Poucas figuras parecem ter sido tão perfeitamente desenhadas para despertar a obsessão de Ryan Murphy quanto Lizzie Borden. Existe um assassinato brutal, uma família atravessada por ressentimentos, uma mulher transformada em personagem pelo imaginário popular, sexualidade reprimida, julgamento público, versões contraditórias dos mesmos acontecimentos e um mistério que atravessou mais de um século sem encontrar resposta definitiva. É praticamente um catálogo dos interesses que Murphy espalhou por sua carreira, então a chegada de “Monstro: A História de Lizzie Borden” parecia menos uma questão de possibilidade e mais de tempo. O problema é que, diante de uma história cuja maior força está justamente naquilo que ninguém conseguiu provar, Ryan Murphy parece novamente incapaz de resistir à tentação de preencher cada espaço vazio com a versão mais provocativa que consegue imaginar.

A nova temporada da antologia “Monstro” retorna ao fim do século XIX para acompanhar Lizzie Borden, interpretada por Ella Beatty, acusada pelo assassinato do pai, Andrew Borden, vivido por Charlie Hunnam, e da madrasta, Abby Borden, interpretada por Rebecca Hall. Os dois foram mortos dentro da própria casa em um crime que atravessaria gerações, enquanto Lizzie seria absolvida e permaneceria associada aos assassinatos mesmo sem uma condenação. Mais de um século depois, seu sobrenome continua funcionando quase como sinônimo daquele machado, o que por si só já deveria oferecer material suficiente para uma série interessada na maneira como uma pessoa pode ser absolvida juridicamente e condenada culturalmente para sempre.
Seria justamente nesse território de incerteza que “Monstro: A História de Lizzie Borden” poderia encontrar sua versão mais perturbadora. O caso permite versões, suspeitas e contradições porque sua ausência de resolução definitiva não é um problema narrativo que precisa ser corrigido. É o próprio coração da história. Murphy e Ian Brennan, entretanto, demonstram uma necessidade quase compulsiva de transformar lacunas em acontecimentos, possibilidades em imagens e especulações em uma narrativa suficientemente concreta para preencher oito episódios.
Não existe qualquer obrigação artística de uma dramatização reproduzir a realidade com precisão documental, e cobrar isso seria reduzir ficção a reconstituição. Uma série pode alterar cronologias, condensar personagens, imaginar conversas e construir interpretações desde que compreenda o significado dessas escolhas. O problema de “Monstro: A História de Lizzie Borden” começa quando a liberdade dramática deixa de interpretar os vazios da história e passa a substituí-los por uma realidade alternativa muito mais conveniente para aquilo que a série deseja provocar.
Isso cria uma relação estranha com o próprio título. Quando uma produção se apresenta como “A História de Lizzie Borden”, existe uma promessa implícita de aproximação com aquela figura histórica, ainda que mediada pela ficção. A série, porém, altera elementos importantes do caso e assume uma liberdade tão extensa na construção das personagens e de suas relações que Lizzie começa a funcionar menos como a mulher historicamente conhecida e mais como matéria prima para uma personagem de Ryan Murphy.
Esse é um ponto especialmente delicado porque a verdadeira Lizzie Borden já foi suficientemente transformada pela cultura popular. Repetição possui uma capacidade assustadora de converter hipótese em memória coletiva. Determinadas versões sobre o crime foram reproduzidas tantas vezes em livros, filmes, séries e conversas que passaram a ocupar o espaço de fatos mesmo quando nunca foram comprovadas. Uma produção contemporânea poderia utilizar justamente essa distorção como parte de sua investigação, questionando quanto da Lizzie que acreditamos conhecer pertence à mulher que existiu e quanto foi construído pelas histórias contadas depois dela.
“Monstro: A História de Lizzie Borden” prefere participar dessa fabricação.
Isso não significa que a temporada seja artisticamente desinteressante. Pelo contrário, existe uma contradição particularmente irritante no fato de que uma série tão problemática na maneira de manipular seu material histórico seja sustentada por um elenco que frequentemente transforma decisões questionáveis em cenas muito melhores do que deveriam ser. Quando o texto força, os atores encontram textura; quando a série exagera, algumas performances descobrem exatamente quanto exagero aquele universo consegue suportar.
