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Crítica: “O Frio da Morte” (Dead Of Winter)

Perder alguém já é, por si só, uma travessia em terreno congelado. Agora imagine transformar o luto em estrada, neve e isolamento absoluto. “O Frio da Morte” parte dessa imagem quase poética para construir um suspense que entende uma coisa essencial: o verdadeiro gelo não está na paisagem, mas nas decisões que precisam ser tomadas quando ninguém mais pode ajudar.

Crítica: “O Frio da Morte” (Dead Of Winter)

Barb, dona de uma loja de artigos de pesca, decide cumprir um ritual íntimo. Levar as cinzas do marido até o Lago Hilda, no remoto norte de Minnesota, onde viveram suas primeiras férias juntos. O que deveria ser despedida se transforma em sobrevivência. Uma nevasca a engole, as estradas desaparecem sob camadas de branco e, ao buscar abrigo em uma cabana isolada, ela descobre algo ainda mais perturbador que o frio: uma jovem mantida em cativeiro por um casal aparentemente comum.

A partir desse ponto, o filme abraça o minimalismo. Poucos personagens, cenário limitado, silêncio cortado pelo som de botas afundando na neve. O diretor Brian Kirk constrói tensão com economia. Não há trilha grandiosa anunciando perigo. Há respiração ofegante, portas rangendo, o estalo seco de um disparo distante. Cada ruído parece maior porque o silêncio ao redor é absoluto.

Emma Thompson sustenta praticamente toda a estrutura dramática. Sua Barb é construída sem discursos inflamados ou gestos exagerados. O que vemos é uma mulher comum, atravessada pela dor, que descobre reservas de força onde nem imaginava existir. O rosto carrega cansaço, medo e determinação. Pequenas escolhas dizem mais que qualquer monólogo. Um olhar sustentado por segundos a mais do que o confortável já revela tudo.

O roteiro aposta na ideia clássica da heroína improvável. Uma viúva enlutada que se torna a única esperança de outra mulher. A diferença está no tom. Não existe glamour na violência. Quando ela acontece, é seca, direta, desconfortável. O filme entende que sobrevivência não é espetáculo, é resistência crua.

Ainda assim, a narrativa tropeça em um ponto específico. Em determinados momentos, flashbacks surgem para explicar a dor de Barb. A intenção é aprofundar o vínculo emocional com o espectador, mas a própria atuação de Thompson já comunica essa dor com precisão. Ao insistir em explicar o que já está claro, o ritmo perde fôlego justamente quando a tensão começa a escalar. É como se o filme duvidasse da inteligência de quem assiste.

Os antagonistas cumprem seu papel com eficiência. São inquietantes, mas mantidos dentro de um registro realista. Não se transformam em caricaturas demoníacas. Isso fortalece o desconforto, porque o mal aqui se apresenta com naturalidade banal. Pessoas comuns, decisões cruéis. O horror nasce dessa proximidade.

O clímax entrega a escalada esperada. A violência aumenta, o perigo se intensifica, a sobrevivência exige sacrifícios físicos e emocionais. Funciona. É eficaz. Talvez falte um elemento de surpresa que eleve a experiência a outro patamar, mas a execução é sólida. “O Frio da Morte” prefere consistência a ousadia.

Existe algo interessante na forma como o luto se entrelaça à narrativa de ação. A jornada de Barb não é só para salvar Leah. É também um reencontro brutal consigo mesma. Ao enfrentar o perigo, ela confronta a própria paralisia emocional. O frio externo espelha o entorpecimento interno. E cada passo na neve parece um passo rumo à reconexão com a própria vitalidade.

O resultado é um thriller enxuto, atmosférico, sustentado por uma performance central poderosa. Talvez não seja daqueles filmes que permanecem reverberando por semanas, mas cumpre sua função com competência. Um suspense gelado que entende que coragem pode nascer no momento em que tudo parece congelado demais para reagir.

“O Frio da Morte”
Direção
: Brian Kirk
Elenco: Emma Thompson, Judy Greer, Marc Menchaca
Disponível em: nos cinemas brasileiros

Avaliação: 3.5 de 5.

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