“Nuremberg” parte de um dos episódios mais devastadores da história moderna e tenta organizar uma narrativa capaz de revisitar não só a brutalidade do regime nazista, mas também o impacto moral que recai sobre quem fica encarregado de julgá-lo. A trama entende a força desse cenário, porém se perde ao direcionar sua atenção para o lugar errado. Em vez de investir no peso histórico dos julgamentos, o filme decide concentrar sua energia na relação entre o psiquiatra americano Douglas Kelley e Hermann Göring, o que resulta em um drama que parece menor do que deveria ser.

A proposta inicial tem potencial. Existe interesse genuíno em entender como um oficial de alta patente do nazismo se comporta diante da derrota e como um psiquiatra tenta acessar a estrutura mental desse homem. Mas o filme se apoia tanto nesses encontros que esvazia o próprio contexto dos julgamentos, que eram o real eixo moral da história. A escolha de priorizar o jogo psicológico entre Kelley e Göring deixa o longa limitado, porque o filme abandona a pergunta mais importante: como responsabilizar um regime inteiro por uma tragédia que marcou o século.
Russell Crowe surge como a força mais sólida do longa. O ator entrega seu trabalho mais vigoroso em muitos anos, com uma presença que mistura inteligência, manipulação e um senso de domínio que incomoda, porque revela a frieza que sustentou o nazismo por tanto tempo. Crowe constrói Göring como alguém que entende o poder da narrativa e tenta moldar sua imagem até o último segundo. Ele dá ao personagem uma energia quase hipnótica que carrega cada cena em que aparece.
Do outro lado, Rami Malek não acompanha essa intensidade. Sua composição de Douglas Kelley é limitada por escolhas expressivas engessadas, repetitivas e que não dialogam com a dimensão emocional do personagem. O resultado é um desequilíbrio visível. Quando Malek e Crowe dividem a tela, o contraste parece desproporcional, como se cada ator estivesse atuando em filmes diferentes. Essa desconexão compromete não apenas o drama, mas também a própria construção do conflito central.
Há ainda uma outra decisão estrutural que prejudica o conjunto. Quando o roteiro finalmente se volta aos julgamentos, ele os trata quase como uma disputa competitiva entre acusação e defesa, como se aquele tribunal fosse um ringue aguardando vencedores. A abordagem simplifica demais um acontecimento que exigia profundidade, rigor e consciência histórica. O longa tenta construir tensão processual, mas perde o valor moral que deveria sustentar cada depoimento, cada prova, cada documento apresentado. A gravidade dos fatos se dilui, e o filme se distancia do próprio propósito.
Em termos formais, “Nuremberg” possui acertos pontuais. A reconstituição de época funciona, a fotografia abraça tons austeros que refletem a atmosfera de devastação do pós-guerra e a trilha sonora contribui sem exageros. Mas esses elementos nunca encontram unidade dramática suficiente para transformar o longa na obra que ele tenta ser. O filme é extenso, exaustivo e carrega uma duração que não se justifica, especialmente quando o roteiro insiste em circular em torno de diálogos que não avançam o conflito.
No fim, “Nuremberg” entrega uma atuação memorável de Russell Crowe, mas falta rigor ao que o cerca. A narrativa carece de profundidade, o foco dramatúrgico se desvia do essencial e a condução não encontra a contundência necessária para revisitar um dos julgamentos mais importantes da história contemporânea. O resultado é um filme que reconhece o tamanho do que tem nas mãos, mas não encontra a força para carregá-lo.
“Nuremberg”
Direção: James Vanderbilt
Roteiro: James Vanderbilt
Elenco: Rami Malek, Russell Crowe, Michael Shannon
Disponível nos cinemas a partir de 26 de fevereiro de 2026
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