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Crítica: “O Estranho”

Quando um espaço de passagem se transforma em território de memória, o cinema encontra um campo delicado, onde cada imagem carrega mais do que aquilo que se vê. “O Estranho” parte dessa inquietação ao olhar para o Aeroporto Internacional de São Paulo/Guarulhos como um organismo vivo, erguido sobre camadas de história que insistem em permanecer, mesmo quando soterradas pelo concreto.

Crítica: “O Estranho”

A escolha de ambientar a narrativa nesse cenário não é casual. O aeroporto, com seu fluxo incessante de pessoas, funciona como metáfora de deslocamento, esquecimento e transformação. É nesse chão que o filme tenta reconstruir rastros de um passado apagado, propondo uma espécie de arqueologia emocional da cidade. A protagonista, vivida por Larissa Siqueira, carrega no olhar essa tensão entre pertencimento e perda, como alguém que habita um lugar que já não reconhece completamente.

A direção de Flora Dias e Juruna Mallon aposta em uma construção sensorial. A fotografia busca detalhes, texturas, silêncios. Há uma tentativa clara de fazer com que o espectador sinta o espaço antes mesmo de compreendê-lo. Os enquadramentos revelam mais do que informam, criando uma atmosfera que oscila entre o concreto e o etéreo, especialmente quando o filme se permite caminhar por paisagens que evocam uma conexão mais direta com a natureza.

Nesse ponto, a obra encontra seus momentos mais potentes. Quando se aproxima de uma dimensão quase espiritual, sugerindo vínculos com ancestralidade e território, o filme ganha força e identidade. Existe uma poesia latente nessas passagens, uma tentativa sincera de resgatar vozes que foram silenciadas pelo avanço urbano.

Por outro lado, a estrutura narrativa apresenta rupturas que dificultam o envolvimento. A transição entre ficção e documentário surge de forma abrupta, quebrando o fluxo e fragmentando a experiência. O que poderia ser um diálogo enriquecedor entre formas acaba soando como desconexão, como se o filme buscasse abarcar mais do que consegue sustentar.

A proposta de discutir memória, colonização e apagamento cultural é ambiciosa e necessária. No entanto, a execução nem sempre acompanha essa intenção. Sequências que parecem promissoras se dissipam sem desenvolvimento, enquanto outras ideias surgem sem encontrar continuidade. A sensação é de um projeto que carrega urgência temática, mas que se perde ao tentar organizar suas próprias camadas.

Ainda assim, há mérito na tentativa. O filme se recusa a seguir caminhos convencionais, optando por uma abordagem que privilegia sensações e fragmentos em vez de uma narrativa linear. Essa escolha pode afastar parte do público, mas também reforça sua identidade como obra que busca provocar mais do que explicar. Quando acerta, toca em questões profundas sobre pertencimento e memória coletiva. Quando falha, deixa lacunas difíceis de ignorar.

“O Estranho” permanece como uma experiência que ecoa mais por suas intenções do que por sua execução. Um filme que tenta escavar o passado de um território em constante transformação, ainda que nem sempre consiga organizar os próprios achados. O olhar final, carregado de melancolia, sintetiza essa busca, como se a resposta estivesse sempre um pouco além do alcance.

“O Estranho”
Direção
: Flora Dias, Juruna Mallon
Elenco: Larissa Siqueira, Rômulo Braga, Patrícia Saravy
Disponível em: Filmicca

Avaliação: 3 de 5.

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