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Crítica: “O Presidente Surdo” (Deaf President Now!)

Há histórias que mudam o mundo, mas que não ganham as capas dos jornais. “O Presidente Surdo” é uma dessas histórias. E a força desse documentário está justamente em sua habilidade de recuperar, com método e intensidade, um movimento real de transformação social que permaneceu fora dos holofotes durante décadas. Com direção de Davis Guggenheim e Nyle DiMarco, o longa apresenta a revolta estudantil de 1988 na Universidade Gallaudet com rigor histórico, energia política e uma sofisticação narrativa que o posiciona como um dos mais importantes registros documentais da luta por direitos civis na comunidade surda.

Crítica: “O Presidente Surdo” (Deaf President Now!)

Mesmo com uma estrutura tradicional, o filme jamais se contenta com a cronologia fácil ou com a emoção plástica. O que há aqui é um mergulho estratégico em um processo de resistência coletiva, orquestrado por estudantes que recusaram passivamente o papel de espectadores do próprio destino. A escolha de um reitor ouvinte para liderar a única universidade para surdos do mundo não foi apenas um erro administrativo, foi um insulto institucionalizado. O filme reconstrói esse absurdo com precisão e fúria controlada.

O uso de imagens de arquivo é exemplar. Não apenas contextualiza o cenário dos anos 1980, como restitui a urgência do momento, colocando o espectador dentro da pulsação daqueles oito dias de ocupação, protesto e enfrentamento. O documentário não idealiza a luta, mas revela sua logística, seus impasses internos e a maturidade política de jovens que entenderam, desde cedo, o valor da pressão organizada como instrumento de conquista.

Outro mérito incontornável é a escuta. O filme prioriza as vozes da comunidade surda sem didatismo, sem intermediações paternalistas e sem transformar a língua de sinais em barreira narrativa. Ao contrário, ela é protagonista estética e política. Os depoimentos dos chamados “Gallaudet Four” são precisos, articulados e potentes, e cada um deles carrega uma camada de lucidez que desmonta a retórica institucional com um gesto. A fala aqui é feita com o corpo, e é impossível ignorar o quanto isso se torna um ato político em si.

O documentário também constrói um retrato devastador da elite acadêmica que comandava a universidade. A figura de Jane Bassett Spilman, presidente do conselho na época, é exposta com inteligência, sem caricatura. É o tipo de liderança que revela, por contraste, a brutal desconexão entre poder e realidade.

Mas “O Presidente Surdo” vai além da denúncia. Ele documenta um processo de transformação que teve impacto direto na criação de políticas públicas inclusivas, como o Americans with Disabilities Act. Ou seja, sua importância extrapola o campus universitário e se conecta à luta de milhões de pessoas por representação, acesso e dignidade.

Mesmo sem buscar inovações formais, o filme entende exatamente onde quer chegar. Não é sobre estilo, é sobre função. E sua função é clara: resgatar uma luta real, com protagonistas reais, que provaram ser capazes de mudar a estrutura de poder com organização, coragem e clareza de propósito.

Mais do que um registro histórico, “O Presidente Surdo” é uma aula prática sobre ativismo eficiente. É uma resposta objetiva a qualquer estrutura que se diz progressista, mas ainda exclui quem não fala da forma que ela espera ouvir.

Título: “O Presidente Surdo”
Direção: Davis Guggenheim, Nyle DiMarco
Elenco: Documentário com entrevistas de I. King Jordan, Gallaudet Four e comunidade da Universidade de Gallaudet
Disponível em: Apple TV+

Avaliação: 3.5 de 5.

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