Ella Beatty recebe a tarefa mais ingrata porque sua Lizzie precisa existir simultaneamente como pessoa, suspeita, vítima, possível assassina e projeção das obsessões da própria série. A atriz constrói uma personagem que nunca pode ser completamente confortável para quem assiste, justamente porque a narrativa altera continuamente a distância entre Lizzie e aquilo que acreditamos saber sobre ela. Existe vulnerabilidade em alguns momentos e uma opacidade quase provocativa em outros, criando uma figura difícil de aprisionar em uma única leitura.
Essa ambiguidade poderia ser extraordinária se a própria temporada demonstrasse a mesma disposição para permanecer em dúvida. O problema é que “Monstro” frequentemente parece mais interessada em provocar do que em investigar. Existe uma diferença entre construir uma personagem contraditória e cercá-la de situações deliberadamente escandalosas até que a provocação se torne uma linguagem automática, e Murphy continua caminhando perigosamente próximo dessa segunda possibilidade.
Rebecca Hall entende perfeitamente o tipo de produção em que entrou e entrega uma Abby Borden que poderia facilmente atravessar a fronteira do excesso, mas encontra um controle surpreendente dentro dela. Sua interpretação é grande sem ser vazia, teatral sem perder intenção e frequentemente engraçada sem transformar a personagem em paródia. Hall parece compreender que o universo de Ryan Murphy exige atores capazes de olhar diretamente para o exagero sem piscar, e sua Abby encontra humanidade justamente em um registro que, nas mãos erradas, poderia virar apenas caricatura.
Existe uma qualidade quase venenosa em determinadas interações da personagem, e Hall sabe utilizar diálogo, expressão e postura para tornar Abby interessante mesmo quando a escrita parece muito satisfeita com a própria acidez. É uma performance consciente da artificialidade que existe ao redor dela, mas que não utiliza essa consciência como desculpa para diminuir a personagem. Pelo contrário, Hall mergulha na estilização e encontra dentro dela algo estranhamente preciso.
Sarah Paulson recebe uma função ainda mais peculiar ao aparecer como Aileen Wuornos, criando uma ponte entre dois nomes separados por épocas completamente diferentes. A associação pode ser intelectualmente compreendida dentro da obsessão da antologia pela fabricação social de monstros, especialmente quando mulheres violentas ou acusadas de violência são transformadas em objetos de fascínio cultural. Ainda assim, a presença de Aileen frequentemente parece menos uma consequência orgânica da história de Lizzie e mais uma maneira de “Monstro” conversar consigo mesma.
Paulson, como costuma acontecer quando Ryan Murphy coloca material excessivo em suas mãos, transforma essa oportunidade em algo fascinante. A atriz trabalha postura, fala, movimentos faciais e gestos sem reduzir Aileen a uma coleção de características reconhecíveis. Existe pesquisa na composição, mas existe principalmente uma compreensão de que imitação não é interpretação. Sarah Paulson consegue produzir uma presença tão magnética que cria um problema involuntário para a própria temporada: em determinados momentos, a série sobre Lizzie Borden fica muito mais interessante quando decide olhar para outra mulher.
Isso deveria ser um alerta para a estrutura. Aileen não precisava competir com Lizzie pela atenção do espectador, mas a intensidade da interpretação de Paulson e a curiosidade naturalmente provocada por sua presença fazem com que determinados desvios pareçam pertencer a uma série paralela que talvez tivesse sido mais interessante acompanhar. A conexão temática existe, mas Murphy a utiliza com tanta insistência que aquilo que poderia funcionar como comentário começa a parecer sublinhado.
Essa falta de confiança na capacidade do público de estabelecer conexões é um problema recorrente. “Monstro: A História de Lizzie Borden” possui temas suficientemente fortes para não precisar anunciar constantemente o que deseja discutir. Misoginia, repressão, sexualidade, violência doméstica, poder econômico, moral religiosa e fascínio público pelo crime estão presentes naturalmente na história. Quando a série permite que essas questões surjam das relações entre personagens, existe material genuinamente interessante. Quando tenta organizar tudo em torno de uma grande explicação sobre quem produz monstros e por quê, começa a diminuir a complexidade que deveria estar ampliando.
A própria ideia de “monstro” tornou-se progressivamente mais complicada dentro da antologia. O título permite que Murphy e Brennan brinquem com a pergunta sobre quem merece essa classificação, quem a recebe da sociedade e quem consegue escapar dela. É um conceito fértil, mas também uma armadilha, porque existe o risco de cada nova temporada começar com uma resposta conceitual pronta e remodelar seu personagem histórico até que ele caiba nela.
