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Crítica: “Na Cama com Madonna” (Madonna: Truth or Dare)

Texto: Ygor Monroe
28 de dezembro de 2025
em Documentários, Resenhas/Críticas

Existe um tipo raro de obra que se recusa a envelhecer com conforto. “Na Cama com Madonna” pertence exatamente a essa categoria. O filme segue pulsando porque jamais tentou agradar, organizar ou explicar Madonna como personagem pública. Ele prefere o risco. Prefere o excesso. Prefere a exposição como linguagem. O resultado segue desconcertante, fascinante e, em muitos momentos, incômodo. E é justamente aí que mora sua força.

Crítica: "Na Cama com Madonna" (Madonna: Truth or Dare)
Crítica: “Na Cama com Madonna” (Madonna: Truth or Dare)

Filmado durante a turnê “Blond Ambition”, em 1990, o documentário dirigido por Alek Keshishian desmonta qualquer tentativa de enquadrar Madonna em um único formato. O que se vê em cena jamais se limita ao palco. A câmera invade camarins, quartos de hotel, corredores, discussões internas, relações de poder e dinâmicas afetivas que orbitam uma artista em estado permanente de comando. Madonna não performa vulnerabilidade. Ela administra a própria exposição.

O filme brinca deliberadamente com fronteiras. Documentário, diário íntimo, registro performático e ensaio sobre controle de imagem se misturam sem pedir licença. A narração em off funciona como uma camada adicional de confusão calculada. Em nenhum momento fica claro onde termina a pessoa e começa o mito. Essa dúvida não enfraquece o filme. Pelo contrário. Transforma a ambiguidade em discurso.

Visualmente, “Na Cama com Madonna” segue arrebatador. A fotografia em preto e branco, granulada, superexposta e profundamente ligada à estética do início dos anos 1990 cria um contraste cirúrgico com os números musicais filmados em cores. O palco surge como espetáculo absoluto. Os bastidores aparecem crus, irônicos, por vezes desconfortáveis. O filme entende que o show é fantasia e que a realidade, quando filmada, também passa a ser encenação.

Há uma cena em que Madonna ri da ideia de um dia querer ficar fora das câmeras. A sequência parece simples, quase banal, mas revela um dos eixos centrais do longa. A exposição, aqui, não surge como vício ou carência. Surge como ferramenta de poder. Madonna escolhe mostrar tudo porque acredita que controlar a narrativa exige mostrar primeiro. O problema é que nem todos ao redor compartilham dessa lógica. Após o lançamento do filme, alguns dançarinos processaram a produção por se sentirem expostos além do consentido. O documentário registra, sem perceber totalmente, o choque entre uma visão autoral absoluta e os limites individuais de quem orbita esse centro gravitacional.

As relações pessoais existem, mas nunca ocupam o centro. Warren Beatty aparece como figura lateral. A família surge sempre no território que Madonna controla. Amigos, amantes, dançarinos e técnicos atravessam sua rotina, mas sempre em função do trabalho. O filme revela uma artista que organiza o mundo ao redor da própria obra. Nada acontece fora desse eixo.

Assistir ao documentário hoje também ativa um filtro inevitável de memória e identificação. Para uma geração inteira, Madonna significou a primeira imagem de poder associada à sexualidade feminina. Músicas como “Like a Prayer”, “Like a Virgin” e “Human Nature” funcionaram como portais simbólicos. O filme recupera essa sensação sem precisar nomeá-la. Não se trata de idolatria. Trata-se de memória emocional.

Esse resgate, porém, cobra seu preço. Algumas escolhas envelheceram mal. A abordagem superficial sobre a sexualidade dos dançarinos, a tolerância a discursos homofóbicos em cena e, principalmente, a reação fria diante do relato de violência sexual envolvendo um membro da equipe expõem limites éticos claros. O filme cruza linhas o tempo todo. Algumas abrem caminhos. Outras revelam oportunismo. O que antes parecia provocação hoje exige leitura crítica.

Ainda assim, reduzir “Na Cama com Madonna” a seus problemas seria empobrecer sua relevância histórica. O documentário registra um momento em que uma mulher redefiniu as regras da indústria pop com plena consciência do custo disso. Madonna aparece exigente, dura, controladora e absolutamente convicta da própria visão. Confundir essa postura com arrogância é ignorar o contexto de um mercado que raramente permitia esse grau de autonomia feminina.

Gostar ou rejeitar Madonna nunca foi o ponto. O filme deixa isso claro. O que permanece é o impacto. A influência. O modelo que ela criou e que segue sendo reproduzido, consciente ou inconscientemente, por toda a cultura pop. “Na Cama com Madonna” não pede absolvição, empatia nem idolatria. Ele pede atenção.

E talvez seja exatamente por isso que segue tão vivo.

“Na Cama com Madonna”
Direção:
Alek Keshishian
Elenco: Madonna, Antonio Banderas, Warren Beatty
Disponível em: aluguel e compra

⭐⭐⭐⭐

Avaliação: 4 de 5.

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Temas: CríticaMadonnaNa Cama com MadonnaResenhaReview

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