisível, que equilibra fragilidade e monstruosidade em doses iguais. Seu Gein é um homem infantilizado pela devoção à mãe e contaminado por uma obsessão doentia que mistura religião, culpa e desejo. Laurie Metcalf, como Augusta Gein, domina a série nos primeiros episódios: é uma figura tão assustadora quanto o filho, talvez mais. A relação entre os dois é o núcleo emocional do caos, uma espécie de ritual contínuo de punição e devoção que faz da casa deles um purgatório em forma de fazenda.
A força da série está na forma como Murphy e Brennan usam o horror psicológico como espelho da cultura americana. “Monstro: A História de Ed Gein” transforma o caso real em um estudo sobre a anatomia da repressão. Cada cena parece dialogar com a gênese do terror no cinema, e não por acaso Alfred Hitchcock e Alma Reville surgem em episódios posteriores, em uma espécie de meta-homenagem à criação do medo como arte. Tom Hollander interpreta Hitchcock com ironia e gravidade, reforçando a ideia de que Gein, mesmo preso em sua loucura, acabou moldando um imaginário que o ultrapassa.
Visualmente, a série mantém a estética fria e impecável que marca a antologia “Monsters”. O trabalho de fotografia cria uma sensação constante de contaminação, como se o mal fosse uma substância física que escorre pelas paredes da fazenda e se infiltra na mente do espectador. Há uma beleza mórbida em cada detalhe, o que reforça a ambiguidade entre repulsa e fascínio que sempre cercou o nome Ed Gein.
Ainda que “Monstro: A História de Ed Gein” dialogue diretamente com os capítulos anteriores da antologia, o tom aqui é diferente. Se “Dahmer” chocava pelo realismo e “Os Irmãos Menendez” explorava a perversão do privilégio, Gein é pura podridão espiritual. É uma narrativa que tenta compreender a origem do mal sem justificá-lo, mergulhando na insanidade de forma quase etnográfica.
Há momentos em que a série flerta com o grotesco apenas pelo choque, e é nesses excessos que ela se aproxima perigosamente da autoparódia. Ainda assim, a condução de Brennan mantém o equilíbrio entre o horror e a crítica, evitando transformar Gein em espetáculo. O resultado é uma obra incômoda, elegante e, acima de tudo, consciente de seu papel dentro da tradição do terror americano.
“Monstro: A História de Ed Gein” revela que o verdadeiro medo nunca está no assassino, mas na sociedade que o produz. E se o horror de Gein inspirou o cinema, é porque ele veio de um lugar muito mais profundo: o medo coletivo do desejo, do corpo e da culpa.
“Monstro: A História de Ed Gein”
Criação: Ryan Murphy e Ian Brennan
Direção: Carl Franklin
Elenco: Charlie Hunnam, Laurie Metcalf, Tom Hollander, Suzanna Son
Disponível em: Netflix
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