Existem filmes que tentam resgatar a força do musical clássico sem compreender o peso simbólico que esse gênero carrega. “O Beijo da Mulher Aranha” parte de um desafio complexo. Adaptar uma obra marcada por dor política, repressão sexual e fantasia escapista exige equilíbrio entre forma e conteúdo. Bill Condon entende parte dessa equação, mas o resultado revela uma obra que oscila entre encanto visual e limites evidentes de execução.

Ambientado na Argentina dos anos 80, o filme acompanha Valentín, interpretado por Diego Luna, um preso político encarcerado durante a ditadura militar. Dividindo a cela está Molina, vivido por Tonatiuh, um homem gay preso sob acusações morais e sociais. Para sobreviver ao ambiente opressor, Molina recorre à imaginação. Ele reconstrói, cena a cena, seu musical hollywoodiano favorito, protagonizado pela diva Ingrid Luna, personagem de Jennifer Lopez. A fantasia surge como ferramenta de sobrevivência emocional e resistência simbólica.
Essa estrutura narrativa estabelece o principal eixo do filme. O contraste entre a brutalidade do cárcere e o brilho das sequências musicais cria uma tensão constante. Condon opta por delimitar o musical ao espaço da imaginação, estratégia já conhecida em outras adaptações do gênero. Funciona como escolha segura, mas também previsível. Com o tempo, essa separação enfraquece o impacto das transições entre realidade e fantasia.
Visualmente, o longa aposta em cores vibrantes, cenários estilizados e coreografias que evocam o glamour do cinema clássico. Ainda assim, a estética carrega a rigidez do digital contemporâneo, distante da textura orgânica que marcou a era dourada de Hollywood. A intenção estética é clara, mas o acabamento denuncia limites de orçamento e linguagem.
Narrativamente, o filme encontra sua maior força na relação entre Valentín e Molina. Diego Luna sustenta um personagem contido, político e racional, enquanto Tonatiuh entrega uma atuação expansiva, sensível e profundamente humana. O vínculo que se forma entre eles cresce de maneira orgânica, transformando o confinamento em espaço de troca, afeto e descoberta. A história pertence a Molina, e o filme entende isso com precisão emocional.
Jennifer Lopez, como a estrela idealizada, atua com entrega e consciência do exagero que o papel exige. Sua presença funciona mais como símbolo do que como personagem dramático, representando o desejo de fuga, glamour e amor absoluto que Molina projeta. Ainda assim, o filme carece de números musicais realmente memoráveis. As canções cumprem função narrativa, mas raramente permanecem após o fim da sessão.
“O Beijo da Mulher Aranha” busca dialogar com a tradição dos grandes musicais ao mesmo tempo em que carrega o peso de uma história política e íntima. Essa ambição sustenta o filme, mesmo quando ele tropeça em escolhas formais conservadoras. É uma obra que emociona mais pelo afeto entre seus personagens do que pelo espetáculo que promete.
No fim, o longa se afirma como um musical de contrastes. Brilha na atuação, especialmente na entrega de Tonatiuh, e hesita na grandiosidade que seu formato sugere. Ainda assim, preserva algo essencial. A crença de que imaginar, cantar e amar continuam sendo gestos de resistência, mesmo em tempos de opressão.
“O Beijo da Mulher Aranha”
Direção: Bill Condon
Elenco: Diego Luna, Tonatiuh, Jennifer Lopez
Disponível em: 15 de janeiro de 2026 no cinema
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