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Crítica: “O Bom Vizinho” (The Good Neighbor)

O filme “O Bom Vizinho” se apresenta como um suspense interessado menos no crime em si e mais na erosão moral silenciosa que se instala quando a culpa encontra um terreno frágil. Dirigido por Stephan Rick, o filme parte de uma premissa conhecida, dois homens comuns, um acidente fatal, uma decisão errada, mas encontra seu verdadeiro campo de tensão no que vem depois, quando o acaso deixa de ser acidente e passa a ser escolha.

Crítica: “O Bom Vizinho” (The Good Neighbor)

David, vivido por Luke Kleintank, carrega no corpo e no olhar o peso imediato do erro. A morte da jovem atropelada funciona como um gatilho que desorganiza completamente sua noção de mundo. O filme acompanha esse colapso interno com insistência, transformando o personagem em um retrato constante de ansiedade, medo e arrependimento. A culpa aqui não surge como catarse, mas como prisão, uma força que paralisa e corrói cada tentativa de seguir adiante.

É nesse espaço de vulnerabilidade que Robert, interpretado por Jonathan Rhys Meyers, cresce de maneira inquietante. A amizade entre os dois, construída de forma quase automática, revela-se um terreno fértil para manipulação. O que inicialmente parece apoio se transforma em controle. O que começa como silêncio cúmplice evolui para chantagem emocional. Robert representa a face mais perigosa do filme: aquela que se alimenta do erro alheio para exercer poder.

“O Bom Vizinho” dialoga com uma longa tradição de suspenses psicológicos que exploram o pacto moral quebrado, lembrando obras em que o verdadeiro terror nasce da convivência e não do ato violento em si. Ainda assim, o roteiro opta por caminhos bastante reconhecíveis, o que diminui o impacto de suas viradas. O espectador rapidamente antecipa movimentos, reações e desfechos, criando uma sensação de déjà-vu que enfraquece a ambição dramática da proposta.

Mesmo assim, existe algo de funcional nessa simplicidade. O filme se sustenta mais pela atmosfera do que pela surpresa. A narrativa avança em ritmo contido, quase claustrofóbico, reforçando a ideia de que aquele erro inicial nunca deixa a cena. A tragédia permanece como um fantasma constante, observando cada gesto, cada decisão, cada tentativa frustrada de normalidade.

Jonathan Rhys Meyers constrói um personagem deliberadamente incômodo. Robert jamais busca empatia. Pelo contrário, sua presença é calculada para causar repulsa. O filme parece consciente disso e usa essa antipatia como motor narrativo, criando um contraste interessante entre o remorso explícito de David e a frieza estratégica de seu vizinho. A dinâmica entre os dois sustenta o longa mesmo quando o roteiro começa a repetir fórmulas já vistas em outros títulos do gênero.

No fim, “O Bom Vizinho” funciona como um suspense direto, sem grandes invenções, mas atento às pequenas perversões do convívio humano. Não é um filme que reinventa o gênero, porém encontra algum valor ao expor como a culpa pode ser explorada como moeda de troca e como o medo, quando mal orientado, abre espaço para relações profundamente tóxicas. Uma obra modesta, mas que compreende que o verdadeiro perigo nem sempre está no crime, e sim em quem decide o que fazer com ele.

“O Bom Vizinho”
Direção
: Stephan Rick
Roteiro: Silja Clemens, Ross Partridge
Elenco: Jonathan Rhys Meyers, Luke Kleintank, Bruce Davison
Disponível em: Prime Video

Avaliação: 3 de 5.

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