Um mar revolto, promessas de vingança e um passado que insiste em voltar à tona. É nesse cenário de sal, sangue e ressentimento que “O Refúgio” tenta erguer sua bandeira. A ideia é sedutora. Final do século 19, uma ex-pirata caribenha que construiu uma nova vida longe dos saques e da pólvora vê seu mundo ruir quando o antigo capitão reaparece. O que poderia ser um drama de redenção com tintas épicas rapidamente se revela um produto que aposta mais na superfície do que na densidade.

A premissa carrega ecos de clássicos de aventura marítima, daqueles que transformam o oceano em personagem e fazem do convés um palco de honra e traição. O problema é que aqui o mar parece raso. A narrativa escolhe o caminho mais previsível possível e não demonstra interesse em sair dele. Cada reviravolta soa anunciada, cada confronto surge embalado por uma sensação de déjà vu que mina qualquer expectativa de surpresa.
Há uma tentativa clara de imprimir peso estético à produção. A fotografia aposta em contrastes acentuados, cores sujas, um verniz sombrio que remete a trailers cheios de fumaça e metal. No entanto, estética sem substância vira embalagem vazia. O CGI irregular compromete sequências que deveriam ser grandiosas. Em vez de tensão, instala-se um cansaço visual. As batalhas entram em repetição, como se coreografadas no automático, sem criatividade para transformar ação em espetáculo memorável.
No centro da história está a personagem vivida por Priyanka Chopra Jonas, alçada mais uma vez ao posto de heroína de ação. Existe entrega física, existe presença de tela, mas falta convicção dramática. A construção dessa guerreira implacável não encontra sustentação no texto. É difícil comprar a ideia de uma pirata temida quando o roteiro insiste em mantê-la intocável, quase impecável demais para aquele universo de lama e cicatrizes. O figurino contribui para essa desconexão, com roupas que parecem recém-saídas de um ensaio fotográfico, e não de anos sob sol e maresia.
Do outro lado, Karl Urban abraça o arquétipo do antagonista com familiaridade. Ele sabe ser ameaça, sabe ocupar o espaço com olhar duro e presença física. Ainda assim, o vilão carece de camadas. Seu sotaque oscila, sua motivação se dilui em clichês e o que poderia ser um embate psicológico intenso se reduz a confrontos protocolares. Há talento em cena, mas o material oferecido não acompanha.
Os diálogos pesam contra o filme. Frases que deveriam carregar dor e ressentimento soam artificiais, quase didáticas. Falta subtexto, falta silêncio significativo, falta aquele momento em que o olhar diz mais que a fala. A direção de Frank E. Flowers opta por uma condução segura demais, sem risco, sem ousadia estética ou narrativa que diferencie “O Refúgio” de tantas outras produções de catálogo.
Dentro do universo do streaming, especialmente no contexto da Amazon Prime Video, existe uma expectativa clara de entretenimento ágil, direto, eficiente. O filme até cumpre parcialmente essa função. Há cenas que distraem, momentos de confronto que sustentam alguma tensão, mas nada que permaneça depois que os créditos sobem. Falta identidade. Falta aquela fagulha que transforma uma história de vingança em algo maior, quase mítico.
“O Refúgio” queria ser uma saga de redenção e sobrevivência. Entrega um produto genérico, com lampejos de potencial desperdiçado. No fim das contas, o verdadeiro blefe está na promessa de intensidade que nunca se concretiza.
“O Refúgio”
Direção: Frank E. Flowers
Elenco: Priyanka Chopra Jonas, Karl Urban, Ismael Cruz Córdova
Disponível em: Amazon Prime Video
Fique por dentro das novidades das maiores marcas do mundo! Acesse nosso site Marca Pop e descubra as tendências em primeira mão.






