Existe um gesto delicado em “O Diário de Pilar na Amazônia” que atravessa o filme do início ao fim. O de apresentar a Amazônia como território vivo, simbólico e afetivo, distante da caricatura turística e mais próxima de um espaço onde cultura, memória e urgência ambiental caminham juntas. A adaptação da obra de Flávia Lins e Silva chega ao cinema com vocação clara para dialogar com o público infantil, mas carrega ambições maiores ao mirar também o imaginário coletivo brasileiro.
Pilar surge como essa personagem curiosa, expansiva e movida pela descoberta. A jornada começa com um chamado clássico da aventura, atravessado por um elemento mágico que funciona como ponte entre o real e o fantástico. A rede herdada do avô atua como metáfora de pertencimento e herança cultural, conectando passado, presente e território. Ao lado de Breno e do gato Simba, a protagonista entra na floresta como quem entra em um livro aberto, consciente de que cada passo revela uma nova camada de aprendizado.
O maior acerto do filme está na maneira como transforma a Amazônia em personagem, e não apenas cenário. A floresta respira, reage e observa. A presença de Maiara e de sua comunidade ribeirinha amplia o escopo da narrativa, deslocando a aventura do plano individual para uma dimensão coletiva. O desmatamento deixa de ser conceito abstrato e ganha impacto emocional, especialmente quando atinge lares, histórias e vínculos.
O roteiro aposta em figuras do folclore brasileiro como mediadores simbólicos dessa travessia. São presenças que reforçam a identidade cultural da obra e dialogam com a tradição oral, algo raro no cinema infantil nacional contemporâneo. Existe aí um cuidado evidente em apresentar mitos como parte de uma cultura viva, integrada ao cotidiano e ao imaginário das crianças.
Visualmente, o filme aposta em uma estética luminosa e acessível. A fotografia valoriza os verdes intensos e os rios como caminhos narrativos, criando uma experiência envolvente e convidativa. As atuações mirins sustentam bem o tom da proposta, com naturalidade e carisma, especialmente Lina Flor, que constrói uma Pilar vibrante e empática, capaz de conduzir a história sem artificialidade.
Há, porém, escolhas que tensionam o discurso do próprio filme. A narrativa escorrega em certos momentos para uma lógica de salvacionismo já conhecida, com crianças brancas de classe média assumindo o papel central em conflitos que atravessam populações historicamente afetadas. Essa camada revela uma disneyficação perceptível da jornada, suavizando conflitos complexos em favor de uma resolução mais confortável.
Outro ponto que chama atenção está na homogeneização de sotaques, especialmente em personagens simbólicos. Quando até a Mãe da Terra soa carioca, o efeito simbólico perde força e causa estranhamento. A decisão dialoga com uma tentativa de padronização que enfraquece a diversidade que o próprio filme busca exaltar.
O uso de animais em CGI também cria um leve ruído estético. Em uma obra tão comprometida com a organicidade da floresta, esses elementos artificiais quebram a imersão e contrastam com o cuidado aplicado em outras frentes visuais.
Ainda assim, “O Diário de Pilar na Amazônia” se sustenta como uma experiência sensível, bem-intencionada e relevante. O filme acerta ao tratar seu público com respeito, oferecendo uma narrativa que educa sem ser didática e emociona sem recorrer ao excesso. Existe beleza no modo como convida crianças a enxergar o Brasil como espaço de diversidade, responsabilidade e pertencimento.
A adaptação cumpre um papel fundamental ao levar Pilar para além das páginas e colocá-la diante de um público mais amplo. Uma obra que dialoga com a infância, mas também provoca o adulto atento, aquele que entende que formar imaginários importa tanto quanto contar boas histórias.
“O Diário de Pilar na Amazônia”
Ano: 2026
Direção: Duda Vaisman e Rodrigo Van Der Put
Roteiro: João Costa Van Hombeeck e Flávia Lins e Silva
Elenco: Lina Flor, Miguel Soares e Sophia Ataíde
Disponível em: cinemas a partir de 15 de janeiro de 2026
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