O medo ganha outra textura quando nasce de algo que deveria ser doméstico. Um animal criado como filho, uma casa de vidro à beira do paraíso e uma sensação de segurança que se desfaz em segundos. O terror que se instala ali carrega um tipo específico de perversidade, aquele que surge quando o afeto vira ameaça. A partir desse choque, o filme transforma a ideia de lar em um campo de guerra.

Em “O Primata”, Lucy retorna da faculdade para um reencontro de verão com o pai, a irmã e Ben, o chimpanzé que sua mãe cientista criou como parte da família. Tudo parece seguir o roteiro de um drama afetivo até que uma mordida muda o curso da história. Infectado por raiva, Ben se torna uma força incontrolável, uma presença que mistura instinto, violência e um tipo distorcido de memória. A piscina da casa passa a ser o único espaço seguro, o que por si só já cria uma imagem poderosa, humanos cercados por água tentando escapar de um animal que conhece cada canto daquela propriedade.
Johannes Roberts dirige o caos com um carinho quase fetichista pelo horror dos anos 1980 e 1990. A influência de “Halloween” se manifesta no uso de sintetizadores e na maneira como a câmera acompanha o predador, enquanto o espírito de “Monkey Shines”, “Link” e “Shakma” paira sobre cada cena de carnificina. O filme se assume como um slasher de criatura, mais interessado em tensão e impacto do que em sutilezas psicológicas.
A violência é gráfica, exagerada e por vezes grotescamente divertida. Membros sendo arrancados, ossos quebrando, gritos que ecoam pelos corredores de vidro. Existe uma crueza que lembra o cinema exploitation, algo que abraça o absurdo como linguagem. Em certos momentos, o próprio Ben se comunica com os humanos por meio de um aplicativo de voz, um toque de humor sombrio que reforça o tom quase insano da proposta.
Os efeitos práticos e visuais dão ao chimpanzé uma presença física convincente. A criatura parece ao mesmo tempo real e monstruosa, como se a natureza tivesse decidido assumir o papel de vilã em um conto de horror. Essa materialidade faz toda a diferença, já que o terror depende da sensação de que aquele animal realmente pode saltar da tela.
O elenco jovem cumpre o básico, mesmo quando os personagens apresentam pouca profundidade. O destaque fica por conta de Troy Kotsur como o pai de Lucy, um homem que ama o animal e precisa lidar com a culpa de ter ajudado a criar o monstro que agora ameaça tudo. Sua atuação adiciona uma camada emocional inesperada em meio ao banho de sangue.
“O Primata” talvez jamais busque prestígio crítico, mas entende perfeitamente seu público. O filme oferece exatamente o que promete, um carnaval de violência animal, nostalgia de terror oitentista e uma energia quase punk. Trata-se de um espetáculo feroz, exagerado e consciente do próprio ridículo, o que o torna ainda mais sedutor.
A experiência se assemelha a entrar em uma montanha russa construída por fãs de horror. O roteiro corre, os gritos explodem, o sangue jorra e o riso nervoso aparece. Uma diversão selvagem, do tipo que não pede permissão para ser absurda.
“O Primata”
Direção: Johannes Roberts
Elenco: Johnny Sequoyah, Jessica Alexander, Victoria Wyant, Troy Kotsur
Disponível em: cinemas a partir de 22 de janeiro de 2026
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