Há uma contradição particularmente incômoda no centro de “No Limite da Justiça”. O filme parte de um episódio real tão absurdo que dificilmente precisaria de qualquer intervenção para parecer cinematográfico. Em 1966, durante uma investigação envolvendo o assassinato do ativista dos direitos civis Vernon Dahmer no Mississippi, o FBI recorreu a Gregory Scarpa, um homem ligado à máfia, para conseguir informações que seus próprios agentes não conseguiam obter pelos meios convencionais. É uma história que imediatamente coloca em conflito justiça, violência institucional, racismo e os limites morais de um Estado disposto a ultrapassar suas próprias regras quando elas deixam de funcionar. O problema é que o diretor Elegance Bratton recebe esse material extraordinariamente complexo e frequentemente tenta acomodá-lo dentro de uma estrutura muito mais convencional do que a própria história exige.

“No Limite da Justiça” transforma esses acontecimentos em um thriller protagonizado por duas figuras colocadas deliberadamente em lados opostos. Yahya Abdul-Mateen II interpreta Strider, um agente negro do FBI enviado para investigar os assassinatos de lideranças dos direitos civis no Mississippi, enquanto Mark Wahlberg assume Gregory Scarpa como uma presença absolutamente incompatível com tudo aquilo que deveria representar uma investigação federal. Um acredita, ainda que de maneira progressivamente mais conflituosa, na instituição. O outro existe justamente porque aquela instituição chegou a um ponto em que suas ferramentas oficiais já não parecem suficientes. É uma combinação excelente para o cinema. Também é exatamente onde o roteiro de Sascha Penn encontra sua maior facilidade e, posteriormente, sua maior limitação.
A dinâmica entre Strider e Scarpa é construída a partir de uma fórmula extremamente reconhecível. De um lado existe o agente disciplinado, preocupado com regras e consciente das consequências de cada decisão. Do outro está o homem imprevisível que trata regras como obstáculos e violência como ferramenta de negociação. Eles discordam, entram em conflito e gradualmente percebem que precisam um do outro. É praticamente a estrutura clássica do filme policial de parceiros, apenas deslocada para um dos períodos mais violentos da história recente dos Estados Unidos.
A escolha não é necessariamente ruim. O problema aparece quando “No Limite da Justiça” percebe que possui uma história muito mais complexa do que sua estrutura parece preparada para comportar. Existe um filme policial de entretenimento tentando funcionar ao mesmo tempo que existe um drama histórico sobre racismo institucional, violência política e impunidade. Essas duas propostas encontram pontos de contato bastante eficientes, mas nunca chegam a se fundir completamente.
Yahya Abdul-Mateen II entende essa contradição melhor do que o próprio roteiro em vários momentos. Strider poderia facilmente se transformar no personagem responsável apenas por impor limites ao comportamento de Scarpa, mas o ator encontra uma camada muito mais interessante dentro dessa posição. Ser um agente negro do FBI naquele contexto não representa apenas ocupar determinado cargo. Significa carregar uma identidade que o aproxima diretamente das vítimas enquanto trabalha para uma instituição que possui seus próprios conflitos, omissões e limitações diante daquela violência.
Abdul-Mateen II trabalha esse desconforto sem transformar cada cena em uma demonstração explícita de sofrimento. Há contenção em sua atuação, principalmente na maneira como observa ambientes e reage às pessoas ao redor. O personagem compreende que sua presença naquele espaço possui significados diferentes dependendo de quem está olhando para ele. Para o FBI, é um agente. Para parte da população branca do Mississippi, continua sendo um homem negro entrando em espaços nos quais sua autoridade pode ser ignorada. Para as pessoas que sofrem diretamente com a violência racista, sua posição institucional também não garante automaticamente confiança.
Essa tensão silenciosa é muito mais interessante do que qualquer discurso que o filme poderia colocar na boca do personagem. Abdul-Mateen II trabalha justamente naquilo que Strider não consegue verbalizar, criando uma figura cuja relação com a própria ideia de justiça começa a se modificar conforme a investigação avança.