Lizzie Borden é especialmente resistente a esse tipo de enquadramento porque sua história sobrevive justamente sem resposta. Ela foi acusada, julgada e absolvida. A cultura popular fez o restante do trabalho. Existe algo muito mais assustador na impossibilidade de sabermos definitivamente o que aconteceu naquela casa do que em qualquer versão cuidadosamente dramatizada que pretenda preencher as lacunas com sexo, trauma, violência e uma explicação psicologicamente satisfatória.
A série parece desconfortável diante dessa ausência de certeza. Seu impulso é transformar possibilidade em espetáculo, e visualmente existe uma produção muito competente para executar essa decisão. A direção trabalha a casa dos Borden como espaço de confinamento, utilizando interiores, corredores e divisões físicas para reforçar uma sensação de relações apodrecendo dentro de um ambiente aparentemente organizado. Existe uma preocupação evidente com textura, figurino e composição, criando um século XIX que não busca neutralidade histórica, mas uma versão estilizada daquele período compatível com a identidade visual de “Monstro”.
Essa estilização funciona porque ninguém deveria esperar de Ryan Murphy uma reconstrução discreta. O problema não está na exuberância visual, que frequentemente é uma das características mais interessantes da produção, mas na dificuldade de distinguir quando a estilização está oferecendo interpretação e quando está apenas embelezando a morbidez. Crimes reais possuem uma atração comercial evidente, e “Monstro” nunca conseguiu escapar completamente da contradição de questionar nossa obsessão por assassinos enquanto constrói entretenimento extremamente sedutor ao redor deles.
Nesta temporada, essa contradição ganha uma camada adicional porque Lizzie não foi condenada. A série trabalha com uma pessoa que passou pelo sistema judicial e foi absolvida, mas cuja identidade cultural continua indissociável de dois assassinatos. Isso exigiria um cuidado especial na maneira de dramatizar aquilo que não pode ser estabelecido como fato, principalmente porque o audiovisual possui uma força que documentos históricos não possuem. Quando vemos algo acontecer diante da câmera, aquela imagem pode adquirir uma autoridade emocional que ultrapassa qualquer aviso de ficcionalização.
É exatamente por isso que a discussão sobre fidelidade factual não pode ser descartada simplesmente com a afirmação de que estamos diante de uma obra de ficção. Quanto mais uma série utiliza nomes reais, crimes reais e a reputação construída ao redor de pessoas que realmente existiram, mais interessante se torna perguntar não se ela pode inventar, porque evidentemente pode, mas o que pretende fazer com a responsabilidade de suas invenções. “Monstro: A História de Lizzie Borden” nem sempre possui uma resposta convincente.
A temporada quer utilizar Lizzie para falar sobre mulheres aprisionadas pelas expectativas de sua época, sobre desejo e repressão, sobre violência e sobre a maneira como a sociedade constrói figuras monstruosas. São caminhos perfeitamente legítimos, mas algumas dessas leituras parecem determinadas antes mesmo que a personagem possa existir. Em vez de descobrir Lizzie através das contradições do caso, a série frequentemente parece reconstruí-la para servir às contradições que deseja discutir.
Isso não elimina a força de Ella Beatty. Pelo contrário, torna sua performance mais interessante porque a atriz precisa encontrar alguma unidade dentro de uma personagem submetida a impulsos narrativos diferentes. Beatty consegue produzir momentos de vulnerabilidade sem pedir absolvição ao público e momentos perturbadores sem transformar Lizzie em uma resposta definitiva para o mistério histórico. Sua atuação demonstra uma ambiguidade que o roteiro poderia ter aprendido a preservar melhor.
Charlie Hunnam também ocupa uma posição importante nessa reconstrução da família Borden. Andrew precisa representar autoridade dentro de uma estrutura doméstica que gradualmente se torna insustentável, e a presença física do ator ajuda a estabelecer essa relação de poder. Vicky Krieps, por sua vez, entra em uma das áreas mais especulativas da narrativa e precisa trabalhar dentro de uma história que conscientemente amplia possibilidades sugeridas ao longo das décadas.
É justamente nessas relações que a ficcionalização se torna mais difícil de separar da intenção provocativa da série. Não existe problema em imaginar intimidade, desejo ou alianças que não podem ser comprovadas historicamente quando a obra assume claramente que está propondo uma leitura. A questão é que “Monstro” gosta demais da autoridade de estar falando sobre pessoas reais para assumir completamente a liberdade de estar inventando outras.
