O poder costuma ruir de dentro para fora, especialmente quando se sustenta em silêncio, medo e conveniência. Quando a engrenagem começa a ranger, o que se revela jamais é elegante. O filme escolhe entrar exatamente nesse ponto de ruptura, onde estruturas milionárias desmoronam diante da coragem individual, mesmo que essa coragem carregue contradições difíceis de ignorar.

“O Escândalo” se debruça sobre o colapso de uma das figuras mais influentes do telejornalismo norte-americano, expondo um sistema que normalizou o abuso como moeda de troca profissional. A narrativa acompanha diferentes mulheres que, em momentos e posições distintas, passam a questionar a autoridade absoluta de Roger Ailes. O interesse do filme reside menos na cronologia dos fatos e mais na sensação constante de desconforto que permeia corredores, salas fechadas e conversas sussurradas.
O maior trunfo está nas atuações. Charlize Theron impressiona pela transformação física e pela contenção emocional, criando uma personagem que parece permanentemente em estado de vigilância. Nicole Kidman trabalha em outra chave, mais silenciosa, usando pausas e hesitações como forma de revelar o peso das escolhas feitas ao longo da carreira. Margot Robbie, por sua vez, representa a face mais vulnerável da história, alguém ainda em construção profissional e emocional, lidando com a violência velada do poder institucional. O trio sustenta o filme com intensidade e precisão, elevando um material que poderia facilmente escorregar para o didatismo.
Jay Roach opta por uma estrutura fragmentada, alternando pontos de vista e linhas narrativas que avançam em paralelo. Essa escolha gera impacto inicial, mas também cria um distanciamento progressivo. Em vez de convergir para um clímax emocional único, o roteiro de Charles Randolph prefere acumular situações, como se apresentasse versões simultâneas de uma mesma ferida. O resultado é informativo e envolvente, mas raramente devastador, o que pode frustrar quem espera uma catarse mais explícita.
Outro ponto delicado surge na forma como algumas figuras reais são retratadas. Ao tentar construir um discurso de bravura e enfrentamento, o filme suaviza aspectos controversos de certas personagens públicas. Essa limpeza narrativa gera um incômodo legítimo, pois transforma um caso estrutural em uma história de heroísmo seletivo. Ainda assim, o longa se mantém relevante ao expor mecanismos de abuso que ultrapassam indivíduos específicos e se enraízam em culturas corporativas inteiras.
Visualmente, a produção aposta em reconstrução detalhista e ritmo televisivo, reforçando a sensação de bastidores e urgência jornalística. Não existe espaço para glamour, e isso funciona a favor da proposta. O filme prefere a tensão contida à explosão dramática, respeitando a gravidade do tema sem recorrer a exageros.
“O Escândalo” pode não ser definitivo nem totalmente corajoso em suas escolhas, mas permanece potente por colocar o foco nas fissuras de um sistema que se acreditava intocável. Não se trata de um manifesto perfeito, e sim de um retrato incômodo, sustentado por performances que merecem atenção. É um filme que provoca reflexão mais do que aplauso, e talvez essa seja sua maior virtude.
“O Escândalo”
Direção: Jay Roach
Elenco: Charlize Theron, Nicole Kidman, Margot Robbie
Disponível em: Prime Video
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