Mark Wahlberg escolhe o caminho oposto. Seu Gregory Scarpa ocupa espaço, encara as pessoas, provoca, ameaça e parece sempre consciente do desconforto provocado por sua presença. Existe uma arrogância calculada na interpretação e uma dimensão quase caricatural que, curiosamente, funciona em boa parte do filme. Wahlberg entende que Scarpa não pode ser simplesmente tratado como outro investigador. Ele precisa parecer alguém que entrou naquela história vindo de um universo completamente diferente.
O ator encontra uma energia bastante adequada para isso. Seu Scarpa é desagradável, engraçado quando necessário e permanentemente perigoso. Existe charme, mas nunca exatamente segurança. Mesmo quando parece relaxado, permanece a sensação de que alguma situação pode mudar completamente a partir de uma decisão impulsiva.
Individualmente, as duas atuações são fortes. Juntas, entretanto, também evidenciam uma das maiores dificuldades de “No Limite da Justiça”. Em determinados momentos, Yahya Abdul-Mateen II e Mark Wahlberg parecem protagonizar filmes diferentes.
Abdul-Mateen II está inserido em um drama histórico carregado de consequências políticas e emocionais. Wahlberg frequentemente parece estar dentro de um policial mais irreverente, interessado na dinâmica entre parceiros incompatíveis. Quando o equilíbrio funciona, essa diferença gera tensão e personalidade. Quando não funciona, a interpretação mais expansiva de Wahlberg ameaça diminuir a gravidade daquilo que está acontecendo ao redor dos personagens.
Essa oscilação também existe na direção de Elegance Bratton. O cineasta demonstra bastante cuidado na reconstrução do Mississippi da década de 1960. Os ambientes possuem textura, as estradas parecem secas e desconfortáveis, os estabelecimentos carregam uma rigidez social perceptível e a câmera frequentemente consegue comunicar hostilidade antes mesmo que algum personagem diga qualquer coisa. Existe uma preocupação legítima em fazer com que o espaço não seja apenas cenário, mas parte fundamental da ameaça.
O Mississippi apresentado pelo filme não precisa produzir violência em todas as cenas para permanecer violento. Ela está presente na organização dos espaços, na maneira como determinadas pessoas observam Strider e na naturalidade com que comportamentos racistas são incorporados ao cotidiano. Esse trabalho de ambientação ajuda bastante a sustentar o drama porque permite que a ameaça continue existindo mesmo nos momentos em que a investigação desacelera.
Giancarlo Esposito, como Vernon Dahmer, também contribui para estabelecer essa dimensão humana. Embora sua participação seja limitada, existe peso suficiente em sua presença para impedir que o personagem seja tratado apenas como um nome necessário para movimentar a trama. A importância histórica do caso depende justamente de compreender que a investigação nasceu de uma violência direcionada contra pessoas reais, inseridas em uma luta política concreta.
É por isso que incomoda quando “No Limite da Justiça” se aproxima demais de um entretenimento policial convencional. A fórmula oferece ritmo e facilita a aproximação do público com os protagonistas, mas também simplifica conflitos que deveriam permanecer desconfortáveis. Quanto mais o roteiro investe na relação entre Strider e Scarpa como uma dupla improvável, maior é o risco de transformar um episódio marcado por violência racial em uma história sobre dois homens aprendendo a trabalhar juntos.
Felizmente, o filme possui consciência suficiente para não cair completamente nessa armadilha. O racismo não funciona apenas como pano de fundo para a investigação. Ele interfere diretamente no funcionamento dela. Testemunhas, autoridades e estruturas locais fazem parte de um sistema no qual descobrir quem cometeu determinado crime não significa necessariamente possuir condições para responsabilizar essa pessoa. A pergunta deixa de ser simplesmente quem fez aquilo e passa a envolver algo muito mais complicado: o que significa procurar justiça quando as estruturas responsáveis por garanti-la também possuem limites diante da própria injustiça?
É nesse conflito que a presença de Scarpa se torna mais interessante. O FBI recorrer a alguém como ele é uma contradição moral evidente. Para investigar crimes cometidos através da brutalidade, a instituição aceita utilizar outra forma de brutalidade. Para alcançar pessoas protegidas por determinadas estruturas, permite que alguém externo ao sistema ignore regras que seus próprios agentes deveriam respeitar.
