“Nossos Tempos” tem uma premissa instigante, mas entrega uma obra que parece dividida entre o desejo de discutir o impacto do tempo sobre o amor e a tentação de se render ao melodrama mais previsível. Em vez de explorar com profundidade a tensão entre avanço científico e amadurecimento emocional, o filme acaba estacionando em um território morno, onde as ideias são maiores do que o roteiro consegue sustentar.
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O que começa como uma proposta ambiciosa de ficção científica com viés existencial acaba se diluindo em uma estrutura narrativa que repete fórmulas típicas do romance dramático latino-americano, e isso não seria um problema se o filme tivesse consciência estética disso. Mas “Nossos Tempos” quer ser sofisticado, e essa tentativa frequente de se mostrar mais complexo do que realmente é, torna a experiência frustrante em diversos momentos.
A ambientação temporal, dividida entre 1966 e 2025, abre margem para questões relevantes, principalmente no que diz respeito à condição feminina na ciência e à forma como o tempo pode ser um aliado ou um obstáculo à identidade. Há, sim, um contraste visual e simbólico que potencializa a trajetória da protagonista. A narrativa oferece flashes de modernidade ao colocar uma mulher cientista como figura central, questionando as limitações impostas em sua época de origem. Mas toda essa construção se perde quando a ficção científica vira pano de fundo para um enredo sentimental frágil e repetitivo.
A questão do deslocamento emocional entre os protagonistas é interessante e até necessária, afinal, viajar no tempo também é uma metáfora para o distanciamento que o próprio tempo impõe aos relacionamentos. No entanto, falta profundidade no tratamento desses conflitos. A trama escorrega em lugares-comuns, evitando se aprofundar nos dilemas que levanta. A ficção científica, que poderia ser a espinha dorsal da obra, vira uma desculpa para justificar decisões dramáticas apressadas.
Do ponto de vista técnico, a direção é correta, mas sem arrojo. As transições temporais não têm impacto visual suficiente para reforçar a ideia de dois mundos realmente distintos. E mesmo os momentos de maior carga emocional são conduzidos com uma linguagem quase televisiva, com diálogos expositivos e resoluções apressadas que comprometem o envolvimento do espectador. Há boas intenções, mas falta sofisticação.
Ainda assim, o filme acerta em alguns detalhes. A protagonista tem presença, e sua jornada de autodescoberta em um mundo que finalmente a reconhece é um dos poucos aspectos bem conduzidos. O desconforto crescente de seu parceiro diante de um futuro em que ele não se encaixa também aponta para reflexões interessantes sobre masculinidade, ego e resistência à mudança. Mas, novamente, tudo isso é abordado de maneira superficial, como se o filme estivesse sempre à beira de dizer algo relevante, mas preferisse recuar no último instante.
“Nossos Tempos” poderia ser um estudo íntimo sobre como o tempo afeta o amor, os papéis de gênero e o próprio senso de pertencimento. Tinha elementos para isso. Mas prefere seguir um caminho seguro, previsível e excessivamente sentimental, que empobrece sua potência inicial. A ficção científica, tão promissora, vira um acessório ao invés de motor da narrativa. E o romance, em vez de se tornar o fio condutor de grandes dilemas humanos, se limita a um jogo de idas e vindas que parece saído de um folhetim.
É o tipo de filme que começa com ambição e termina com pressa, desperdiçando boas ideias ao optar por atalhos fáceis. Não chega a ser um desastre, mas também está longe de ser memorável. Fica como uma experiência curiosa, interessante pelo conceito, mas decepcionante na execução. O tempo, ironicamente, é o que mais falta aqui: tempo de maturação narrativa, de desenvolvimento emocional e de coragem para ir além do óbvio.
Se há algo que o filme consegue provar, mesmo com tropeços, é que a viagem no tempo sempre diz mais sobre o presente do que sobre o passado ou o futuro. E neste presente, a expectativa por histórias que combinem emoção e inteligência continua alta. “Nossos Tempos” teve a chance de se tornar uma dessas histórias, mas preferiu a segurança de um caminho já trilhado.
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