A temporada quer simultaneamente o impacto cultural do nome Lizzie Borden e a liberdade de escrever uma Lizzie Borden que pertença quase inteiramente às necessidades dramáticas de Ryan Murphy e Ian Brennan. É nessa contradição que minha resistência à série cresce, porque não estamos diante de uma produção sem talento ou sem ideias. Estamos diante de uma produção com talento suficiente para não precisar manipular tanto sua matéria prima.
Também existe algo cansativo na necessidade permanente de aumentar o volume. O caso Borden já possui violência, estranheza e mistério suficientes. Não seria necessário transformar cada relação em um campo de batalha, cada possibilidade em provocação e cada conexão temática em declaração. Há momentos em que a série parece incapaz de aceitar que duas pessoas simplesmente ocupem o mesmo espaço sem que alguma camada adicional de perversidade precise surgir.
Ryan Murphy sempre trabalhou muito bem com excesso, e seria injusto exigir dele minimalismo como sinal automático de maturidade. Algumas de suas melhores criações existem justamente porque ele compreende melodrama, artificialidade e exagero como linguagens legítimas. O problema aparece quando o excesso deixa de ser linguagem e se transforma em mecanismo padrão. Se tudo precisa ser escandaloso, eventualmente o escândalo perde sua capacidade de escandalizar.
Rebecca Hall parece compreender esse risco melhor do que quase todo mundo ao seu redor. Sua interpretação flerta constantemente com o exagero sem perder a noção de limite, o que transforma Abby em uma das personagens mais prazerosas de acompanhar. Sarah Paulson consegue algo semelhante com Aileen, embora em um registro completamente diferente. As duas demonstram que é possível existir dentro da extravagância de “Monstro” sem ser engolida por ela.
A ironia é que as melhores performances da temporada expõem justamente aquilo que falta em sua abordagem narrativa: confiança. Hall confia no gesto, Paulson confia na observação e Beatty confia na ambiguidade, enquanto a série frequentemente parece acreditar que precisa explicar, aumentar, conectar e dramatizar tudo para impedir que o espectador perca interesse.
O caso Lizzie Borden jamais precisou desse desespero. Mais de 130 anos depois, continuamos falando sobre ele justamente porque alguma coisa permanece inacessível. Existe uma casa, existem dois corpos, existe uma acusação, existe uma absolvição e existe um espaço gigantesco entre aquilo que sabemos e aquilo que gostaríamos de saber. Foi nesse espaço que nasceu a lenda.
“Monstro: A História de Lizzie Borden” entra nesse vazio com oito episódios e uma quantidade enorme de ideias, mas parece incapaz de aceitar que algumas perguntas ficam mais poderosas quando permanecem abertas. O resultado é uma temporada tecnicamente sofisticada, interpretativamente muito forte e narrativamente frustrante, não porque abandona os fatos em busca de ficção, mas porque frequentemente transforma a ficção em certeza dramática enquanto continua utilizando o fascínio de uma história cuja principal característica é justamente a ausência de certeza.
Ainda assim, existe algo perversamente apropriado no fato de Ryan Murphy produzir mais uma versão de Lizzie Borden. Ele está fazendo exatamente aquilo que a cultura popular faz há mais de um século: preenchendo os vazios, reorganizando rumores, sexualizando possibilidades, procurando explicações e oferecendo ao público outra mulher chamada Lizzie para substituir aquela que jamais conseguiremos conhecer completamente. A diferença é que uma série consciente desse processo poderia transformar essa repetição em seu argumento mais poderoso, enquanto “Monstro” frequentemente parece mais interessada em acrescentar sua própria versão ao amontoado.
A verdadeira história de Lizzie Borden continua fascinante porque não nos entrega a satisfação de uma resposta, enquanto “Monstro: A História de Lizzie Borden” se esforça tanto para transformar incerteza em entretenimento que acaba retirando do caso justamente aquilo que o tornou imortal. Felizmente, Ella Beatty, Rebecca Hall e Sarah Paulson encontram humanidade, estranheza e contradição suficientes dentro dessa fabricação para impedir que a temporada seja reduzida aos seus problemas, mas nem mesmo um elenco tão afiado consegue esconder completamente a sensação de que a melhor série possível sobre Lizzie Borden talvez fosse aquela que tivesse coragem de admitir que algumas coisas simplesmente não sabemos.
“Monstro: A História de Lizzie Borden”
Direção: Ryan Murphy
Elenco: Ella Beatty, Vicky Krieps, Charlie Hunnam, Rebecca Hall e Sarah Paulson
Disponível em: Netflix
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