O roteiro poderia explorar essa contradição com ainda mais profundidade. Em alguns momentos, parece interessado justamente em perguntar se uma ação moralmente indefensável pode produzir um resultado considerado justo. Em outros, entretanto, prefere transformar os métodos de Scarpa em combustível para cenas de tensão ou em elemento responsável por movimentar uma investigação que começa a perder força.
Esse é provavelmente o maior problema estrutural de “No Limite da Justiça”. Apesar de toda a potência de sua premissa, o mistério propriamente dito é relativamente simples. A investigação não possui complexidade suficiente para sustentar sozinha a duração do filme, e isso se torna especialmente perceptível no miolo da narrativa. Depois de estabelecer personagens, contexto e ameaça, o longa deveria avançar progressivamente em direção a descobertas mais significativas. Em vez disso, passa por um período de estagnação.
Não é exatamente falta de acontecimentos. Coisas continuam acontecendo, personagens continuam procurando informações e situações perigosas aparecem. O problema é a sensação de progressão dramática. Um bom thriller investigativo precisa fazer com que cada descoberta modifique nossa compreensão daquilo que veio anteriormente, e “No Limite da Justiça” nem sempre consegue produzir esse movimento.
Terence Blanchard acaba sendo fundamental justamente nesses momentos. Sua trilha sonora frequentemente injeta suspense em cenas nas quais o roteiro não consegue produzi-lo sozinho. Existe uma tensão musical sustentando a investigação mesmo quando a dramaturgia parece estacionada. É um trabalho eficiente, ainda que sua importância acabe evidenciando algumas fragilidades da própria narrativa.
O filme melhora consideravelmente quando deixa de depender da investigação como mistério e volta sua atenção para o conflito moral entre seus protagonistas. Strider não precisa apenas descobrir o que aconteceu. Ele precisa decidir até onde está disposto a acompanhar alguém como Scarpa para conseguir aquilo que considera justiça. A diferença parece pequena, mas altera completamente o interesse dramático.
É nesse ponto que “No Limite da Justiça” encontra seu melhor material. Não existe qualquer dificuldade em estabelecer Scarpa como alguém disposto a ultrapassar limites. O verdadeiro conflito está em descobrir o que acontece quando Strider começa a perceber que respeitar esses limites talvez também signifique aceitar a continuidade de uma estrutura incapaz de proteger determinadas pessoas.
O filme é muito mais forte quando entende que seu assunto não é a ausência de lei, mas a insuficiência dela. Há regras, procedimentos, agentes e instituições. Ainda assim, pessoas continuam sendo assassinadas. Ainda assim, responsáveis continuam protegidos. Ainda assim, determinadas comunidades sabem que a existência formal da justiça não significa necessariamente que ela estará disponível para todos.
Esse deveria ser o centro absoluto do longa, mas a necessidade de preservar características de thriller comercial faz com que Bratton alterne entre aprofundar essa questão e retornar à dinâmica mais confortável da dupla improvável. É uma escolha compreensível do ponto de vista narrativo, porém impede que “No Limite da Justiça” alcance toda a contundência prometida por sua história.
Também é necessário considerar a liberdade tomada pelo roteiro em relação aos acontecimentos reais. O longa utiliza fatos históricos como ponto de partida, mas não pretende funcionar como reconstrução documental. A existência de Scarpa e sua participação em investigações do FBI fazem parte da história, enquanto o personagem de Strider surge de uma elaboração dramática inspirada nas informações disponíveis sobre a participação de um agente negro na investigação. Essa liberdade permite ao filme organizar seus conflitos de maneira mais direta, mas também exige cuidado para que a dramatização não seja confundida com registro histórico.
Como cinema, funciona porque Strider oferece uma perspectiva essencial para o argumento. Como representação histórica, é importante entender que estamos diante de uma dramatização. “No Limite da Justiça” utiliza a história para construir um conflito cinematográfico, e não para substituir a própria história.
