O jogo de espionagem que parecia encerrado com um ponto final elegante retorna como uma cicatriz que volta a doer quando o clima muda. O universo de “O Gerente da Noite” encontra uma nova forma de se infiltrar na pele do espectador, mais quente, mais sujo e ainda mais obcecado por poder, desejo e culpa. A segunda temporada chega com a tranquilidade enganosa de quem sabe exatamente onde cutucar, trazendo de volta Jonathan Pine como um homem que sobreviveu ao inferno, mas jamais saiu dele por inteiro.

O que se desenha logo nos primeiros minutos é uma série que entende seu próprio legado. O passado vira uma presença física, quase um personagem invisível, moldando cada escolha de Jonathan. O antigo duelo contra Richard Roper segue como uma sombra emocional que contamina cada gesto, mesmo quando o vilão já virou história. A série compreende que traumas em narrativas de espionagem costumam funcionar como bombas-relógio, e Pine segue vivendo com uma delas presa ao peito.
Agora escondido sob outra identidade e estacionado em um setor burocrático do serviço secreto britânico, Jonathan tenta existir longe do fogo cruzado. Só que a paz, nesse tipo de história, sempre é um luxo temporário. Quando surge Teddy Dos Santos, um traficante de armas colombiano carismático e perigosamente impulsivo, tudo que Jonathan acreditava ter enterrado volta à superfície. Teddy surge como uma versão ainda crua daquilo que Roper representava, um predador que ainda aprende a caçar, o que o torna mais imprevisível e mais letal.
Diego Calva entrega um antagonista que mistura arrogância juvenil e fome de domínio, criando um contraste fascinante com o controle quase aristocrático que Hugh Laurie imprimia ao vilão original. Teddy quer ser rei antes de entender como funciona o trono, e essa insegurança vira seu ponto mais perigoso. Ao seu lado, Camila Morrone constrói Roxana Bolaños como uma mulher que sobrevive equilibrando desejo e autopreservação. Sua relação com Jonathan nasce carregada de tensão, como se cada troca de olhares escondesse uma negociação silenciosa de riscos.
Tom Hiddleston volta ao papel com uma precisão que impressiona. Jonathan Pine permanece magnético e distante, um homem que tenta administrar o próprio vazio com disciplina quase militar. A série entende que o maior inimigo do protagonista nunca foi o crime organizado, mas sua atração pelo perigo. Nem mesmo as sessões de terapia conseguem abrir por completo esse cofre emocional que ele insiste em manter trancado. Kirby Howell Baptiste, como a terapeuta, surge como um raro ponto de humanidade em meio ao gelo, lembrando ao personagem que emoções reprimidas costumam explodir da pior forma.
Olivia Colman, mesmo com menos tempo em cena, continua sendo o coração moral da história. Angela Burr aparece como um fantasma do que Jonathan foi e do que poderia ter sido. Cada entrada sua em cena carrega o peso de uma história que jamais aceita ser encerrada, reforçando que espionagem, aqui, nunca é sobre missões, mas sobre dívidas emocionais.
A nova temporada encontra espaço para ousar mais na sensualidade e na ambiguidade. A atração entre Jonathan e Teddy é palpável, construída em silêncios, proximidades perigosas e jogos de poder que lembram mais um duelo erótico do que uma investigação policial. Mesmo quando a série recua em explorar certas fronteiras, essa tensão nunca desaparece por completo, funcionando como uma corrente elétrica atravessando a narrativa.
Outro destaque inesperado vem de Hayley Squires, que interpreta Sally, a aliada que opera ainda mais nas sombras do que Jonathan. Ela oferece o calor humano que o protagonista insiste em negar a si mesmo, tornando cada cena compartilhada uma pequena brecha de afeto em um universo dominado por desconfiança.
Narrativamente, a segunda temporada avança em ritmo mais acelerado e menos contemplativo. O mundo de “O Gerente da Noite” já não pode se dar ao luxo da elegância fria da primeira fase. Aqui, tudo pulsa com urgência, como se cada episódio lembrasse que o passado nunca aceita ser esquecido, mesmo quando seu corpo já foi enterrado.
Essa volta tardia entende que a série existe em outra era da televisão. O texto se torna mais direto, os conflitos mais físicos e o perigo mais constante. Ainda assim, o coração da história permanece intacto. O que realmente move Jonathan Pine segue sendo a incapacidade de se libertar do homem que ele precisou ser para sobreviver.
“O Gerente da Noite”
Direção: Georgi Banks Davies
Elenco: Tom Hiddleston, Olivia Colman, Diego Calva, Camila Morrone, Elizabeth Debicki, Alberto Ammann
Disponível em: Amazon Prime Video | Resenha baseada nos episódios ja disponibilizados pela plataforma.
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