O som que anuncia o fim chega antes da própria morte. E quando ele ecoa, já é tarde demais para fingir que foi só curiosidade adolescente. “O Som da Morte” parte dessa premissa simples e cruel para construir um terror que mistura objeto amaldiçoado com a lógica implacável do destino inevitável.
A ideia é sedutora para qualquer fã do subgênero. Um grupo de estudantes encontra um antigo Apito da Morte asteca. Ao soprá-lo, o ruído grotesco que atravessa o ar funciona como convocação. Cada personagem passa a ser perseguido pela própria morte futura. Não é metáfora. É mecanismo narrativo. Você sopra. Você chama. Ela vem.
As comparações com Final Destination são inevitáveis e justificáveis. Assim como na franquia, a morte opera com regras quase matemáticas, organizando acidentes em cadeia com precisão mórbida. A diferença aqui está na origem do mal. Em vez de uma visão premonitória que altera o fluxo do destino, o que temos é um artefato ancestral que ativa a contagem regressiva.
O terror de objeto amaldiçoado já rendeu bons momentos em “O Grito” e “Ouija”, mas “O Som da Morte” tenta elevar a brutalidade gráfica a outro nível. E, nesse ponto, o longa dirigido por Corin Hardy entrega. As mortes são o grande espetáculo. Um acidente automobilístico em um quarto que desafia a lógica espacial e uma sequência envolvendo um triturador industrial estão entre os momentos mais impactantes. O trabalho de efeitos visuais em sangue e mutilação é convincente, visceral e feito para arrancar reações físicas da plateia.
Visualmente, o filme funciona melhor à noite. A fotografia explora sombras densas e iluminação fria, criando composições que valorizam o suspense. O design do apito em si é um acerto estético. O objeto carrega textura, história e presença. Ele parece perigoso mesmo em repouso. Quando o som rasga o silêncio, o design sonoro assume protagonismo. O barulho do apito é perturbador o suficiente para se tornar personagem.
No elenco, Dafne Keen sustenta boa parte do peso dramático com intensidade e carisma. Sua presença adiciona uma camada de seriedade a um roteiro que, em vários momentos, tropeça em diálogos expositivos e decisões questionáveis. Nick Frost aparece menos do que deveria, o que soa como oportunidade desperdiçada. Já Sophie Nélisse contribui com solidez, enquanto parte do elenco jovem oscila entre o funcional e o excessivamente caricato.
O maior problema está justamente no desenvolvimento desses adolescentes. É difícil se importar profundamente com personagens que parecem definidos por estereótipos. O roteiro investe pouco em construção emocional antes de colocá-los na linha de execução da morte. Quando a tragédia acontece, o impacto vem mais do choque visual do que da perda dramática.
Ainda assim, existe um prazer específico em assistir a esse tipo de horror sobrenatural assumidamente exagerado. Não é um filme sofisticado. Não é um estudo psicológico sobre culpa ou trauma coletivo. É um espetáculo de tensão, sangue e criatividade macabra. Dentro dessa proposta, cumpre o que promete.
Alguns espectadores irão apontar derivação excessiva. Outros enxergarão nele um exemplar competente de um subgênero que raramente recebe grandes investimentos de estúdio. A verdade é que “O Som da Morte” funciona melhor quando abraça sua natureza de entretenimento brutal e direto.
Pode não ser memorável como os grandes clássicos do terror, mas é eficiente em provocar desconforto e entregar mortes inventivas. Em um cenário de opções irregulares no cinema de horror comercial, isso já o coloca acima da média.
“O Som da Morte”
Direção: Corin Hardy
Elenco: Dafne Keen, Nick Frost, Percy Hynes White, Sophie Nélisse, Ali Skovbye, Brandon James Sim, Cameron Gordon Norris, Christine Sahely, Clayton Scott
Disponível em: cinemas brasileiros
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