A parte final é justamente onde essa diferença entre realidade e dramaturgia se torna mais problemática. Depois de passar boa parte da narrativa mostrando uma sociedade atravessada por estruturas violentas e resistentes a qualquer mudança, o filme encontra uma conclusão organizada demais para aquilo que construiu. Existe uma necessidade de fechar caminhos, oferecer algum senso de resolução e concluir emocionalmente a trajetória dos protagonistas. O resultado é funcional, mas excessivamente confortável.
Uma história sobre violência racial, corrupção institucional e justiça obtida através de métodos moralmente questionáveis talvez não devesse terminar produzindo uma sensação tão clara de encerramento. Algumas feridas permanecem abertas porque fazem parte de estruturas muito maiores do que os personagens. Ao tentar amarrar seus principais conflitos, “No Limite da Justiça” reduz um pouco da ambiguidade que havia tornado sua premissa tão interessante. Isso não destrói o filme. Apenas deixa evidente a distância entre aquilo que ele consegue ser e aquilo que poderia ter se tornado.
Elegance Bratton dirige um thriller sólido, tecnicamente cuidadoso e sustentado por duas atuações centrais que encontram caminhos completamente diferentes para chegar ao mesmo conflito. Yahya Abdul-Mateen II entrega o trabalho mais complexo justamente porque compreende que Strider não pode reagir a tudo de maneira explícita. Mark Wahlberg encontra em Scarpa uma oportunidade de trabalhar uma presença mais suja, arrogante e ameaçadora, ainda que o registro expansivo ocasionalmente provoque um choque tonal difícil de ignorar.
Existe tensão, existe personalidade e existem momentos emocionalmente poderosos. Também existe uma investigação menos interessante do que deveria, uma parte intermediária que perde força e uma conclusão que organiza demais aquilo que a própria história tornou moralmente desorganizado.
“No Limite da Justiça” é melhor quando deixa de tentar resolver um crime e começa a questionar o significado da própria justiça. O encontro entre um agente negro do FBI e um assassino ligado à máfia possui força cinematográfica por si só, mas o verdadeiro desconforto está na instituição que tornou essa parceria necessária. Se Scarpa precisa entrar em cena para fazer aquilo que a lei não consegue fazer, então o problema não está apenas nos criminosos que estão sendo perseguidos. Está também naquilo que permitiu que eles chegassem tão longe.
O filme entende isso, mas não tem coragem de permanecer nessa ferida durante todo o tempo. Prefere ocasionalmente retornar à segurança do thriller de parceiros, oferecendo humor, confronto e uma dinâmica mais facilmente digerível. Essa escolha torna “No Limite da Justiça” mais acessível, mas também menos devastador.
Ainda assim, há valor considerável no resultado. Principalmente porque Abdul-Mateen II impede que o drama seja reduzido a uma aventura policial e porque Bratton consegue construir uma atmosfera histórica na qual o perigo não desaparece quando as armas deixam de aparecer. O longa talvez nunca consiga decidir completamente que tipo de filme deseja ser, mas seus melhores momentos surgem justamente quando abandona as convenções e encara aquilo que existe de mais perturbador em sua própria premissa: uma sociedade na qual cumprir a lei e alcançar justiça podem representar coisas completamente diferentes.
É essa contradição que permanece depois dos créditos. Não a parceria improvável, não o mistério e nem mesmo a violência isoladamente, mas a constatação de que o sistema apresentado pelo filme precisou procurar alguém disposto a ignorar suas regras para conseguir enfrentar crimes que essas mesmas regras não foram capazes de impedir. “No Limite da Justiça” poderia aprofundar essa ideia muito mais do que faz, porém encontra nela força suficiente para escapar de ser apenas mais um thriller policial baseado em fatos reais.
“No Limite da Justiça”
Direção: Elegance Bratton
Elenco: Mark Wahlberg, Yahya Abdul-Mateen II e Nicole Beharie
Disponível em: cinemas a partir de 17 de setembro de 2026
Fique por dentro das novidades das maiores marcas do mundo! Acesse nosso site Marca Pop e descubra as tendências em primeira mão.





